Opinião

Manifs de sofá

Marcar manifestações a uma sexta, em vésperas de Natal, com frio e chuva, em final de legislatura e com um Orçamento de Estado que talvez distribua mais que aquilo que o país produz estava votado ao insucesso.

sou feliz.

por isso tomo pastilhas:

não quero ser apanhado por uma corrente de ar.

a morrer, que seja por um feito heróico:

uma descoberta de génio ou

uma música sem igual.

quero um obituário imponente e a glória post-mortem,

já que a dita, em vida, é vã e

eu sou alérgico a mudanças.

Este singelo poema, que abre o meu livro Abrir em caso de emergência, recentemente editado, talvez seja um bom resumo do movimento dos “coletes amarelos” hoje ensaiado no nosso país.

Antes de mais, registo com grande alegria e orgulho de pertença ao povo português o cariz pacífico que as mini-manifestações assumiram. Porventura obedecendo a uma táctica de prevenção da ordem e segurança públicas, várias foram as vozes oficiais a temer que grupos de extrema-direita ou esquerda ou simples criminosos se infiltrassem no que foi uma tentativa inorgânica de levantamento popular. Já aqui no PÚBLICO escrevi sobre os gilets jaunes e o que me importa, agora, é deixar algumas reflexões sobre um certo modo de ser luso.

Marcar manifestações a uma sexta, em vésperas de Natal, com frio e chuva, em final de legislatura e com um Orçamento de Estado (OE) que talvez distribua mais que aquilo que o país produz estava votado ao insucesso. Não que o actual Governo não dê ao povo motivos de queixa; simplesmente, os nossos problemas são estruturais e os cidadãos sabem-no muito bem.

Sabem porque também é estrutural que sejamos, em regra, pouco produtivos, começando efectivamente a trabalhar mais tarde que a hora a que picamos o ponto. É o colega que convida para um café, o comentário de futebol, das telenovelas, o gossip quotidiano. E se estivermos num serviço público, em regra, a coisa torna-se naturalmente pior: o chefe é alguém diáfano e evanescente, sem rosto, e o concidadão pode esperar, em especial se for velhote – afinal não tem nada que fazer e aquela até é uma forma de matar o tempo.

Nas empresas privadas, o controlo é diferente e todos conhecemos casos de pessoas que transitam entre os dois sectores e parecem acometidas de personalidade esquizofrénica: afinal mexem-se e ficam até mais tarde nos trabalhos, ainda que a remuneração suplementar não surja de todo ou venha depois, em forma de prémios ou outras regalias.

E então quando emigramos, o tuga torna-se num “super-tuga”: faz o trabalho que os locais não querem, integra-se bem, acumula riqueza, sendo em geral respeitado e tido como mão-de-obra fiável. Seja a emigração da passada centúria, seja esta da actualidade, da geração mais habilitada de sempre. Organização, portanto. Consciência de que há tempo para tudo desde que as regras sejam claras: se começas a trabalhar às 9 h, é mesmo às 9 h que estás a atender o primeiro cliente ou a despachar o primeiro assunto do dia. E as pausas são as fixadas e cumpridas com rigor. Depois é vê-los sair ainda a tempo de terem vida pessoal e familiar.

Aqui, preferimos fazer do local de trabalho uma primeira casa, por nele passarmos mais tempo que nos nossos domicílios, ainda que de útil, ao fim do dia, confessadamente para nós mesmos, vejamos que pouco produzimos. É uma generalização, é evidente, mas não se trata de uma caricatura.

Ora, sendo este o retrato da maioria de nós, as desculpas que a música dos “Deolinda” tão bem retrata – vai indo que eu já lá vou ter; está frio; está vento; estou constipado; até ia, mas hoje não dá mesmo jeito – foram hoje uma triste realidade. Digo “triste” porque parece que nem a “mandar vir” somos bons. Meia dúzia de gatos-pingados, em vários locais com mais polícias que manifestantes, sem quadro reivindicativo claro. E quando se diz que há “más condições de vida em Portugal”, sendo isto verdade para a maioria da população, é tão genérico que não congrega vontades. É preciso bandeiras claras e não é por elas não existirem que o “desaire” de hoje ocorreu.

Hoje mesmo, quando o Chefe de Estado promulgou o OE, advertindo, por palavras eufemísticas, que as previsões do Governo são demasiado optimistas e que a despesa prevista não joga com a receita. Mas a isto Centeno responde com as “cativações”, mantendo assim cativos os que estão cativos. Cativos de um salário mínimo miserável, mas que importa um aumento de produtividade que tarda em chegar, cativos de um SNS que é uma das grandes conquistas de Abril, mas ameaça implosão, cativos de um Estado que falha redondamente nas funções de soberania e segurança: incêndios, Tancos, SIRESP, alegados crimes na reconstrução de casas ardidas, recente queda do helicóptero do INEM.

O OE in the books e o OE in action têm sido diversos. Pode inscrever-se uma despesa básica para um Estado de Direito democrático e social, mas quando a sua efectivação depende da assinatura mais cara do país – de Centeno –, então percebemos que estas “manobras” deixam os portugueses confusos. Uns ficam a olhar para os papéis, onde aparentemente os indicadores económicos são favoráveis; outros enfrentam o dia-a-dia dos mais desfavorecidos, andam de transportes públicos, recebem mal, esperam e desesperam por consultas médicas e têm uma Justiça a que faltam meios.

Os primeiros optam pelo sofá; os segundos, se perderem um dia de trabalho em manifestações, talvez não tenham o essencial para chegar ao fim do mês. Em resumo: andamos felizes e, por isso, tomamos pastilhas.