As histórias de Cristina Botana e João Nuno Brochado têm o Porto como ponto comum Adriano Miranda

As vidas pendulares de Cristina e João têm geografias e sonhos sem fronteiras

No ano em que Cristina Botana chegou ao Porto, João Nuno Brochado saiu. Ela deixou a Corunha para estudar modos de habitação informal. Ele foi para Macau para dar aulas e lastro à criatividade de cineasta. Duas histórias sobre cidades em movimento com o Porto em comum.

Este é o primeiro de uma série de artigos sobre pessoas que chegaram e saíram de cidades portuguesas durante o ano de 2018. Acompanhe o dossier O que chega e o que vai.

No mapa mental de Cristina Botana, a fronteira entre a Galiza e Portugal sempre foi invisível. A distância da sua cidade à raia era abreviada por uma mesma história, cultura, modo de ser. E, talvez por isso, desde cedo se imaginou a viver em terras lusas sem prever sentimentos de quem se muda para lugar estranho. Com bagagem de turista, fez algumas vezes a viagem entre a Corunha e o Porto. Enamorou-se de uma cidade cartão-postal. Mas quando em Outubro se mudou para ficar, descobriu uma outra narrativa. Chegar, diz, foi mais difícil do que partir. Tecer do zero uma rede de amparos, formar ninho noutro território, construir rotinas em busca de segurança. Nas ruas do Porto, a arquitecta já não se cruzou com João Nuno Brochado. Um mês antes, o cineasta levantara voo rumo a Macau, com sentimento contrário ao da galega: “Foi muito mais difícil partir. Seria mesmo que fosse para Coimbra ou Lisboa. Existe algo no Porto que não se encontra em lado nenhum, esta coisa de sermos uma grande família.”  

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João Nuno Brochado partiu para Macau a 1 de Setembro. Sair do Porto, diz, foi muito mais difícil do que aterrar noutra geografia Manuel Roberto

Há qualquer coisa de errante na vida das cidades. Geografia em contínua mudança, cais de partidas e chegadas, de alegrias e amarguras, de sonhos e desistências. Um permanente movimento, gente que se cruza ou se perde. João Nuno Brochado nunca tinha equacionado sair do Porto. Mesmo quando viveu em Lisboa alguns meses, por causa de um estágio, sentiu como urgente o regresso ao ponto de partida. Mas eis o ano 2018 e um dilema a moer-lhe o pensamento: na sua cidade já tinha feito tudo o que queria – ou, melhor dito, os sonhos profissionais por concretizar pareciam não caber, por agora, naquelas coordenadas. O convite para dar aulas feito por um docente da Universidade de Saint Joseph, em Macau, veio dar um empurrão. A 1 de Setembro, apanhava um avião para percorrer mais de 10 mil quilómetros entre as nuvens. Assumia a condição de emigrante.

Filho de mãe professora primária com a aspiração da arquitectura por resolver e de pai arquitecto com desejos de ver o filho seguir-lhe as pisadas, João Nuno teve sempre “claríssimo” qual era o seu caminho. Em miúdo, fazia brincadeiras com a câmara de filmar do pai, resguardo de memórias dos natais e outras festas de família. E cedo encontrou no cinema uma “forma de expressão única”, junção da sua faceta de “nerd” com a de amante das artes. Tinha uns 15 anos quando realizou o seu primeiro documentário, sobre o Teatro Nacional de São João, cuja pintura do tecto tem dedo do seu tio-avô, o pintor Acácio Lino. Foi uma coincidência feliz. Uma visita de estudos levou-o ao imponente edifício e, em resposta ao trabalho da escola, que pedia um relato do passeio, perguntou se podia fazê-lo com imagem em movimento. Poucos anos depois, entrava na Escola de Artes da Universidade Católica. Seria cineasta.

Para Cristina Botana o futuro não era tão óbvio. Olhando pelo retrovisor, recorda a menina a “fazer construções com as peças de madeira” do pai carpinteiro. Mas o encanto pela arquitectura andava lado a lado com outros. Tanto que na candidatura ao ensino superior juntou a essa primeira opção coisas tão variadas como “Política, Biologia, História e Ciências do Mar”, conta sorridente. “Podia ter sido muita coisa.” Entrou no curso de Arquitectura na Corunha com fantasias de um ofício onde desenharia belas casas, encantada com a ideia de urbanismo e construção de cidades. E só com o voluntariado na ONG Arquitectura sem Fronteiras percebeu a possibilidade de abraçar outra missão. “Demorei muito a entender o lado social da profissão, no curso não se falava disso”, lamenta. E era assim mesmo numa cidade onde o direito à habitação não era assunto resolvido. “Faz falta um código de ética para arquitectos. Porque as consequências do que construímos devem ser cobradas.”

Cristina decidiu fazê-lo mesmo sem regulamentos decretados. Na sua cidade começou a prestar atenção à habitação clandestina e informal e descobriu uma longa matéria para tratar. A quantidade de barracos e casas muito precárias era significativa. Tanto que, além do trabalho com os Arquitectos sem Fronteiras, decidiu fazer do tema a sua tese de doutoramento. No terreno, em contacto com quem habitava nesses lugares, deparou-se com algo inesperado: “Muitas famílias eram de Portugal, sobretudo de Trás-os-Montes: Chaves, Bragança, Vila Real”, relata. E à conta dessa descoberta mudou o foco do estudo: “Queria perceber por que razão havia tantos portugueses a viver ali, que políticas havia cá para enfrentar esta situação, se a incapacidade de agir era semelhante à espanhola ou não.”

