Editorial

Pedofilia: não basta pedir desculpa

A condenação do cardeal George Pell, o terceiro homem mais importante na hierarquia do Vaticano, exige mais do que o seu afastamento do Conselho de Cardeais, um pedido de desculpas, uma confissão de arrependimento e outra de vergonha.

O padrão é este: a seguir à divulgação com estrondo de mais um caso de abuso sexual de menores na Igreja Católica vem, primeiro, a informação de que a hierarquia encobriu os abusos e, depois, o natural e obrigatório pedido de desculpas. Foi o que aconteceu nas dioceses da Pensilvânia, nos EUA, na qual mais de 300 padres foram acusados por crimes praticados contra mais de 1000 vítimas, ou em Washington, que levou à demissão de um arcebispo, ou em Boston, no Chile, na Irlanda, etc. Estes casos tornaram-se tão frequentes e tão incomodativos para o Vaticano que o papa Francisco não teve alternativa a não ser reforçar ainda mais esse pedido de desculpas, ao escrever uma carta aberta na qual admitiu “vergonha e arrependimento” pela forma como o Vaticano lidou com estes crimes, aos quais chamou “atrocidades”. Sim, não basta pedir desculpa. É o próprio Papa quem diz que “nunca será suficiente o que se fizer para pedir perdão e procurar reparar o dano causado”.

A condenação do cardeal George Pell, o terceiro homem mais importante na hierarquia do Vaticano, pela prática de abuso sexual de menores, exige mais do que o seu afastamento do Conselho de Cardeais, no qual pontificavam outros bispos acusados de crimes semelhantes, um pedido de desculpas, uma confissão de arrependimento e outra de vergonha. A lei australiana invocada esta semana para impedir a publicação das notícias sobre o julgamento do cardeal — o responsável pelas finanças do Vaticano voltará a ser julgado, no próximo ano, por outra acusação de pedofilia —, com o argumento de que a divulgação das mesmas pode ter influência no desfecho do caso, só reforça a necessidade de ir além do acto de contrição.

O escândalo nunca se aproximara tanto da hierarquia católica. Os abusos sexuais no interior da Igreja Católica não são apenas um teste ao papa Francisco. O número crescente de vítimas de abusos sexuais com coragem para denunciar os crimes de que foram alvo não vai parar. Mas que ninguém esteja à espera que a Igreja seja capaz de se repensar e de admitir a necessidade de rever as suas posições sobre o celibato ou a possibilidade de os clérigos contraírem matrimónio. Como o Vaticano nunca o fará, os seus bispos transitarão de condenação em condenação, de penitência em penitência até à irresolúvel descredibilização de uma instituição manchada pela pedofilia.