As mudanças de casa de quem procura ritmos diferentes

Matilde deixou o Porto e chegou a Coimbra para se instalar com a família. Andreia saiu da cidade para uma aldeia do Fundão estar mais próxima da sua.

Andreia Gonçalves
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Este é o terceiro de uma série de artigos sobre pessoas que chegaram e saíram de cidades portuguesas durante o ano de 2018. Acompanhe o dossier O que chega e o que vai.

A mudança para Coimbra, há coisa de um ano, não foi uma primeira vez. O actor e encenador Matilde Javier Ciria já tinha passado pela cidade por várias vezes em trabalho, a primeira das quais em 2014. Dessa passagem recorda os contrastes: “Entre a comunidade de cá e a comunidade universitária e, dentro da comunidade universitária, os contrastes entre as pessoas que continuam a tradição — com a capinha, que, quando vens de fora, é uma novidade — e os movimentos estudantis fora da norma.”

Noutro plano, a dimensão. Para quem, depois de nascer em Murcia há 39 anos, cresceu em Madrid e viveu em cidades como Londres, Amsterdão ou Berlim, percebe-se a diferença de escala. “Posso fazer tudo a pé”, resume.

Quando se mudou para Coimbra, depois de regressar à cidade para encenar uma peça baseada em O Público, de Federico Gracia Lorca, em Novembro de 2017, trouxe mulher e filho. Faltaria pouco tempo para que, em Março, a família crescesse.

No mesmo mês, Andreia Gonçalves, que estava há uma década na cidade, mudou-se para a Barroca, fazendo o percurso ziguezagueante entre Coimbra e a aldeia do concelho do Fundão, já no distrito de Castelo Branco. Aos 37 anos, decidiu regressar a uma região familiar (é natural de Almaceda, não muito longe dali, onde a família ainda vive). “Foi uma conciliação de vários factores. O contexto que criei, quando fui para Coimbra, deixou de existir. Comecei a sentir necessidade de vir para mais perto de casa.”

Explicados alguns dos motivos, a carteira e a qualidade de vida — “Não era aquela que esperava, nem suficiente” — também pesaram no momento da decisão. Não foi uma questão de escolher entre cidade e campo, mas encontrar semelhanças entre as rotinas de Coimbra e as de uma aldeia de 280 pessoas torna-se difícil. Andreia recebeu o PÚBLICO no edifício onde trabalha na comunicação do projecto da rede das Aldeias de Xisto, partilhado com a junta de freguesia local. A meio da conversa, observa:

— Não preciso de carro. Eu moro ali — aponta pela janela que dá para uma rua estreita, logo ao lado.

— A dois minutos a pé?

— Acho que não chega a um. E isso é muito bom, saber que venho para o trabalho, não preciso do carro. É muito tranquilo.

Em Coimbra, trabalhava na Cision, uma empresa de análise de media instalada na periferia da cidade, e entrava ao serviço às 6h. Explica que o mal que a afastou da cidade não é exclusivo de Coimbra. “Levantas-te todos os dias para ir trabalhar. Trabalhas muito, fazes um trabalho qualificado que não é pago como tal. Depois sais do trabalho, depois das oito horas de preocupações e timings para cumprir, e tens de pensar nas contas para pagar.” E acrescenta: “Os salários são o que sabemos, as casas são caras e chega a um ponto em que quase não compensa.”

Lugares onde ir

Para Matilde Javier Ciria, o ano que passou na cidade significa o maior período de tempo a viver num sítio desde 1999. O teatro levou-o a andar pela Europa e em digressões pela América Latina, da Argentina à Costa Rica. Talvez por isso identifique uma cadência mais pausada, no dia-a-dia. “Acho que cidade tem um ritmo lento, em geral.” Uma possibilidade de explicação pode ser a “parte universitária que é tão acelerada, que o resto da cidade, para contrastar, abranda o ritmo. Ou então há muitos níveis de ritmo e ainda não apanhei as camadas rápidas”, prossegue. O facto de a cidade ser menor daquilo a que estava habituado não lhe causa estranheza. Pelo contrário. “A minha vontade é sair ainda mais”, diminuir o bulício que vai encontrando nas viagens regulares de trabalho a Madrid.

Andreia diz que o início na Barroca foi acolhedor, mas progressivo. “Normalmente, nas aldeias, quando chega alguém novo, há a curiosidade de perceber quem é, o que faz e de onde vem. Aqui não foi tão notório. ” A paisagem ajudou à transição. A aldeia fica na margem do rio Zêzere e é rodeada por colinas revestidas de pinheiros bravos. “Já estou aqui há alguns meses e, de cada vez que saio para ir a algum lado, fico surpreendida com aquilo que vejo. Vais numa estrada normal, fazes uma curva e de repente tens uma vista que só apetece parar o carro e ficar a olhar.”

“O que mais gostei em Coimbra foi a actividade cultural que tem para o tamanho”, observa, por sua vez, o actor e encenador ao longo de uma caminhada pelo Jardim da Sereia, no centro. O olhar de pai de duas crianças (uma com dez meses, outra com dois anos e quatro meses) identifica a “falta de parques para crianças nesta parte da cidade”. “É absurdo. Vou a outras cidades e vejo que há parques cheios de crianças. É algo que aqui nunca encontrei.”

No curto período de um ano, repara também numa certa dinâmica de mudança. “Tenho pena dos estragos que está a fazer o turismo. Acho que se vai notar ainda mais [do que no Porto — onde viveu antes de se mudar para Coimbra — e em Lisboa, pela dimensão.]” “Notas a mudança de negócios na Baixa. Tal como há negócios para universitários, começa a haver para os turistas, o que faz com que os locais fiquem sem lugares onde ir, que sejam confortáveis e que tenham preços de Portugal e não da Alemanha”, diz. Acrescenta que já viveu em cidades que passaram pelo mesmo processo. “Correu bem para uns poucos que fizeram dinheiro, mas a qualidade da cidade decaiu”, avisa.

De Coimbra Andreia sente a falta dos amigos que ficaram. Mas é uma questão que se vai contornando. “Quando comecei a dizer que vinha para a Barroca. diziam-me: ‘Lá não há nada, o que vais fazer para lá?’ No fundo, não é bem assim. Temos de fazer escolhas e as escolhas têm consequências.” Entre o que deixou e o que tem o balanço é positivo. Refere que não há hospitais à porta, nem muitos dos serviços que encontrava na urbe. Mas, de de carro, “talvez não seja tão longe assim”. “Quantas pessoas em Lisboa é que não fazem diariamente a hora e meia de Coimbra à Barroca para ir trabalhar?”