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Megafone

Agora é a nossa vez

Damos sempre como garantidas as presenças das pessoas, principalmente dos nossos pais. Devia ser obrigatório estarmos juntos uma vez por semana, telefonarmos duas. Saber se estão bem, se precisam de alguma coisa, se querem almoçar.

Aqui há uns tempos encontrei de raspão uma pessoa que não via há alguns anos. Tinha regressado de uma grande viagem. Perguntei-lhe a coisa mais banal e corriqueira que faz parte do nosso diálogo mundano:
- Então, como estás? Corre-te bem a vida?

A resposta acabou por ser das coisas mais banais e ao mesmo tempo profundas que já ouvi:
- Está tudo óptimo. Ainda cá tenho o meu pai e a minha mãe. 

Esta é uma observação que me dá muito que pensar. Aliás, fiquei a pensar naquilo nessa tarde. De facto, damos sempre como garantidas as presenças das pessoas. Principalmente dos nossos pais. Damos por garantida a sua protecção, damos por garantida a sua segurança, damos por garantida aquela ajuda quando precisarmos de desenrascar alguma coisa: seja o valioso conselho da nossa mãe sobre ir arranjar oportunidades de trabalho para o estrangeiro ou a boa acção do pai ao ceder uma peça para o motor do carro.

Durante anos fomos protegidos, alguns até demais. Durante anos fomos amparados, segurados e acarinhados. O amor de um pai e de uma mãe para com os filhos é algo que está para lá das palavras ou até dos gestos. Está para lá das trivialidades. Devia ser obrigatório estarmos juntos uma vez por semana, telefonarmos duas. Saber se estão bem, se precisam de alguma coisa, se querem almoçar. 

Depois de nos terem comprado o que queríamos, de nos terem respondido às seiscentas perguntas naquela curta viagem de carro, depois de nos terem contado as melhores histórias às quais estamos eternamente gratos porque nos fizeram dormir e aceleraram a imaginação, depois de terem mostrado orgulho nas notas ou castigado quando necessário. Depois de nos terem mostrado por A + B que atrás daquela porta nada existia, depois de terem gritado o nosso nome da bancada naquela manhã invernosa de domingo, merecem até mais do que uma pergunta. 

Chega a uma altura na vida em que tem que ser o contrário. Agora é a nossa vez. Agora a responsabilidade terá que ser nossa. Os filhos têm a ensinar aos pais muito mais do que eles possam pensar. Serão seiscentas perguntas sobre as redes sociais, os dispositivos móveis e sobre como se mexe numa cloud. Ou mesmo, o que é uma cloud. Mas estaremos lá para responder. Perguntarão porquê milhares de vezes e a nossa missão é lá estar com o "porque".

Agora é a nossa vez de pagar o jantar, agora é a nossa vez de marcar viagem, agora é a nossa vez de abraçar, agora é a nossa vez de aconselhar, agora é a nossa vez de amparar as quedas, físicas e emocionais. Agora é a nossa vez de ensinar, de sentar ao lado e preencher o que não conseguem. Agora é a nossa vez de mostrar por A + B o quão gratos estamos.