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Cristina Botana está a estudar a habitação informal no Porto. Depois do bairro do Lagarteiro irá para o São João de Deus Nelson Garrido

Em pouco tempo, estava em frente a um computador a mandar emails para todas as pessoas que pudessem ter contactos na área. Do Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto chegaram relatos importantes e a possibilidade de ali se acomodar como investigadora externa. E então ela viajou. Tecendo uma rede outra cidade.

Criar laços em Macau não foi tarefa complexa para João Nuno Brochado. O portuense já lá tinha ido e estabelecido um “grande fascínio” pela mistura das culturas portuguesa e oriental. Por vezes, por causa dessa proximidade, quase pode fingir não estar longe: a comunidade lusa é grande e unida, nos supermercados encontra várias marcas portuguesas e até já descobriu três restaurantes onde comer francesinha e enganar as saudades. Do outro lado do mundo, encontrou uma “positividade” que lhe fazia falta. Ao contrário do que acontece em Portugal, “onde as relações entre as pessoas se concentram muito na desgraça”, o foco a oriente soou-lhe menos pesado e mais colorido. “Voltei a acreditar que podia ser diferente”, conta, numa conversa durante as férias de Natal no Porto.

Esse é um dos aspectos positivos. Em Portugal, João Nuno tinha conseguido “uma vida segura e estável” depois de um tempo difícil, quando há coisa de dez anos decidiu assumir o risco de criar uma empresa. Por essa altura a produção audiovisual no Porto era escassa, mas ele e três amigos queriam “mostrar o talento e potencial” da cidade. À “ferramenta” chamaram Cimbalino Filmes – prova mais do que suficiente da proximidade à urbe – e foram ganhando espaço no mercado: fizeram documentários, publicidade, programas de televisão, videoclipes. Em 2014, João Nuno lançava a sua primeira longa-metragem documental, Uma Montanha do Tamanho do Homem, onde conta a segunda vida da aldeia de Drave.

No Porto, Cristina Botana passou os últimos meses a fazer trabalho no Lagarteiro, com a companhia de outra investigadora da Universidade do Minho, o apoio do assistente social José António Pinto e a “general” Bininha, habitante de Azevedo de Campanhã, como aliada fundamental para que as portas se abrissem. Em breve, irá para o São João de Deus. Tem falado com famílias, muitas delas ciganas, que foram realojadas em bairros depois de as suas habitações clandestinas e informais, os barracos, serem destruídas. Faz inquéritos, mapeia o problema. E entre a Corunha o Porto diagnosticou um princípio comum: os habitantes dos barracos da cidade eram famílias sem resposta habitacional que tinham, com os seus meios, improvisado um tecto. “Vi muitas semelhanças”, conta: “Se o Estado não funciona estas pessoas substituem o Estado.”

É uma não-solução. “Tirar alguém de um barraco para a colocar num bairro não é, por si só, uma resposta. Ajuda a dar dignidade às pessoas, mas a exclusão é estrutural e mantém-se”, lamenta a arquitecta de 34 anos. Em Espanha, as respostas têm-se centrado nos “despejos”, afirma, numa espécie de “chantagem” apresentada como hipótese única: “Ou renunciam ao seu modo de viver ou não têm nada.” Por cá, há também muito por fazer.

Por causa da sua tese, Cristina Botana alargou horizontes. Do Porto cidade turística, da Torre dos Clérigos e Casa da Música, foi até Porto oriental. “À cidade real.” Quando olha para a doutoranda em início de trabalhos vê ilusões sem fim: “A minha intenção era fazer uma proposta de solução. Tinha ideias maravilhosas de como resolver as coisas”, recorda. Mas entre a teoria e o terreno a distância revelou-se imensa: “O que falhava não era tanto a política ou o programa de integração com o espaço, mas sim o sistema”, analisa: “É a nossa forma de fazer cidade que está a afastar as pessoas”.

A frustração revelou-se grande. Se havia várias políticas, algumas bem-intencionadas, e mesmo assim tanta gente continuava sem habitação digna, “o que estaria a condenar estas pessoas à exclusão?” Cristina Botana esboça um leve sorriso, entre o inconformismo e a desilusão. A sua tese apresentará conclusões apenas no próximo ano, mas a arquitecta já sabe que elas terão raízes em várias áreas do saber. E serão sempre abstractas.

Ficará pelo Porto, pelo menos, até Fevereiro. Mas já foi avisando a família da relação séria criada com Portugal, como quem antevê a continuidade da ligação. Porque nunca se sentiu estrangeira na cidade. Porque se encantou com o “espírito cidadão” mais apurado do que aquele que encontrava na Galiza: “Não sei se foi por em Portugal ter sido a cidadania a derrotar a ditadura enquanto em Espanha ela foi enterrada”, interroga-se.

João Nuno Brochado há-de regressar ao Porto um dia. Não faz pontaria no calendário, avesso que é a previsões excessivas, mas a sensação de casa ele sabe onde encontrará sempre. No ano da sua saída, que foi o da chegada de Cristina Botana, ele viu projectos pessoais ganharem corpo (“às vezes os anos parecem salas de espera, onde apenas aguardamos que algo aconteça. Neste pude fazer o que quis”), ela arriscou trocar um emprego seguro por um futuro interrogado e um sonho de satisfação (“mais do que dedicar toda a minha energia a tentar encontrar um êxito laboral, tarefa ingrata nesta realidade, percebi que me fazia mais feliz abrir caminho na área que realmente me motiva e onde acho que posso fazer algo”). Para os dois, 2018 foi ano de “inquietação”. É que se a viagem deles se fez em direcção aos sonhos, a do mundo parece mover-se no sentido dos extremismos. E esse é o único movimento que não lhes interessa.