“Olhar hoje para o PSD é até confrangedor”, diz Ana Catarina Mendes

Ana Catarina Mendes não exclui que o objectivo para as legislativas seja a maioria absoluta. E garante que a sua tarefa é pôr o PS a aumentar o número de eleitos e ganhar as três eleições de 2019. Sobre a sua participação num futuro governo responde: “A seu tempo, tudo se verá.”

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Ana Catarina Mendes não exclui a possibilidade de vir a integrar o Governo de António Costa se o PS ganhar as legislativas de 2019 Miguel Manso

A secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendes, está preocupada com “a fragilidade do PSD”, advertindo que a sua “preocupação com o estado actual do PSD é mais vasta do que os acordos aqui ou ali no Parlamento ou para o governo, é mesmo um problema de democracia”. Lembra que a perda de força dos partidos tradicionais na Europa deu “lugar aos partidos mais radicais, aos partidos populistas”. Já sobre o ano eleitoral garante que o objectivo é que o PS ganhe as europeias, as regionais da Madeira e as legislativas, aumentando o número de eleitos. Não exclui sequer o objectivo da maioria absoluta para os socialistas. Quanto a vir a pertencer ao governo, não o exclui: “Se for útil para o partido, se for útil para o país, cá estaremos para conversar.”

2019 vai ser um ano difícil com três eleições. Quais os objectivos do PS para as primeiras, que são as europeias?
É um ano exigente, com três eleições. Aquilo em que estou focada neste momento, como secretária-geral-adjunta do PS, é que o partido tenha uma grande vitória nestas eleições europeias e acho que é possível trabalhar para isso.

Uma grande vitória é eleger mais do que os actuais oito eurodeputados?
Não gosto de colocar números. A única coisa que posso assegurar é que estou a trabalhar para que o PS tenha uma grande vitória e aumente a sua representação no Parlamento Europeu.

E nas regionais da Madeira vão conseguir tirar a maioria absoluta ao PSD?
O foco é ganhar as eleições na Região Autónoma da Madeira.

Ganhar ou tirar a maioria absoluta ao PSD? Há uma diferença expressiva, o PSD-Madeira tem 24 deputados no Parlamento Regional, o PS tem sete.
É verdade. E o PS tem, neste momento, uma equipa a trabalhar afincadamente para, pela primeira vez, conquistar o Governo Regional da Madeira.

Com um independente que não é do PS, Paulo Cafôfo, presidente da Câmara do Funchal.
Paulo Cafôfo tem demonstrado nos seus mandatos um bom trabalho e uma boa ligação à região e estou absolutamente convicta de que o PS tem todas as condições para disputar estas eleições com tranquilidade, afinco e determinação para poder ganhar.

Nas legislativas, acredita que é possível o PS conquistar a maioria absoluta?
Julgo que é preciso olhar para as eleições e fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para merecer a confiança dos eleitores. Esta solução de governo foi original no contexto político-partidário português, trouxe resultados positivos. Mas há uma coisa que não esquecemos: quem lidera este Governo é o PS. Eu estou convencida de que os portugueses vão confiar no PS. É cedo para fazermos cenários. Devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para sermos fortes nestas eleições e para ganharmos as legislativas.

A sua resposta não afasta a ideia de que o objectivo é tentar a maioria absoluta.
O objectivo é sempre ter o melhor resultado possível nas eleições e é nisso que estou concentrada.

Se for maioria absoluta, será excelente?
É evidente. O melhor resultado que tivermos é o melhor. Como imagina, e conhecendo-me, o trabalho não vai ser feito a dois meses das eleições. O trabalho já está a ser feito, quer para as europeias, quer para regionais, quer para as legislativas. Esta solução de termos uma secretária-geral adjunta, enquanto o secretário-geral é primeiro-ministro, é bem o espelho daquilo que deve ser uma democracia robusta, com partidos fortes. Aquilo que tenho estado a fazer, ao longo destes anos, é trabalhar para que o PS continue a existir com força, com mobilização, com pensamento próprio. Estava determinada em ganhar as eleições autárquicas há um ano. Foi a maior vitória de sempre de um partido nas autárquicas, foi a maior vitória do PS.

Foram 155 presidências de câmara.
Foram 155 do PS e 165 com os independentes apoiados por nós. Subimos consideravelmente. Por isso, quem me conhece sabe que tudo isto se prepara com tempo, com discrição, com trabalho, com uma enorme mobilização do PS, com a capacidade de o PS se abrir e trazer novos quadros. Por isso, o objectivo é ganhar 2019, o que significa vencer em todas as eleições.

Caso o PS tenha maioria relativa, como deve ser, na sua opinião, desenhada a governação? Com acordos à esquerda? Ensaiar um acordo com o PSD? Ou fazer as duas coisas e “governar à Guterres”?
Credo! Parece que o PS não tem identidade própria.

