Der Spiegel admite que jornalista inventou reportagens

Um dos mais destacados repórteres da revista alemã confessou ter cometido fraude jornalística "em larga escala", inventando personagens, diálogos e informações em pelo menos 14 reportagens.

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LUSA/CARSTEN KOALL

Uma investigação interna da revista alemã Der Spiegel concluiu que o jornalista e editor Claas Relotius cometeu fraude jornalística “em larga escala”, de forma “intencional, metódica e com implicações criminais”, enganando vários “leitores e colegas”. As conclusões desta investigação interna foram anunciadas esta quarta-feira pela própria Der Spiegel, que pede desculpa aos seus leitores.

A revista explica em comunicado que Relotius fez uma “confissão completa” acerca da falsificação de vários trabalhos, mas que a publicação já desconfiava há algum tempo de uma eventual fraude. Até ao momento, o jornalista admitiu ter falsificado 14 reportagens, parcialmente ou na sua totalidade, mas a publicação considera que isto pode ser “apenas o início” de uma fraude maior.

Relotius disse estar profundamente envergonhado e arrependido. "Estou doente e preciso de ajuda", terá dito, segundo a revista. "Não o fiz para me tornar no próximo grande jornalista. Foi pelo medo de falhar. A pressão de não falha só crescia quanto mais bem-sucedido me tornava", afirmou. O jornalista já tinha ganho vários prémios internacionais com os seus trabalhos.

O inquérito interno foi lançado na sequência de suspeitas relativas a uma reportagem, publicada em Novembro, sobre a fronteira entre o México e os Estados Unidos. Outro jornalista que tinha colaborado na elaboração dessa reportagem, Juan Moreno, suspeitou da veracidade de alguns aspectos desse trabalho e resolveu falar com testemunhas que supostamente tinham sido contactadas por Relotius, chegando à conclusão de que algumas conversas nunca aconteceram. Nessa reportagem, tal como noutros trabalhos, o jornalista alemão “inventou personagens e diálogos”. As denúncias de Moreno foram inicialmente mal acolhidas dentro da revista, mas acabariam por desencadear uma investigação a Relotius.

Outra reportagem cuja veracidade é agora posta em causa na sua totalidade é precisamente a que tinha valido a Relotius o prémio de repórter do ano 2018 na Alemanha — um perfil sobre uma criança síria. 

Relotius, de 33 anos, começou a colaborar com a Der Spiegel em 2011, tendo assinado mais de 60 artigos. O jornalista escreveu também para outros títulos germânicos de referência — como o Die Welt, o Frankfurter Allgemeine Zeitung e o Tageszeitung — e a Der Spiegel diz não poder garantir neste momento que o repórter não tenha defraudado igualmente essas publicações.

Até a investigação ao caso estar terminada, a revista manterá online os artigos sob suspeita, mas acrescentando-lhes uma nota sobre a descoberta desta semana. A Der Spiegel apela ainda aos seus leitores que ajudem a indicar outros eventuais exemplos de falsificações cometidas por Relotius — que, entretanto, apagou todas as suas contas nas redes sociais.