Crítica

Saramago segundo Pinho Vargas

Dar ouvidos a Memorial, obra sinfónica escrita para os 20 anos da atribuição do prémio Nobel a José Saramago, é mergulhar nas cumplicidades nem sempre óbvias que se tecem entre o compositor e o escritor.

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António Pinho Vargas MIGUEL MANSO

Perguntar é próprio dos ouvidos. Acreditamos (mesmo sabendo que não é assim) que ver é coisa garantida, segura, prova de verdade. Para os olhos, certezas: “eu vi!...” Para a escuta ficam as dúvidas e as incertezas: “ouvi dizer...” Mas procuremos dar ouvidos a Memorial, ou seja: levemos a sério e ouçamos atentamente o gesto de António Pinho Vargas, que compôs uma obra sinfónica para José Saramago, numa altura em que se marcam, com várias iniciativas, os 20 anos da atribuição do Prémio Nobel ao escritor português (Saramago, Nobel 1998).

O título Memorial, impossível de não associar a um dos romances mais famosos de José Saramago (Memorial do Convento), puxa-nos pela memória dum passado. No entanto, mais do que um livro ou um relato, este Memorial é uma obra de arte (sem palavras, para além do título) que traz as lembranças em forma sinfónica. Uma obra evocadora de um tempo e de uma cumplicidade, escrita por um compositor que admira confessadamente o escritor e que viveu “um mesmo tempo”.

O que surpreende antes de mais em Memorial é a sua escrita afirmativa, aparentemente sem dúvidas, que as cordas da orquestra lançam desde o início numa linguagem reconhecível (ah, isto é Pinho Vargas!...). Um ímpeto que procura perdurar, talvez mesmo fazer-se pedra, ainda que sob a forma de monumento incompleto. Surpreende-nos, porque António Pinho Vargas nos habituou a vê-lo (a ouvi-lo!) como um compositor que interroga, questiona, deixa incompleto para nos obrigar a uma reflexão. Mas aqui não é isso que ouvimos de início. Os sopros dialogam e parecem comentar (logo desde os primeiros compassos) as linhas tensas e as harmonias densas das cordas da orquestra. Na parte seguinte, Memorial torna-se rápido e histriónico, mas não se ouve ali comédia ou ironia: a música expande-se quase violentamente, em gestos orquestrais que põem todos os músicos em febril actividade, com um peso significativo das percussões que se cruzam com os timbres das cordas. São estas que se mantêm quase sempre como fio condutor central que tece a peça sinfónica. Depois, surgem gestos musicais que se poderiam dizer quase pianísticos: melodias descendentes sobre acordes de novo esticados. E aqui a música abre-se como um livro, ou melhor, desenrola-se como se escrevesse notas para um ensaio futuro.

A direcção extremamente clara do maestro Jonas Alber e uma prestação soberba da Orquestra Metropolitana de Lisboa trouxeram luzes inesperadas a esta música de cumplicidades que apenas se adivinham. Cumplicidades com os romances de Saramago (Ensaio sobre a Cegueira, de 1995, Ensaio sobre a Lucidez, de 2004, e Intermitências da Morte de 2005 são as referências literárias assumidas) e, talvez também, proximidades com uma forma de olhar o mundo, entre a desesperança e o apelo à rebelião, entre a força da vida humana e a reflexão sobre a morte.

A escolha da Sinfonia de Câmara, o arranjo de Rudolf Barshai para o Quarteto op. 110 de Shostakovitch, para preceder este Memorial, foi feliz. Não só porque é uma obra “de amizade” (o maestro e violinista Barshai foi amigo próximo do compositor russo), mas porque tem verdadeiras pontes estéticas com o trabalho das cordas na obra de Pinho Vargas, apesar das devidas distâncias de tempo e de linguagem. Para além disso, tivemos a sorte de escutar uma interpretação excelente da Orquestra Metropolitana, com Jonas Alber a saber revelar todas as luzes e sombras desta sinfonia para cordas.

No final de Memorial, um acorde repetido fica suspenso, sem resolução, e interrompe-se subitamente, como a vida. E aí sim, voltamos a ver a música de António Pinho Vargas interrogar o presente e a própria morte. Ou será a memória do que pode ainda vir?