A identidade mantém-se, mas como deverão ser geridos os apoios parlamentares, se necessários?
A identidade própria do PS significa, em primeiro lugar, respeito pela democracia. Isto significa o quê? Na noite eleitoral, os portugueses vão pronunciar-se. E perante os resultados eleitorais, como o fizemos em 2015, temos de saber fazer a leitura do que está em cima da mesa. Quero dizer isto com a franqueza de sempre: se há partido que demonstrou que sabe governar à esquerda, moderado, europeísta, cumprindo os compromissos com os eleitores, com os seus parceiros mais à esquerda, foi o PS. E é por isso que hoje podemos falar dos resultados positivos de que falamos. Fazer projecções para a noite de 6 de Outubro de 2019 diria que seria uma temeridade. O que é preciso é que o PS esteja focado em ganhar as eleições, respeitar a vontade dos eleitores e, em consonância, agir. Não defraudámos as expectativas dos eleitores em 2015 e soubemos ler que, apesar de não termos ganho as eleições, fomos capazes de rebentar muros e de fazer acordos que fossem ao encontro do que queria a esmagadora maioria do eleitorado.

Mas na sua opinião pessoal qual seria o tipo de acordos mais interessante?
O que melhor responda às necessidades dos nossos cidadãos. E que o PS continue a liderar essas mudanças e essa vontade de fazer diferente em Portugal.

Admite, por exemplo, um cenário em que o PS consiga garantir a maioria do Parlamento com um acordo, escrito ou não, com o PAN ou com a Aliança? Isso é possível, para si?
Com o fim do arco da governação ficou aberto o espaço democrático em Portugal para nenhum partido ficar excluído do apoio parlamentar ou da governação. Dito isto, para o PS, é possível ter o apoio daqueles que assumam o compromisso fiel àquilo que é o nosso compromisso com os eleitores. E olhar hoje para o PSD é até confrangedor. E devo dizer que a minha preocupação com o estado actual do PSD é mais vasta do que os acordos aqui ou ali no Parlamento ou para o Governo. É mesmo um problema de democracia, porque se olharmos para os Estados europeus onde os partidos tradicionais perderam força, isso deu lugar aos partidos mais radicais, aos partidos populistas.

Há esse risco em Portugal à direita?
Ainda não estamos nessa fase, mas acho que aquilo que aconteceu no último ano com o PSD, a fragilidade do PSD, a ausência de propostas, o descuidar a sua base de apoio, transforma um dos partidos tradicionais da democracia portuguesa num partido muito frágil nos dias de hoje. Nós temos que, olhando para uma democracia do século XXI, perceber que os partidos não são dispensáveis. Não se pode acreditar que já fizemos tudo pela democracia. A democracia só se reforça se os partidos forem fortes. É por isso que continuo a achar que, seja qual for o cenário – e podemos imaginar todos os cenários –, só há um compromisso que o PS pode assumir com os portugueses: é saber interpretar, a cada momento, a sua vontade.

Já se sabe que não será candidata ao Parlamento Europeu, já o esclareceu de viva voz. Mas há expectativa e informações de que vai integrar um próximo governo do PS. Portanto, 2019 vai ser um ano importante também para si.
Deixe-me sorrir e dizer-lhe que eu fico fascinada com todas as projecções e projectos que toda a gente tem para a minha vida política. Conhece-me há 20 anos no Parlamento, a fazer coisas e a entregar-me de corpo e alma àquilo que são as minhas convicções e as causas nas quais acredito e no projecto do PS, ao longo destes anos. Assumi, há três anos, com o António Costa, a tarefa de ser secretária-geral adjunta do PS, volto a dizer, pela força que eu acho que os partidos têm de ter nas democracias. Neste momento, o meu foco é que o PS saia vencedor dos três actos eleitorais. Já me disseram que sou cabeça de lista, que vou ser ministra, presidente da Assembleia da República. Toda a gente diz trezentas coisas. O meu foco – porque nunca planeei, nem nunca calculei qual seria o meu trajecto político – é assumir os desafios que tenho em mãos. E o desafio que eu tenho, neste momento, em mãos, honestamente, é garantir qualidade nas listas do PS, qualidade no projecto político com que nos apresentamos aos portugueses e garantir que nós ganhamos todas as próximas eleições. Se me pergunta: vai ser um grande ano? Eu espero que seja um grande ano e que ser secretária-geral adjunta tenha justificado a criação deste cargo, para que o PS tenha grandes vitórias.

Se António Costa a convidar para integrar o governo como ministra, aceita?
A seu tempo, tudo se verá. Não basta ser ministra por ser ministra, é preciso saber que projecto vamos abraçar. Se for útil para o partido, se for útil para o país, cá estaremos para conversar. Até lá, não vale a pena conversarmos sobre isso.

Há quem diga mesmo que poderá ser a futura ministra do Trabalho que é a sua área de especialização.
Volto a dizer que acho extraordinário, porque eu sou advogada. Fiz a parte da pós-graduação em Novas Fronteiras do Direito, que é uma mistura da Sociologia com o mundo do Direito. Fui advogada no estágio e depois, quando tive sozinha um escritório, de direito do trabalho. Isso não me confere necessariamente a capacidade e a característica para ser ministra do Trabalho. Dito isto, não acho que seja... Nem percebo... É evidente que fico muito sensibilizada que achem todos que eu tenho vocação para isto ou para aquilo. Aquilo para que quero ter vocação, neste momento, é verdadeiramente para que não aconteça ao PS o que aconteceu a outros partidos socialistas por essa Europa fora, que o PS continue a ser um partido forte. Cada desafio, a seu tempo. Cada passo, a seu tempo. Neste momento, a minha concentração é em ser secretária-geral adjunta.