Opinião

A Terra está a ficar difícil para a cultura do vinho

As alterações climáticas estão a obrigar os viticultores das zonas mais áridas a procurar zonas mais frescas e húmidas e, ao fazê-lo, estão a empurrá-los de lugares onde o recurso a produtos químicos podia ser residual para sítios onde, por haver mais pressão de doenças como o oídio e o míldio, é necessário usar mais químicos. Quem disse que a Terra é um lugar fácil?

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Nelson Garrido

As alterações climáticas estão a empurrar os viticultores para novas latitudes. Em regiões históricas, a fuga é em direcção às cotas mais altas, em busca da frescura e da acidez que compensem a subida do álcool dos vinhos. É um movimento planetário que, mais depressa do que se pensa, vai transfigurar o mapa vitícola mundial. Regiões demarcadas com longa tradição poderão desaparecer ou encolher de forma drástica e outras, até agora inviáveis para a cultura da vinha, irão ter a sua oportunidade.

Os fenómenos meteorológicos extremos, como inundações, vagas de calor, secas severas, quedas de granizo e geadas violentas, são cada vez mais frequentes e têm provocado enormes prejuízos um pouco por todo o mundo. Em 2016, a colheita mundial de vinho foi a mais baixa das últimas duas décadas. Por outro lado, a tipicidade dos vinhos também se encontra ameaçada, uma vez que os tempos de colheita têm vindo a ser antecipados. Em Portugal, a vindima de 2017, por exemplo, ocorreu quase um mês antes do normal. A durabilidade dos vinhos pode igualmente ser afectada, porque, com a subida do volume alcoólico, subirá o pH do vinho e diminuirá a sua acidez natural.

A indústria do vinho já está a sofrer com as alterações climáticas, mas os cientistas garantem que o pior ainda está para vir. A temperatura na Terra aumentou cerca de 1,1 graus Celsius desde o final do século XIX, segundo a NASA, com efeitos notórios nos padrões de precipitação e de seca, e há estudos que apontam para uma subida de mais 2,6 graus nos próximos 50 anos, se nada for feito entretanto.  

Embora seja uma planta resistente, a videira reage imediatamente às oscilações do termómetro. Se faz muito calor, fecha os estomas, para não perder água. Ao fechar-se, impede, no entanto, a correcta maturação das uvas. E, quando a água é pouca, protege-se na fertilidade, passando a produzir menos. Isso já acontece no Douro, em especial na sub-região do Douro Superior, em vinhas não regadas, e onde a produtividade por hectare é muito baixa. O crescente stress hídrico das videiras levou, de resto, o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto a autorizar o uso da rega, mesmo nas vinhas para vinho do Porto.

Esta autorização, justificada do ponto de vista agrário, levanta, porém, outras questões ambientais, que têm a ver com a crescente escassez de água para consumo humano. Até custa a acreditar, mas ao longo de todo o seu ciclo, desde a vinha até ao engarrafamento, cada litro de vinho necessita de mais de 100 litros de água (sim, o vinho é uma bebida fantástica, mas é também muito pouco amigo do ambiente). Por esse motivo, a prazo, a rega nunca poderá fazer parte da solução na viabilidade da viticultura. É apenas um remédio passageiro.

A abordagem mais consensual ao aumento das temperaturas passa por apostar em videiras de ciclo longo e mais resistentes à seca e pelo recurso a fertilizações orgânicas que permitam preservar mais a humidade dos solos. A França, por exemplo, já criou castas novas com esse fim. Mas há quem defenda uma opção mais radical: fazer viticultura apenas onde a natureza o permite. Saber “ouvir” a Terra é uma atitude prudente e sábia. Se temos vinhas no lugar errado, o mais avisado é desistir e procurar um lugar melhor.

Por cá, já temos empresas a pensar assim. Não foi por acaso que a Adega da Cartuxa, da Fundação Eugénio de Almeida, sediada em Évora, comprou a Tapada do Chaves, na envolvente da serra de São Mamede, o lugar mais alto do Alentejo. E que a Sogrape e os Symington tenham também feito aquisições naquela zona (a empresa da família Guedes comprou os activos da empresa Sonho Lusitano e os Symington adquiriram as Altas Quintas, uma herdade com mais de 200 hectares). Com o mesmo objectivo de procurar mais frescura, outras empresas começaram a deslocar-se para junto da costa, como foi o caso de Cortes de Cima.

No Douro, foge-se do rio em direcção aos planaltos e às zonas altas, já quase na fronteira da demarcação. As cotas mais baixas estão a ser reservadas cada vez mais para o vinho do Porto e o turismo. Com o crescimento do vinho DOC Douro, as vinhas das aldeias mais altas e que antes tinham pouca procura e valor começam a ser alvo de cobiça.

Não deixa de ser irónico o que está a acontecer. Nas últimas duas décadas, com os generosos incentivos à reestruturação e à plantação de novas vinhas, os viticultores das zonas mais baixas e com terra apta à produção de vinho do Porto compraram milhares de direitos de plantação nessas aldeias dos altos. Com as vendas de vinho do Porto a baixar, o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto foi penalizando essas vinhas de altitude em detrimento das vinhas situadas mais perto do rio Douro e dos seus afluentes. Atirados para fora do negócio do vinho do Porto, os viticultores das aldeias periféricas, na sua maioria idosos, perderam o pouco incentivo que tinham para continuar. Uma boa parte arrancou as vinhas e vendeu os direitos de plantação, fazendo algum pé-de-meia.

Este fenómeno teve duas consequências nefastas para a região: acelerou a desertificação de muitas aldeias do Douro, o que levou a uma drástica redução da mão-de-obra disponível; e fez diminuir o rendimento dos viticultores com vinhas aptas à produção de vinho do Porto. Como aumentou o número de vinhas classificadas (usadas noutros lugares, as licenças das aldeias dos altos passaram a contar para a produção de vinho do Porto) e as vendas deste vinho fortificado continuaram a diminuir, o quantitativo atribuído a cada viticultor foi baixando.

Outra ironia: muitos desses direitos de plantação saíram de lugares que são hoje os melhores para a cultura da vinha e foram transferidos para zonas ameaçadas, por serem secas e áridas, como é o caso do Douro Superior, por exemplo. Este movimento teve, no entanto, um lado positivo: permitiu, na maioria dos casos, fazer vinhas melhores e mais orgânicas, porque o nível de tratamento fitossanitário nesses lugares onde chove menos é muito inferior.

E é aqui que chegamos à última e suprema ironia: as alterações climáticas estão a obrigar os viticultores das zonas mais áridas a procurar zonas mais frescas e húmidas e, ao fazê-lo, estão a empurrá-los de lugares onde o recurso a produtos químicos podia ser residual ou nulo para sítios onde, por haver mais pressão de doenças como o oídio e o míldio, é necessário usar mais químicos. Quem disse que a Terra é um lugar fácil?

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