Entrevista

"A componente relacional dos miúdos tem mesmo de ser valorizada"

Margarida Gaspar de Matos, coordenadora do grande inquérito aos adolescentes portugueses, que é divulgado nesta quarta-feira, diz que é importante recuperar espaço nas escolas para os trabalhos não curriculares.

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Daniel Rocha

Este inquérito aponta uma percentagem significativa de alunos exaustos, que não gostam da escola. É um problema que se arrasta. Como é que devíamos estar a responder-lhe? 
A escola não se pode centrar só nos indicadores académicos. É importantíssimo haver nas escolas um espaço dos adultos de referência com as crianças que não seja só uma troca à volta das matérias. Isso já foi tentado várias vezes, mas depois as coisas não andam para a frente, por causa da “sazonalidade partidária”. E nós até fomos um país pioneiro na criação de espaços nas escolas para trabalhos não curriculares, para trabalhos de projecto. Miúdos que, por exemplo, têm famílias disfuncionais e pais perturbados ganhavam ali uma hora por semana – na altura eram três – com professores disponíveis para fazer coisas que eram basicamente de cariz académico mas que abriam espaço a outras conversas com o professor.

Esses projectos foram descontinuados pelo Governo anterior, por causa da Matemática. Só que neste momento somos provavelmente melhores a Matemática mas andamos mais medicados e mais chateados e stressados com a escola. E depois, quando estas coisas são descontinuadas, os professores também ficam descrentes e não querem voltar a insistir. Mas a componente relacional dos miúdos tem mesmo de ser valorizada. Porque a escola é onde os miúdos passam a vida toda. Se comem mal, se se sentem maus alunos, aquilo é um sofrimento.

Mas vê hipóteses de mudança? 
A autonomia dada às escolas para a flexibilização curricular é fantástica porque permite que os professores, que são os especialistas dos currículos que dão, se juntem e diminuam a carga curricular. Parece-me óbvio que os especialistas têm que rever aquilo: em vez de darem metade da matéria e aprenderem coisas potencialmente inúteis, os alunos podiam dar menos matéria e chegar ao fim. Esta gestão curricular flexível está a ser muito incentivada por este secretário de Estado e, pelos vistos, não está a ser tão popular quanto devia. 

E há evoluções positivas nos comportamentos autolesivos e nos consumos? 
Os comportamentos autolesivos têm uma diminuição tão ligeirinha que é um empate técnico. O que está melhor é a questão do bullying. A história da provocação e do andar ali a massacrar os colegas (em que éramos horríveis em 2002) foi muito trabalhada neste país. Se bem que as lutas não baixam, o que baixa são as provocaçõezinhas - o que já não é mau. Depois o que baixa realmente são os consumos, o tabaco e as drogas, sobretudo. O álcool, nem tanto.