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A viagem do bacalhau desde o mar da Islândia até à mesa de Natal dos portugueses

No projecto For Cod’s Sake, o fotógrafo açoriano Pepe Brix seguiu o rastro do bacalhau islandês desde a captura até à exportação. Regressou com uma conclusão: “O carinho com que o povo islandês olha para o mar é raro, único.”

Imersa nas águas geladas que circundam o aglomerado de terra ebuliente que dá corpo à ilha da Islândia, vive, oculta, uma criatura que o fotógrafo açoriano Pepe Brix apelida de “ouro malhado”. É “um ícone de sobrevivência” e “a principal moeda da economia islandesa”, desvenda, em entrevista ao P3. Falamos, claro está, do famoso bacalhau da Islândia — aquele que tem o verdadeiro dom da ubiquidade na noite da consoada em Portugal.

Brix voou em direcção a Reiquejavique, pela primeira vez, em Fevereiro de 2016, com o objectivo de realizar um documentário que seguisse o rastro do bacalhau islandês desde a captura até à exportação. Fez-se à estrada com pouco dinheiro no bolso e “sem um único contacto”, confessa. Sob frio gelado, permaneceu horas a fio no cais do porto da capital, nutrindo a esperança de conseguir abordar os pescadores à chegada da faina e partilhar com eles o seu plano. Assim conheceu Guðmundur, um pescador que lhe deu boleia na sua embarcação até Kópavogur, a aldeia onde vive. A engrenagem estava em movimento e só se deteve no início de 2017, o ano em que terminou a série fotográfica For Cod’s Sake.

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“Nesta primeira viagem, aproveitei para explorar o processo da pesca, observar a forma como gerem os recursos e a forma como os pescadores interagem entre si”, recorda. As frotas pesqueiras, garante, são modernas, seguras, extremamente limpas e organizadas. As saídas para o mar raramente se estendem por mais de seis dias — uma realidade bem distinta da que Brix experienciou a bordo do bacalhoeiro português Joana Princesa, na região da Terra Nova, em 2014. “Quando os portugueses embarcam, fazem-no por vários meses, permanecendo em mar alto sem contacto com terra durante todo esse tempo”, explica. Essa diferença reflecte-se ao nível da relação laboral. No caso nacional, Brix observou um “grande fosso” entre tripulantes de convés e oficiais. “Era visível ao ponto de dormirem em andares separados e comerem em salas diferentes”, descreve. Já “a bordo do Steinnun, Earling, o capitão do navio, comia à mesa com a restante tripulação e vinha frequentemente ao parque de pescas analisar o pescado e ajudar nas tarefas destinadas aos tripulantes de convés, mesmo que não fosse seu dever”.

O conceito de pesca sustentável é omnipresente no seio da comunidade piscatória. Brix vai mesmo mais longe, afirmando que as noções de sustentabilidade e de respeito pela natureza estão bem vivas na cultura islandesa. “O carinho com que o povo islandês olha para o mar é raro, único”, observa. A ideia de competitividade não está afastada da comunidade piscatória, mas é facilmente relegada para segundo plano quando em causa está a possibilidade de desperdício. “Um dos episódios mais marcantes que vivi a bordo esteve relacionado com a partilha de recursos”, introduz. “O barco em que navegava capturou mais bacalhau do que aquele que tinha capacidade de armazenar no seu convés. Naquele momento, libertar o peixe não o pouparia de morte certa e, por isso, o capitão da embarcação decidiu contactar o barco mais próximo do seu, para que se fizesse uma transferência. Esse era de uma empresa concorrente. Naquele momento, tudo ficou claro para mim: o mais importante era o peixe, era evitar desperdício.” Brix tem dúvidas que algo semelhante pudesse acontecer noutras paragens.

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Portugal é o principal importador do bacalhau islandês

O processamento do peixe, que decorre ainda em alto mar, e, posteriormente, em fábricas especializadas, assume também um papel relevante no que concerne o grau de qualidade do produto a exportar. Nas fábricas, trabalham sobretudo polacos, filipinos, bósnios e sérvios, que são atraídos pelos contratos estáveis e pelos salários generosos. “Apesar dos invernos intensos e dos longos dias de escuridão, são os islandeses que ocupam as vagas a bordo. O pescador, além de ser muito bem pago, é também muito respeitado pela sociedade islandesa. Existe mesmo orgulho em ser pescador.”

A exportação de bacalhau fresco é feita sobretudo com destino à Bélgica e ao Luxemburgo; o bacalhau congelado segue, geralmente, para o Reino Unido, onde é utilizado para a confecção do famoso fish and chips. Os mercados português e espanhol, que em termos de volume são mais expressivos, têm uma característica particular, que é a preferência pelo bacalhau salgado. “A salga do bacalhau surge, historicamente, da necessidade de o pescador o conservar durante a longa viagem entre as águas geladas onde é pescado e o local onde será consumido”, explica. Na Islândia, o bacalhau vive nas proximidades e é, por isso, consumido fresco. “Portugal é, há várias décadas, o principal cliente do bacalhau islandês”, remata.

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Foto
Pepe Brix

O fotógrafo e videógrafo Pepe Brix é natural da ilha de Santa Maria, nos Açores; considera “natural” o seu interesse pelo mar — um tema que trabalha consistentemente desde que iniciou a sua carreira fotográfica. “Aprendi que existem muitas semelhanças entre a Islândia e os Açores”, refere, “quer ao nível da paisagem, quer ao nível do temperamento dos ilhéus”. E explica porquê: “Nós, açorianos, somos pessoas introspectivas, melancólicas, muito ligadas ao mar; os islandeses são exactamente como nós.” Mas não exactamente como Brix, cuja história familiar é digna de um romance. “Os meus avós paternos eram ambos artistas de circo. Ambos estrangeiros: ele grego, ela italiana. Conheceram-se no Porto, no Palácio de Cristal, num encontro circense. Apaixonaram-se e mudaram-se para os Açores, para São Miguel. Abandonaram, naturalmente, as lides do circo e o meu avô decidiu dedicar-se à fotografia. Abriu, em 1946, o estúdio FotoPepe. O meu pai seguiu-lhe as pisadas — tal como eu.” O fotógrafo de 34 anos publicou, desde 2015, cinco trabalhos em vídeo e fotografia na revista National Geographic, todos eles relacionados com o tema do mar e da pesca. Foi vencedor do Prémio Gazeta também em 2015.