A Internet está a mudar o comércio de cocaína na Europa. Em Portugal nem tanto

Os consumidores de droga portugueses mantêm-se “muito tradicionais”. Na Europa cresce o recurso à dark web, criptomoedas e redes sociais.

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DANIEL ROCHA

As aplicações que permitem a comunicação encriptada (como o WhatsApp e Telegram), a dark web, as criptomoedas e as redes sociais estão a mudar a forma como se comercializa a cocaína na Europa, conclui um relatório sobre o mercado europeu para esta substância, do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência (EMCDDA, na sigla inglesa).

Em Portugal esta tendência não será tão vincada. Manuel Cardoso, subdirector-geral do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Adictivos e nas Dependências (SICAD), diz que ainda “nos mantemos muito tradicionais”. Um exemplo: “Quando tivemos o problema das novas substâncias psicotrópicas fizemos um estudo na população universitária e, por incrível que pareça, eles confiavam mais nos dealers do que nas smart shops.” O responsável do SICAD nota ainda que, enquanto portugueses, “temos muito mais confiança naqueles que olhamos nos olhos e verificamos isso em relação a todo o tipo de utilização da Internet para as compras”.

Mesmo assim, Manuel Cardoso sublinha que a “Polícia Judiciária portuguesa tem uma equipa dedicada à dark web" (que se pode definir como sendo um conjunto de redes encriptadas que estão intencionalmente escondidas da Internet visível) e que "fazem esse tipo de investigação de maneira brilhante”.

Quanto à utilização das novas tecnologias no contexto europeu, o estudo da EMCDDA (no qual Portugal também participou), conclui que estas ferramentas “permitem que grupos [criminosos] mais pequenos e ‘empresários’ individuais se envolvam, com uma percepção de menor risco”. E até há exemplos de “empreendedorismo”. O relatório destaca a existência de call-centers, que operam a partir dos países dos Balcãs Ocidentais (Sérvia, Montenegro, Macedónia, Albânia, Bósnia Herzegovina e Kosovo) e de Espanha, mas distribuem droga em zonas da Bélgica e Paris.

O documento do EMCDDA caracteriza estas alterações como uma “Uberização” — uma analogia à plataforma electrónica Uber — do comércio de cocaína. “Um sinal claro de um mercado competitivo em que os vendedores têm de oferecer serviços adicionais, além do produto em si, como a entrega rápida, a qualquer altura, em qualquer lugar.”

Cocaína mais pura

Nos últimos anos, a droga “tornou-se num bem acessível”. Portugal é mesmo o país que apresenta os valores mais baixos (44 euros por grama). No extremo oposto surge a Bulgária (104 euros).

Outra das tendências que o relatório nota é o aumento no grau de pureza da cocaína em quase todos os países analisados — as únicas excepções são Portugal e a República Checa.

Quanto ao consumo, as informações parecem ser contraditórias. Os dados epidemiológicos mostram que há uma estabilização das quantidades ingeridas, mas os valores encontrados nas águas residuais contradizem-nos. O que é “menos claro é se esses dados identificam aumentos reais no número de utilizadores, se um número semelhante de pessoas está a usar com mais frequência ou se usam droga mais pura”.

Manuel Cardoso, do SICAD, lança ainda outra possibilidade em relação aos vestígios encontrados nas águas residuais de Lisboa e do Porto. “O número de turistas aumentou de forma muito significativa e isso tem seguramente significado.”

Criminalidade aumenta

Os métodos tradicionais de tráfico de cocaína também estão a evoluir. Surgem novas formas de ocultar a droga, novas rotas de tráfico e os pontos de entrada em território europeu multiplicam-se. "Como resultado, grandes quantidades de cocaína estão a entrar na Europa a um ritmo regular, e as forças policiais estão a enfrentar desafios em conter o fluxo", afirma o relatório.

“A fragmentação do comércio de cocaína na Europa parece ter resultado no aumento da competição entre os grupos de crime organizado.” O que tem resultado no “aumento da violência e homicídios relacionados com o tráfico de droga”.

O relatório foi elaborado entre Março e Junho de 2018 através de uma metodologia a que o EMCDDA chama trendspotter. Este método inclui questionários aos especialistas sobre o tema, revisão de literatura internacional e dos dados disponíveis e a partilha de informação entre grupos de trabalho. A isto juntam-se dados de inquéritos feitos à população e estatísticas das forças policiais.