Moradores do bairro da Torre voltam a passar Natal às escuras

Depois de a EDP ter cortado a luz em 2016, a autarquia disponibilizou geradores de energia, mas os moradores não foram capazes de suportar os custos com o gasóleo.

Fotogaleria
O bairro da Torre, situado na vila de Camarate, distrito de Lisboa, continua a albergar 34 famílias Rui Gaudencio
Fotogaleria
Os moradores não têm água canalizada e vivem sem electricidade. Guilhermina, uma das moradoras do bairro em 2016 Rui Gaudencio
Fotogaleria
Ricardina, a presidente da comissão de moradores em 2016 Rui Gaudencio

Pelo terceiro ano consecutivo, os moradores do bairro da Torre, no concelho de Loures, vão passar o Natal às escuras, situação que ocorre desde que a operadora EDP cortou a luz das habitações precárias.

Situado na vila de Camarate, em terrenos contíguos ao Aeroporto Militar de Figo Maduro e ao Aeroporto de Lisboa, este bairro de barracas do distrito de Lisboa, nascido na década de 1970, continua a albergar 34 famílias, depois de o município ter realojado outras este ano.

A electricidade foi cortada em Outubro de 2016. Na altura, fonte da EDP explicou que a empresa de distribuição e comercialização de electricidade "desfez algumas ligações eléctricas ilegais em habitações ilegais", uma vez que "podiam colocar em causa a segurança das pessoas e bens".

Segundo a resposta enviada então à Lusa, a acção foi efectuada com o conhecimento da Câmara Municipal de Loures e a EDP não "desligou ou desfez ligações a clientes que tinham ou têm contratos activos com qualquer comercializador".

A autarquia chegou a disponibilizar geradores de energia, mas dois meses depois, em Fevereiro de 2017, os moradores manifestaram a sua incapacidade financeira para suportar os custos com o gasóleo e pediu que fossem retirados.

Neste domingo à tarde, o bairro da Torre é palco de uma festa de Natal, momento aproveitado pelos moradores para transmitir esperança e não revolta, conforme explicou à agência Lusa a presidente da associação Torre Amiga, Ricardina Cuthbert.

"Vai ser uma festa para as famílias e para as crianças. Não queremos voltar a falar de uma situação que já todo o Portugal conhece e estragar o ambiente. Em vez disso, queremos passar uma mensagem de esperança", afirmou.

No entanto, Ricardina Cuthbert manifestou mágoa pela "passividade" das entidades em resolver os problemas do bairro e em dar dignidade às 34 famílias que ainda ali residem.

"Basicamente aqui vive-se como nos anos 60. Lavamos as roupas nos tanques e comemos à luz de velas", lembrou.

A presidente da Torre Amiga acusa ainda a Câmara Municipal de Loures de impedir os moradores de melhorar as condições das suas habitações: "Há uns tempos uma empresa ofereceu-nos material de construção, para que pudéssemos remodelar as nossas casas. A câmara quando soube enviou cá a polícia e levaram-nos o tijolo".

Apesar disso, Ricardina Cuthbert assegurou que os moradores mantêm a esperança de que possa nascer um "novo bairro da Torre", com melhores condições para todos.

"Aquilo que é desejável é que neste ou noutro terreno nos deixem a todos construir as nossas casas. Queremos viver todos juntos, pois quem saiu daqui sofre pela falta da convivência de anos", argumenta.

Por seu turno, em declarações à Lusa, o adjunto do presidente da Câmara Municipal de Loures para a área social, Nuno Abreu, ressalvou que a autarquia tem feito tudo o que está ao seu alcance para "erradicar as habitações precárias e dar condições de habitabilidade aos moradores".

"O nosso objectivo é encontrar soluções dignas para todos os casos. Temos estado em contacto directo com o Governo e com o Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU) para encontrar uma solução, uma vez que a autarquia sozinha não consegue resolver", apontou.

Relativamente à falta de luz, Nuno Abreu referiu que o município já solicitou à EDP que arranje uma solução para o bairro.

Já sobre as queixas dos moradores de que a Câmara proibiu a reabilitação das casas, o representante camarário afirmou que o município terá uma tolerância zero face às tentativas de construir novas estruturas precárias.

"Se queremos erradicar não podemos permitir que se façam novas construções e que este problema se perpetue", disse.