Opinião

Portugal perdeu uma portuguesa exemplar, uma grande Senhora

Catalina Pestana foi uma cidadã e uma cristã que nunca hesitou em pôr os sem-poder à frente de todos os poderes formais e todos os poderes fátuos e ardilosos.

Catalina Pestana foi uma cidadã com uma inabalável ética com rosto, alma e coração. Rosto, espelhado na defesa dos que não têm voz. Alma, na vontade inquebrantável com que lutou pelos seus ideais radicalmente humanistas. Coração, na dedicação, profissionalismo e entusiasmo com que abraçou as causas por que lutou. Em nome do valor ético da esperança, da verdade, da autenticidade, da sensibilidade e da decência. Sempre com jubiloso discernimento, pugnando por uma justiça com alma e não meramente contábil.

Em 2002, como ministro da Segurança Social e do Trabalho, tive a felicidade de a escolher para liderar o projecto de refundar a Casa Pia. Fiquei-lhe infinitamente grato, como cidadão e português. Sei bem o que representou de sacrifício pessoal e sei também o sentido do dever, a força da coragem, a delicadeza humana, a consistência e o critério de auto-exigência que nortearam a sua acção. A ela bem se pôde aplicar a máxima de que uma pessoa comum é exigente com os outros, mas uma pessoa superior é exigente, em primeiro lugar, consigo própria. De uma fortaleza insuperável, jamais contemporizou com insuficiências ou abusos, indultos comportamentais ou amnistias morais.

Fui testemunha da sua nobre atitude fundada no valor da fraternidade e da partilha contra o conformismo, a indiferença e a desconsideração. Corajosamente, rompendo contra a violência do silêncio e lutando pela humanização contra a tecnocracia estatística que dilui ou banaliza os problemas e transforma as pessoas em números e algoritmos.

Sempre se norteou por uma “ecologia humana” fundamentada na centralidade e dignidade de cada um, e em particular, das crianças mais indefesas.

Ela me dizia que onde existe um ser indefeso, deveria também existir um conhecer, um ajudar, uma ética da responsabilidade de cuidar. Ela me dizia que haveríamos de combater o comodismo da “posta-restante social” onde se corre o risco de, sem competência emocional, se uniformizar o que exige diferenciação, de massificar o que supõe proximidade e personalização.

Uma cidadã e uma cristã que nunca hesitou em pôr os sem-poder à frente de todos os poderes formais e todos os poderes fátuos e ardilosos. Jamais se deixou enredar em tacticismos e juízos de oportunidade do instante. E não se deixou envolver pela ditadura do presente que anula o passado e transforma o futuro numa quimera.

Sei que muito fica por dizer. Que o seu exemplo perdure e a sua memória viva permaneça em nós! A muita saudade e o meu profundo obrigado à minha querida amiga Catalina.

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