Crónica

Querido Pai Natal,

É assim desde que me lembro. Com rostos que já não estão, outros que não existiam e outros que não conhecíamos e passaram a fazer parte das nossas vidas. Tem sido assim e tem sido muito bom.

Sei que deves estar a estranhar esta carta, porque nunca te escrevi antes e não tenho outra desculpa senão a de nunca ter acreditado que existisses. Mas, sabes, a gente vai percebendo que isto sem um bocado de fantasia e imaginação não vai lá, por isso, aqui estou eu.

Espero que estejas bem. E, sossega, não me lembrei agora de te escrever para desatar a pedir presentes. Deixo isso para os miúdos, até porque tenho os armários demasiado cheios e não preciso verdadeiramente de nada. Escrevo-te antes para te agradecer por todos os natais passados. Por ter chegado até aqui a gostar da época, por continuar a ansiar pelos almoços e jantares que se repetem anualmente com aqueles que gosto de ter por perto. As minhas pessoas. Por saber de cor, se tudo correr bem, os rituais que, de novo, vão ocupar a véspera e o dia de Natal. E ansiar por eles.

Houve uns mais complicados do que outros, claro. Já não somos os mesmos à mesa. A minha mãe morreu num mês de Outubro e esse Natal foi difícil, mesmo sem sabermos que seria o último do meu pai. Mas tínhamos um bebé novo, que hoje já é um matulão, e isso ajudou. Há sempre pessoas novas a chegar. Agora temos uma menina de três anos e quem tem em casa uma menina de três anos feliz e tagarela sabe que isso chega para fazer o Natal.

Mas não é só isso. Começa na tarde da véspera de Natal. E essa tarde é uma das minhas partes favoritas de toda a época. É quando eu e as minhas irmãs vamos para a cozinha fazer os doces e preparar o jantar. Há sempre gente a tocar à porta. A minha mãe não saía muito e, por isso, sempre houve o hábito de alguns familiares aparecerem para desejar uma noite boa. A tradição manteve-se e esta interrupção permanente entre farinha, ovos e açúcar é uma delícia. Chegam os primos com os filhos; vêm as amigas com pressa, porque ainda têm visitas para fazer; o primo que só ali vai naquele dia e que não sai sem beber um cálice de vinho do Porto e comer um coco ainda morno; a amiga que chega sempre demasiado perto da hora do jantar e nunca tem pressa para se ir embora. E isto enquanto aproveitamos para provar a aletria quente e comer a rabanada que acabou de sair do fogão, antes de ficar para ali esquecida na mesa, já fria, no meio de tantas outras coisas.

PÚBLICO -
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Ghislain & Marie David de Lossy/Getty Images

O bacalhau tem sempre um sabor diferente nesta noite. É só de mim? O molho que a cunhada faz deve ajudar, mas não sei se é só isso. É diferente, pronto. E quase não temos espaço para todos, mas cabe sempre mais um.

Lá em casa todos gostamos de dar e receber presentes, por isso todos dão a todos e recebem de todos. Não precisa de ser nada muito caro, não penses. Quando era miúda fazia presentes — cosia sacos de pano, pintava canecas lisas que custavam poucos cêntimos — e qualquer postal desenhado pelos mais novos é recebido como o presente mais valioso do mundo. Não sei se estás a imaginar. Por esta altura já há embrulhos amontoados por todo o lado, ocupando uma parte considerável da sala e, na véspera de Natal, quando chegam os sacos e caixas de quem vem de fora, toda aquela parte da casa se transforma num caos colorido.

E não, não somos daqueles que esperam pela meia-noite para trocar os presentes. Terminado o jantar, arrumada a cozinha, a mesa posta com o que vai ficar até à manhã seguinte (e tomar o pequeno-almoço naquela mesa é outro ponto alto da época), marcam a hora de trocar as prendas. Temos duas desculpas (se é que elas são precisas): gostamos da troca, estamos todos ansiosos para desfazer aqueles embrulhos e, além disso, mais tarde hão-de chegar mais familiares que, cumprido o jantar e a troca de presentes em casa deles, se vêm juntar a nós. Portanto, bem perto da meia-noite, temos a segunda troca de prendas, com o resto da família. Com alguns de nós já enfiados em pijamas quentes.

É assim desde que me lembro. Com rostos que já não estão, outros que não existiam e outros que não conhecíamos e passaram a fazer parte das nossas vidas. Tem sido assim e tem sido muito bom. Por isso, Pai Natal, este ano, escrevi-te basicamente para te dizer que não é preciso mexer. Está bem assim. E que sei que, mesmo havendo pessoas que vão partindo, há sempre pessoas novas que chegam. E que espero que, se possível, o teu Natal também te desperte esta sensação de mantas quentes, açúcar, partilha e conforto que é o Natal lá de casa. Se for assim, como sabes, está perfeito.