Balanço 2018

Ficção: o melhor do ano

Escolhas de Helena Vasconcelos, Isabel Lucas, José Riço Direitinho e Mário Santos.

  

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9

ex aequo

A Luz da Guerra

Michael Ondaatje

Relógio D'Água

"Em 1945 os nossos pais foram-se embora, deixaram-nos ao cuidado de dois homens que podiam muito bem ser criminosos." Nathaniel, o narrador, tem 14 anos, a irmã, Rachel, "quase" 16. A partir desta história de abandono, o canadiano Michael Ondaatje constrói um romance onde explora a inventividade da memória nas suas diversas paisagens e grandes momentos de luz e sombra. Uma sinfonia romanesca, pelo vencedor do Booker dos Bookers, com O Paciente Inglês. I.L. 

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9

ex aequo

A Paixão Segundo João de Deus

António Cabrita

Exclamação

Reencontrado por acaso na Baixa Pombalina, Deus confessa-se, conta tudo. João de Deus, a personagem-máscara do realizador João César Monteiro. Aqui continuada por outros meios, mas com idêntico efeito humorístico. Trata-se de uma biografia imaginária da imaginária figura, uma homenagem paródica que António Cabrita tinha na gaveta há vários anos. Obra libertadora dos costumes e, sobretudo, do verbo, é um sumptuoso divertimento literário. M.S.

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5

ex aequo

Raposa

Dubravka Ugresic

Cavalo De Ferro

Erudita e inteligente, Dubravka Ugresic (n. 1949) confunde o real e o imaginário de maneira a interrogar ambos, reivindicando uma maior veracidade para a magia da literatura. Romance de estrutura episódica, que acumula partes narrativas e polifonia de registos, e no qual os temas habituais da escritora croata surgem mais uma vez: a condição do exílio, os nacionalismos, a reabilitação da História, o modo de vida do escritor, e o mercado cultural da arte. J.R.D.

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5

ex aequo

A Praia de Manhattan

Jennifer Egan

Quetzal

Durante a Segunda Grande Guerra, uma jovem intrépida decide juntar-se às equipas de mergulho que reparam navios e levam a cabo duros trabalhos. No ambiente electrizante das docas, com gangsters trágicos, pais desaparecidos, pobreza e dificuldades de vária ordem, ela envolve-se numa história de sacrifício, paixões e decisões difíceis. A Nova Iorque das fotografias de Stieglitz, romântica e avassaladora, romanceada por uma escritora de excepçãoH.V.

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5

ex aequo

A Casa Golden

Salman Rushdie

D. Quixote

Os Golden surgem um dia em Nova Iorque e adquirem uma enorme mansão, recusando-se a revelar seja o que for sobre o seu passado. A vida desta família, por detrás das paredes bem defendidas do palacete no centro de Manhattan é escrutinada pelo narrador que, à semelhança de Nick Carraway em O Grande Gatsby de Fitzgerald, é um observador passivo, mas não isento de crítica. Uma parábola da sociedade americana, em vésperas da eleição de Trump. H.V.

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5

ex aequo

Um Bailarino na Batalha

Hélia Correia

Relógio D’ Água

Para que serve a literatura? Serve para ‘isto’. Hélia Correia colhe a escuridão do mundo e transforma-a em luminosa memória literária. Um Bailarino na Batalha (citação de um poema de Nietzsche intitulado Última Vontade) narra uma travessia do deserto em busca de uma terra prometida chamada Europa. E eis que a ficção ascende, como se fora nova, ao real e ao político pelo melhor caminho: a poesia. M.S.

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4

A Última Porta Antes da Noite

António Lobo Antunes

D. Quixote

O título remete para uma ópera de Bela Bartók e parte de um crime real: a morte de um empresário e a destruição do corpo com ácido sulfúrico. Desde a elaboração do plano à concretização do acto e as suas consequências, António Lobo Antunes entra na cabeça e na intimidade de cada um dos cinco criminosos para explorar cada carácter. São homens infantis, perversos, medrosos, mesquinhos, cobardes. Um romance polifónico que se abstém de julgamento moral e expõe, através de recursos linguísticos, a grande contradição humana. I.L.

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3

Eliete

Dulce Maria Cardoso

ed. Tinta-da-China

Sete anos depois de O Retorno, Dulce Maria Cardoso regressa com outra grande personagem. Eliete é uma mulher de meia-idade com uma vida normal na sua terrível e muito pessoal anormalidade. A partir dela, do seu quotidiano, frustração, da sua relação com o tempo e com o que ele faz, por exemplo, ao corpo e à memória, a escritora traça um retrato detalhado do presente em Portugal. Neste que é o primeiro volume de um projecto maior, há a inquietante percepção de que Eliete somos nós, sobretudo quando não gostamos muito do que vemos. I.L.

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2

Mrs Osmond

John Banville

Ed. Relógio D’Água

Perante a impossibilidade de sabermos o que acontece a Isabel Archer, protagonista trágico-cómica de O Retrato de uma Senhora de Henry James, o irlandês John Banville fá-la renascer e arrasta-a de novo para o pathos da sua existência. Continuará Isabel a ser “uma senhora” ou rebelar-se-á? Como poderá escapar de um marido cruel e das suas maquinações? Banville, com o seu virtuosismo exasperante, responde. Ou talvez, não. H.V.

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1

Berta Isla

Javier Marías

Ed. Alfaguara Portugal

Em Berta Isla o espanhol Javier Marías recupera algumas personagens da sua trilogia O Teu Rosto Amanhã. Como acontece em alguns dos seus livros mais recentes, também neste existe uma personagem dividida entre a cultura inglesa (estudou em Oxford, universidade onde Marías também leccionou) e a cultura espanhola. Tomás (Tom Nevinson), filho de pai inglês, cresce em Madrid (onde muito novo conhece Berta Isla, com quem se virá a casar) mas faz os estudos universitários em Inglaterra. É durante estes anos que os serviços secretos ingleses o recrutam – ele é um superdotado para línguas – e passa a ser enviado em missões de espionagem. Mas este recrutamento acontece depois de ele ser chantageado ao ver-se envolvido num assassinato. Dito isto assim, poderá parecer ser este um romance sobre espiões. Não é.

Para Marías a literatura parece funcionar sempre como uma forma de se chegar ao conhecimento, tentando antes descobrir os mistérios que as personagens guardam, aquilo que nelas está invisível e que aos poucos vai saindo da penumbra. A sua prosa introspectiva (característica cada vez mais acentuada), bastante digressiva e heterodoxa, serve para, aos poucos, ir tornando clara uma tentativa de compreensão do mundo. A acção narrada é reduzida, como se fosse necessário parar o tempo para perceber melhor a vida.

Berta Isla é um romance sobre a decepção e a incerteza da espera, a história de uma mulher que ao longo de décadas tenta resistir a uma ideia de amor, e que se vai apercebendo que a história da sua vida se resume a umas linhas na narrativa da vida de alguém com quem viveu muito tempo e que não conhece. J.R.D.