Crítica

O rapaz na zona fria

Uma boa história, bem contada, com bons actores, sobre uma família que procura refundar-se a partir do regresso do filho pródigo — não é preciso mais.

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Quando há uma história bem contada por bons actores – e se Julia Roberts está a ganhar com a idade! ,Quando há uma história bem contada por bons actores – e se Julia Roberts está a ganhar com a idade! ,
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Num filme que em Portugal se chamou A Rapariga na Zona Quente, Paul Schrader punha George C. Scott, empresário conservador, à procura da filha no submundo do cinema pornográfico da Califórnia. Não sabemos se Peter Hedges se lembrou desse filme ao escrever O Ben Está de Volta, mas nós lembrámo-nos porque, na segunda hora, põe Julia Roberts, mãe dilacerada, à procura do filho na “zona quente” da cidadezinha onde vivem (que, por ser Natal e estar a nevar, está mesmo muito fria). O filho, o Ben do título, é um drogado em reabilitação que veio passar a noite de Natal a casa, decisão bem-intencionada mas que vai ter maus resultados.

A viagem de mãe e filho em busca do cão da família (cujo desaparecimento não é inocente) abre uma espécie de “porta do inferno” para o reverso da imagem de cartão postal natalício da pequena comunidade americana. E é por aí que O Ben Está de Volta começa a afastar as aparências de pequeno drama familiar/caso da vida que a sua primeira metade dava a entender (na onda de um outro título recente sobre famílias afectadas pela droga, Beautiful Boy). Sobretudo, é um filme que procura não julgar nem condenar, que se recusa a embarcar no lugar-comum, e que sabe valorizar os pequenos pormenores que às vezes dizem mais do que toda uma longa série de diálogos.

Tudo se joga numa questão de confiança erodida de parte a parte que tem de se reconquistar: O Ben Está de Volta é a tentativa de uma família se refundar a partir do regresso do filho pródigo, interpretado com intensidade por Lucas Hedges (o sobrinho de Casey Affleck em Manchester by the Sea e filho de Frances McDormand em Três Cartazes à Beira da Estrada), à sombra de uma tragédia para a qual se procura sistematicamente um culpado que talvez não exista. O Ben Está de Volta é um “pequeno” filme na recente tradição indie americana de filmes-que-há-uns-anos-teriam-sido-feitos-por-um-estúdio, ou de filmes-de-que-os-estúdios-só-se-lembram-quando-os-Óscares-se-aproximam. Por aqui não se descobrem coisas novas, mas quando há uma boa história bem contada por bons actores — e se Julia Roberts está a ganhar com a idade! — isso também não importa.