Ser do Union Berlim é dar sangue, trabalhar nas obras e levar o sofá para o estádio

Emblema do Leste da capital alemã tem tradição de Natal: os adeptos juntam-se no estádio para cantarem cânticos

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Todos os anos o estádio do Union Berlim enche para uma noite de cânticos natalícios Hannibal Hanschke/Reuters

Eles deram o sangue pelo clube, trabalharam de forma voluntária na construção do estádio, e todos os anos se reúnem lá, durante uma noite, para cantarem cânticos de Natal. Eles são os adeptos do Union Berlim e, mesmo sem feitos desportivos de destaque para celebrar, não esmorecem no amor pelo emblema do Leste da capital alemã. Mas este poderá ser o ano em que a paixão e fidelidade incondicionais são premiadas: o clube está na luta pela subida à Bundesliga, o que a acontecer seria uma estreia absoluta.

Dia 23 de Dezembro o Union terá o derradeiro jogo antes da paragem de Inverno: visita o Erzgebirge Aue, a sensivelmente 300 quilómetros de Berlim. Mas para a noite está marcado um evento muito mais importante. Pelo 16.º ano consecutivo, o relvado e as bancadas do estádio Alte Försterei vão encher para uma noite de cânticos de Natal. Os bilhetes esgotaram em poucas horas e são esperadas quase 30 mil pessoas.

Tudo começou em 2003. A equipa estava no último lugar e o desalento instalava-se entre os adeptos. Um adepto decidiu marcar um encontro no estádio para entoar alguns cânticos natalícios e beber o tradicional vinho quente, para levantar os ânimos. No primeiro ano apareceram 89 pessoas, e desde então o número não parou de aumentar.

Incluindo em 2016, quando o evento aconteceu em circunstâncias especiais. Dias antes, um camião avançara sobre um mercado de Natal em Berlim, fazendo 12 mortos e dezenas de feridos. No clube pensou-se em cancelar a noite de cânticos, mas para dar um sinal de união e esperança o evento manteve-se. “Estou aqui porque é importante estar aqui. Não quero pensar que não posso vir por causa de uns idiotas. Quero estar feliz e quero estar aqui. É uma tomada de posição”, dizia na altura um berlinense, citado pelo The New York Times.

Os sócios do Union têm voz na gestão do clube e votam todas as decisões. Mais: metem mãos à obra para que as coisas aconteçam. Em 2008, quando foram precisas obras no estádio, mais de dois milhares de adeptos trabalharam de forma voluntária para minimizar os custos. Em menos de um ano os trabalhos estavam concluídos e os sócios têm um estádio ao seu gosto: em 80% dos lugares pode assistir-se ao jogo de pé. Anos mais tarde o clube retribuiu convidando os adeptos a fazerem do estádio a sala de estar durante o Mundial 2014: quem quisesse podia levar o sofá de casa e instalá-lo no relvado para assistir aos jogos da Mannschaft.

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Sangrar pelo Union

O amor pelo clube tinha ficado claro em 2004, quando o clube enfrentou o risco de falência. Era preciso 1,5 milhões de euros e o presidente Dirk Zingler, homem de negócios, avançou com uma fatia substancial. O resto veio pela mobilização dos adeptos. Foi lançada uma campanha intitulada “Sangra pelo Union” para encorajar as dádivas de sangue (que na Alemanha são recompensadas com um valor correspondente à deslocação e tempo). Quem aderiu encaminhou o montante recebido para o clube, e a complicada situação financeira foi ultrapassada.

Refundado em 1966, quando adoptou o actual nome e identidade, as origens do Union remontam ao início do século XX. O Olympia Oberschöneweide, fundado em 1906 pela fusão de três emblemas, é o antecedente mais antigo do clube que actualmente compete no segundo escalão do futebol da Alemanha. Curiosamente, as cores originais do clube eram o amarelo e preto, mas a partir de 1966 a escolha recaiu sobre o vermelho e branco, que continuam a manter-se.

Durante os anos da Guerra Fria e da divisão de Berlim, o Union viveu na sombra do rival Dínamo, clube controlado pela Stasi, a polícia secreta da RDA, que conquistaria dez títulos consecutivos entre 1979 e 1988. O Union era o único emblema do futebol da Alemanha de Leste liderado por civis e o estádio Alte Försterei tornar-se-ia num ponto de encontro para os críticos do regime. Conta a lenda que, quando o Union beneficiava de um livre directo, as bancadas gritavam “Die Mauer muss weg” (O Muro tem de cair). E o Muro de Berlim acabaria por ser derrubado mesmo em 1989.

A reunificação da Alemanha atirou o Union para as divisões inferiores, até que na época 2000-01 foi obtida a ansiada subida ao segundo escalão. Uma temporada memorável também pela presença na final da Taça da Alemanha, que no entanto terminou em derrota frente ao Schalke 04. O percurso vai-se fazendo passo a passo, e após a mais recente eleição, o presidente Dirk Zingler estabeleceu como objectivo chegar à Bundesliga até 2021. Mas talvez nem venha a ser preciso esperar tanto.

Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias de futebol e campeonatos periféricos