Análise

Dois lances que serviram de lição

A última jornada da I Liga trouxe para primeiro plano dois lances muito interessantes sob o ponto de vista de arbitragem. Um pelo facto de exigir uma leitura e interpretação atenta do protocolo do videoárbitro (VAR), outro porque vem evidenciar a grande diferença entre a análise em campo e na televisão em movimento normal de uma jogada, em oposição à análise frame a frame dessa mesma situação. Vamos por partes.

No jogo Vitória Guimarães-Sporting, ao minuto 53, Guedes isola-se e perante o guarda-redes Renan acaba por ser tocado. O árbitro assinala de imediato livre directo à entrada da área e mostra cartão vermelho. Por ter havido um vermelho directo o VAR em função do protocolo, foi rever o lance para ver se estava tudo correcto ou se havia alguma irregularidade e, numa primeira análise, a infracção do guarda-redes "leonino" foi dentro da área o que transformava, de imediato, o livre directo em pontapé de penálti. E como houve uma tentativa de jogar a bola, de acordo com a alteração da chamada "tripla penalização", a sanção disciplinar era apenas de amarelo.

Contudo, o árbitro, após o VAR rever o lance e recomendar uma revisão do mesmo, dirigiu-se à área de revisão para ver as imagens e acabou por decidir recomeçar o jogo com pontapé livre indirecto a favor do Sporting por fora de jogo de Guedes no início da jogada.

Em primeiro lugar, dizer que esta decisão final foi correcta e obedeceu claramente ao que está escrito em termos de protocolo. E para percebermos isso socorremo-nos do livro das leis de jogo e na página 141 o ponto 2 diz que para decisões/incidentes relacionados com golos, penálti/não penálti, e cartões vermelhos por anular uma clara oportunidade de golo, pode ser necessário rever a fase de ataque que levou directamente à decisão/incidente. Isto poderá incluir a forma como a equipa atacante ganhou a posse da bola na jogada. Ora, é aqui que se enquadra este lance, pois o início da jogada começa com um fora de jogo de Guedes e, a partir daí, tudo o que se seguiu foi anulado e toda esta situação acabou por ser "salva" pela excelente intervenção do videoárbitro.

Um caso interessante ocorreu também no FC Porto-Rio Ave ao minuto 63, quando Soares tocou com o pé esquerdo na bola mas com o joelho direito tocou e derrubou o pé esquerdo de Nadjack, tudo isto no interior da área portista.

Em movimento normal parecem simultâneos ambos os toques, quer na bola, quer no joelho, o que na perspectiva do árbitro fica a ideia de corte legal e toque no adversário em virtude da acção e do movimento de ambos os jogadores. Por ser um lance de área o VAR foi analisar o lance e das duas uma, ou considerou correcta a decisão do árbitro, ou achou que sendo eventualmente duvidoso não havia um erro claro e óbvio e daí que, de acordo com o protocolo, não fez nenhuma intervenção.

Contudo, ao analisar o lance frame a frame vê-se que Soares toca primeiro com o joelho no seu adversário derrubando-o e só depois há corte na bola o que significa que, em termos técnicos e de acordo com a lei, no plano teórico temos uma situação de penálti.

Em conclusão este lance é o típico penálti de televisão, impossível de detectar por parte do árbitro mas possível de analisar pelo VAR, mas onde um protocolo com características diferentes poderia levar pelo menos a uma intervenção por parte do árbitro no sentido de ser ele a ver as repetições no monitor e dar uma decisão final. Ou seja, o protocolo diz: "(...) O árbitro pode iniciar uma revisão para um potencial claro e óbvio erro ou incidente grave não detectado quando o VAR recomendar uma revisão (...)".

Pessoalmente, preferia que o VAR não tivesse qualquer intervenção quando a decisão inicial do árbitro fosse clara e obviamente correcta e em todas as outras situações para os quatro momentos previstos em caso de dúvidas ou lances, no limite, o árbitro iria ao monitor para ser ele a rever e a manter ou alterar a sua própria decisão.

Por último, dizer que não há sistemas perfeitos e infalíveis mas este videoárbitro veio para ficar, vai evoluir e melhorar, mas é, efectivamente, uma ferramenta utilíssima e que resolve muitos dos erros, conferindo uma outra verdade desportiva que todos nós queremos em geral e os árbitros em particular.