2019 - Análise

Cinco razões para estarmos confiantes; e outras tantas para estarmos ansiosos

Estarão certas as previsões que apontam 2019 como um ano de crise económica? O Estado funciona em Portugal? Apontamos razões para ficarmos ansiosos. Mas também encontramos motivos para estarmos confiantes: a consciência ambiental cresce no mundo; e há muito tempo que não tínhamos tão pouco desemprego em Portugal. Que venha 2019.

Confiantes

1 — Há muito tempo que não tínhamos tão pouco desemprego

A taxa de desemprego actualmente registada em Portugal — 6,7% — é a mais baixa dos últimos 16 anos. É verdade que os ordenados se mantêm baixos, mas o aumento do salário mínimo — que vai subir agora para 600 euros — não impediu a criação de emprego, ao contrário do que anunciavam os patrões e os catastrofistas de serviço. A curva descendente do desemprego foi uma das razões do aumento da confiança em Portugal nos últimos tempos. O aumento do turismo é responsável por boa parte desta criação de emprego e tudo indica que a procura turística continue em alta.

2 — Há uma crescente consciência ambiental

Ainda iremos a tempo? A verdade é que se assiste a um aumento da consciência ambiental entre as populações. A decisão da União Europeia de banir as “palhinhas” de plástico pode ser uma ínfima “palhinha” no imenso mar de coisas em que é preciso mexer para tornar o planeta sustentável. Mas o facto de as pessoas terem acordado para a emergência global forçará os políticos a tomarem mais medidas de protecção ambiental.

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3 — Estamos a comer menos carne e isso é bom

O crescente vegetarianismo é um factor de confiança por duas boas razões: o consumo excessivo de carne faz mal à saúde e ao planeta. Segundo a Organização Mundial de Saúde, uma alimentação com overdose de carne está ligada a um maior risco de cancro e doenças cardiovasculares. Por outro lado, se queremos salvar o planeta, vamos mesmo ser obrigados a reduzir drasticamente o consumo de carne de vaca e porco, que consomem recursos inauditos (sobretudo a produção da primeira).

4 — O cancro está a tornar-se uma doença crónica

Os avanços científicos ainda não conseguiram a cura para o cancro, mas estão a conseguir salvar cada vez mais vidas. O diagnóstico cancro já não é em muitos casos uma sentença de morte. Há uma revolução na ciência que todos os dias traz mais esperança às populações. 

5 — Temos a geração jovem mais culta de sempre

A grande revolução no pós-25 de Abril foi tornar o direito à educação universal. A educação para todos e o Serviço Nacional de Saúde, com todas as suas falhas, produziram uma nova geração que teve acesso a coisas que nenhuma das anteriores teve, excluindo os mais privilegiados. Sim, eles são mimados e alguns não querem sair de casa dos pais. É verdade que convivem com uma competição nas escolas que não era tão visível nas gerações anteriores. Têm também os pais mais malucos de sempre a controlá-los, inclusive via telemóvel. Mas já não conduzem bêbados, são mais sabedores e empenham-se num mundo melhor.

Ansiosos

1 — Vem aí uma nova crise económica?

Ainda agora saímos da depressão que atingiu todas as famílias com a crise que começou em 2008 — e que trouxe a troika, os cortes, o desemprego e a angústia a Portugal — e já se fala de uma nova crise económica internacional. O Banco de Portugal mostrou todo o seu pessimismo, muito mais notório do que o do Governo, ao baixar as expectativas de crescimento. Há demasiadas incertezas no ar, as consequências do “Brexit” ainda são difíceis de prever, a bolha imobiliária em Portugal (principalmente em Lisboa e Porto e respectivos arredores) pode rebentar, a baixa poupança das famílias e o regresso em força do recurso ao crédito são factores de risco. Sim, é verdade que estávamos a respirar de alívio depois do inferno que foram os anos da troika e precisávamos de alguma alegria. Mas a economia europeia e internacional apresentam sintomas de ansiedade. Em vários fóruns económicos, já se fala na crise económica de 2019. Temos uma moeda partilhada, o euro, e não sabemos o que vai acontecer num dos países que usa a mesma moeda, a Itália.

Para já, tudo indica que o Governo italiano, entregue agora aos populistas do movimento Cinco Estrelas e a Matteo Salvini (vice-primeiro-ministro), chegou a um acordo com a Comissão Europeia depois de dizer que recusava as metas impostas por Bruxelas. Por enquanto. Se Salvini cumprir aquilo que prometeu ao seu povo, vai embater de frente com as estruturas da União. E, ao contrário do “Brexit” que está a acontecer, ou de um “Grexit” que não aconteceu, um “Italexit” não é possível — dificilmente a Europa e o euro sobreviveriam. Pode ser que as coisas se componham — ao contrário do que muitos previram, a crise que começou em 2008 não rebentou com o euro. Mas o sistema bancário português afundou-se e pagámos todos com o corpo e a folha salarial. 

