O tsunami que não se conseguia prever

Como não houve um sismo, e antes uma erupção vulcânica, não foi possível detectar a formação das ondas que tudo levam à frente.

Foto
Erupção do Anak Krakatau, no estreito de Sunda Antara Foto/Bisnis Indonesia/Nurul Hidayat/REUTERS

Foi depois do gigantesco sismo do Sudeste asiático de 2004, com origem em Aceh, na Indonésia, que entrou no imaginário global das catástrofes a ideia de que atrás de um forte tremor de terra pode seguir-se um tsunami. Com este novo tsunami na Indonésia, entra para a galeria dos nossos horrores modernos o que muitos dos nossos antepassados já aprenderam: os vulcões também fazem com que as ondas gigantes se formem e destruam tudo à sua passagem, e é preciso tê-los debaixo de olho.

Não é que não se soubesse que o vulcão Anak Krakatau estava activo. Mas julgava-se que este “filho de Krakatau” – o enorme vulcão que, em 1883, não só destruiu a ilha onde se erguia como matou 36 mil pessoas, numa série de tsunamis – era pouco activo, e ninguém lhe estava a prestar muita atenção. Mas é possível que tenha havido um “colapso parcial” de um flanco do Anak Krakatau, disse à Reuters Ben van der Pluijm, um geólogo especialista em sismos da Universidade do Michigan (EUA).

“A instabilidade da encosta de um vulcão activo pode criar um deslizamento de rochas que movimenta um grande volume de água, gerando ondas de tsunami, num fenómeno que pode ser muito poderoso. É como deitar de repente um saco de areia numa banheira cheia de água.”

A mais recente actividade do Anak Krakatau registou-se às 14h de sábado em Portugal continental (21h locais) e algo parece ter-se passado no flanco sul do vulcão, disse à BBC Dan Parsons, investigador da Universidade de Hull, no Reino Unido.

Pode ter havido uma erupção explosiva nas paredes laterais do vulcão que estão debaixo de água, que fez deslocar uma enorme quantidade de água – de forma semelhante ao que acontece quando as placas oceânicas se movimentam ou quebram num sismo. Essa erupção provocaria um deslizamento de terras que movimentaria uma grande quantidade de água e, assim, um tsunami. O mesmo aconteceria se houvesse um colapso de uma câmara de magma.

Por ora, não se sabe o que aconteceu. Mas imagens do satélite europeu Sentinel-1, colocadas no Twitter, sugerem ter havido uma modificação no vulcão Anak Krakatau, diz a BBC. 

O que este caso mostrou é que não existe um sistema de alarme para tsunamis provocados por erupções vulcânicas. Após catástrofe de 2004, houve um grande esforço para montar um sistema de alerta e compreender os sismos relacionados com as zonas de subducção das placas tectónicas, como aquele. Mas o tsunami deste sábado não se enquadra nestas características – a sismicidade que provocou não foi suficiente para ser detectada por esta rede de alerta.

É um novo capítulo urgente que se abre para a investigação sobre prevenção de catástrofes.