É Natal?

Neste Natal para muitas mulheres e crianças o melhor presente seria a possibilidade de uma vida em paz na sua própria casa.

Para muitas famílias e para muitas crianças este Natal não será um momento de paz e de felicidade. A família real não será um espelho da família do presépio, será sim mais um dos milhares de casos reportados de violência doméstica ou mais um dos muitos casos invisíveis de sofrimento abafado. Estatisticamente sabemos que o Natal, férias de verão, noites e fins-de-semana são sempre períodos de maior risco.

Como viverão o Natal as nossas Crianças que presenciam [1] milhares de ocorrências de violência doméstica?

Como será o Natal das nossas mais de 1000 Crianças [2] que vivem em casas abrigo e acolhimento de emergência?

Como sociedade varremos para longe todos estes casos por serem tão incómodos e abalarem a nossa ideia da família como núcleo de proteção.

Repito de forma regular a frase “a grande maioria dos crimes sexuais em Portugal têm como vitima uma criança ou adolescente, e o abuso é maioritariamente cometido em meio intrafamiliar”. Vejo o desconforto dos meus interlocutores e o mudar de assunto sistemático. É tão mais fácil pensar no abusador desconhecido que espreita numa qualquer rede social.

Segundo a UMAR, até 20 de novembro, 24 mulheres foram assassinadas em Portugal, em contextos de intimidade ou relações familiares próximas e 16 viram a sua vida ser atentada. Como será o Natal das 22 crianças que em 2018 ficaram órfãos por a mãe ser vítima de femicídio? Como será o Natal destas famílias que perderam uma das “filhas”?

Neste Natal para muitas mulheres e crianças o melhor presente seria a possibilidade de uma vida em paz na sua própria casa.

Para muitas crianças o melhor presente seria poderem decidir com quem querem passar o Natal sem serem forçados a partilharem-no com quem os apavora e a viverem toda esta quadra em dor. Dor pela ausência de quem amam. Dor pelo medo de quem está presente.

Todos nós podemos contribuir para que os próximos Natais destas famílias sejam melhores. Exigindo do nosso poder político o foco necessário neste flagelo nacional. Exigindo do nosso poder judicial a responsabilização pelas decisões de proteção das vítimas e pela mensagem que passam à sociedade de tal comportamento não ser tolerado numa sociedade que se quer desenvolvida.

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

[1] Relatório anual de monitorização, MAI, dezembro 2017

[2] Infografia “Prevenção e combate à violência contra as mulheres e violência doméstica- 2018”, CIG