2 — Vamos ter o ano mais quente de sempre?

O Verão de 2018 em Portugal viu as temperaturas dispararem ao nível da Arábia Saudita. Os negacionistas do aquecimento global andam por aí, a começar na figura que é Presidente dos Estados Unidos da América do Norte. Enquanto Donald Trump se ri, os cientistas assustam-se. Samantha Stevenson, especialista em clima na Universidade da Califórnia, prevê que “é perfeitamente possível que 2019 seja o ano mais quente de sempre” com o regresso do fenómeno El Niño. Os últimos quatro anos foram os mais quentes de sempre, impulsionados com emissões recorde de CO2, segundo a Organização Mundial da Meteorologia (WMO). Vamos ter mais fogos, como aqueles que arrasaram Portugal em Junho e Outubro de 2017? Os cientistas acreditam no aumento de fenómenos climáticos extremos, como incêndios, vagas de calor extremo e tempestades violentas. Nós, portugueses, que assistimos às tragédias de Pedrógão Grande e à devastação dos incêndios do Verão de 2017, temos razões de sobra para estarmos muito ansiosos. 

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Marine Le Pen REUTERS/Stephane Mahe

3 — A extrema-direita cresce na Europa, desmesuradamente

Segundo as sondagens, as eleições para o Parlamento Europeu, agendadas para Maio de 2018, vão ser marcadas por um crescimento da extrema-direita nunca visto com o consequente encolher dos partidos europeus que fundaram a Europa: o Partido Popular Europeu (a família política a que pertencem PSD e CDS) e o Partido Socialista Europeu (de que faz parte o PS). Em França, a Frente Nacional de Marine Le Pen lidera as sondagens e, depois da quase erradicação do Partido Socialista Francês (resultado dos anos patéticos de François Hollande), a imagem de Emmanuel Macron anda agora pelas ruas da amargura. O movimento dos Coletes Amarelos em França (não confundir com o que se passou na sexta-feira em Portugal) é politicamente transversal e não é arriscado dizer que muitos dos seus votos vão parar à Frente Nacional. Em Itália, a situação não é melhor. O profundo desconforto da classe média europeia é visível e os partidos tradicionais não estão a conseguir responder. Vamos ter o Parlamento Europeu com mais deputados de extrema-direita desde a fundação da Europa? É muito provável e, sim, arrepiante. 

4 — Os nossos dados pessoais andam por aí

Tem Facebook? Usa o Google? Claro, estamos a entrar em 2019. O acordar tardio para a necessidade da protecção de dados não chega para acabar com a certeza de que as nossas informações pessoais andam por aí e as nossas mensagens privadas são lidas por sabe-se lá quem. A reserva de intimidade é um bem desaparecido, até por vontade própria — se é daquelas pessoas que fotografam todos os jantares de família para pôr nas redes sociais está a oferecer ao mundo uma enorme quantidade de dados por livre iniciativa. Mas, evidentemente, isso não justifica que as suas conversas privadas tenham de cair nas mãos de alguém. O problema é que a segurança sobre a privacidade desapareceu. Os esforços legislativos não permitem que deixemos de nos sentir ansiosos sobre o Big Brother. E, quando esses dados servem para eleger Presidentes como Trump ou Bolsonaro, a medida da tragédia e da ansiedade é elevada. 

5 — O Estado funciona em Portugal? Ui

Foi há relativamente pouco tempo que Portugal deixou de ser um país de Terceiro Mundo. Até quase ao fim do século XX, efectivamente, foi. A entrada na União Europeia e o trabalho dos sucessivos governos melhoraram as coisas: hoje há estradas, água canalizada, um Serviço Nacional de Saúde e uma escola pública que, em geral, têm elevada qualidade. A entrada no primeiro mundo é recente e continuam a subsistir as memórias do terceiro. Para usar dois exemplos recentes: o que se passou na estrada de Borba, em que sucessivos avisos não foram suficientes para impedir a tragédia, é uma prova de que o Estado não funciona. A trapalhada que aconteceu com o 112 e a NAV no caso do helicóptero do INEM mostra um quadro de desorientação inadmissível em serviços de emergência. Perante um desastre em Portugal, nunca poderemos ficar descansados. A sucessão de falhanços das entidades a quem competia prestar a emergência mete medo.