Crítica

Silêncio coberto de musgo

Uma poética saga islandesa de três gerações.

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MIGUEL MANSO

A prosa do islandês Jón Kalman Stefánsson (n. 1963), bem como de outros autores do seu país, carrega uma tradição que remonta às rímur (elemento essencial da poesia popular de tradição oral, cujos autores são camponeses) e às sagas medievais. Cristaliza a tradição nórdica ao mesmo tempo que lhe inventa novas roupagens, fundindo elementos da mitologia nórdica com outros de carácter mais contemporâneo. Os seus romances — este é o quarto traduzido para portugês — ambientam-se na singular atmosfera de elementos naturais ferozes e opressivos, de uma Natureza ainda não subjugada pelo Homem (de fogo e de vento, de gelo, de montanhas gigantes, e de rios indomáveis), tão característica da Islândia, e que nos remete sempre para a memória lírica do mito — mesmo quando a sua acção decorre nos dias de hoje —, para um tempo dominado por uma avassaladora solidão onde ainda ecoam as sagas vikings e os seus eternos heróis trágicos. Essa solidão toma conta das personagens, fazendo com que as suas vidas sejam uma constante e inglória luta contra este sentimento. Como se a geografia insular lhes condicionasse a existência e os remetesse para uma solidão irremediável.

Depois de traduzida para português a sua trilogia — Paraíso e Inferno (2013), A Tristeza dos Anjos (2014), e O Coração do Homem (2016) — chegou agora a vez deste romance mais recente. Se nos livros anteriores tudo se passava num tempo antigo, e tendo como cenário aldeias submersas na miséria, na fome, nas doenças, nas duras condições climáticas, em Os Peixes Não Têm Pés o tempo é o de um mundo em mudança, o nosso, e num cenário mais urbano, mas o mesmo “país duro”, de paisagens desoladas, austeras e frias, natureza que os homens enfrentam de maneira quase obstinada até à exaustão. Um país com chão de lava: essa lava que é “um grito antigo”, e também um “silêncio coberto de musgo”.

Em Os Peixes Não Têm Pés, na sua escrita poética, Stefánsson conta-nos histórias de três gerações de uma família, a de Ari — um editor, antigo poeta e escritor, com quase 50 anos, divorciado, e que deixou a Islândia para trabalhar na Dinamarca. “Às vezes é difícil respirar em comunidades pequenas, o aperto pode ser asfixiante, vou-me embora antes que sufoque”, anunciou ao amigo. Ari recebe um embrulho enviado pelo pai: nele vem uma foto antiga dos pais de Ari, em que “pareciam realmente felizes”, e um diploma de honra do avô; Ari suspeita que aquilo seja uma despedida e decide voltar à Islândia. Aterra em Keflavík (onde um amigo, o narrador, o espera), o lugar onde passou a adolescência, esse lugar de lava, por vezes coberta de musgo, e que tem apenas três pontos cardeais: “o vento, o mar e a eternidade”. Regressa para curar feridas que nunca sararam, porque “uma ferida nunca mencionada, nunca tratada, torna-se, com o passar do tempo, uma úlcera profunda e incurável”. Como se Stefánsson quisesse aventurar-se em descobrir quanto sofrimento é que o coração humano consegue suportar, e fá-lo amparado pelas memórias e vozes fantasmagóricas dos mortos.

É a partir deste acontecimento que o romance se desenvolve, e que serve a Stefánsson para esboçar uma cartografia afectiva das nossas angústias e fraquezas. Ari e o amigo revisitam as memórias da adolescência, e a morte da mãe (quarenta anos antes); entretanto, o narrador aproveita para fazer um retábulo da Islândia no século XX ao contar a história do pai de Ari, e a dos seus avós, de como estes se conheceram e viveram num lugar ancestral, um dos mais inóspitos do mundo, tendo apenas o mar para sobreviverem, e evoca isso num tempo em que os portos de pesca islandeses, e as fábricas conserveiras, entraram em decadência como sinal de um tempo novo; o mesmo tempo da corrupção política e económica.