Criança de sete anos morre à guarda do serviço de fronteiras dos EUA

Menina passou a fronteira com o pai de forma ilegal e foi levada para um centro de detenção.

Um guarda patrulha a fronteira dos EUA no Novo México
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Um guarda patrulha a fronteira dos EUA no Novo México Reuters/ADREES LATIF

Uma criança de sete anos da Guatemala morreu na semana passada de choque e desidratação num centro de detenção de imigrantes no estado norte-americano do Novo México, depois de oito horas à guarda do serviço de fronteiras dos Estados Unidos.

A criança passou a fronteira ilegalmente com o pai, no dia 6 de Dezembro, numa zona de deserto no Novo México, entre as cidades de Tucson, no Arizona, e El Paso, no Texas.

Segundo o jornal Washington Post, os registos do serviço de fronteiras mostram que a criança e o  pai entregaram-se às autoridades por volta das 22h. A criança começou a ter convulsões oito horas mais tarde, por volta das 6h25 da manhã do dia 7 de Dezembro.

O relatório do serviço de fronteiras diz que foi transportada para um hospital de El Paso, no estado vizinho do Texas, com uma temperatura corporal de 41 graus.

Segundo as pessoas que a acompanhavam, a criança não comia nem bebia água "há vários dias", e não é claro se recebeu alimentos e água durante as oito horas em que esteve à guarda dos Estados Unidos – uma prática que deve fazer parte do processo de detenção na fronteira do país.

Numa declaração enviada ao Washington Post, o porta-voz do serviço de fronteiras dos Estados Unidos, Andrew Meehan, deu "sinceras condolências à família da criança" e disse que os agentes "fizeram todos os possíveis para salvar a sua vida no meio das condições mais exigentes".

Mas a organização de defesa dos direitos cívicos ACLU acusou o serviço de ter "uma cultura de crueldade e de falta de responsabilidade".

"O facto de ter demorado uma semana a saber-se isto mostra que é preciso haver mais transparência. Apelamos a uma investigação rigorosa sobre esta tragédia e à aprovação de reformas para se prevenir futuras mortes", disse a responsável da ACLU pela imigração, Cynthia Pompa.

Apesar de as atenções estarem agora centradas na fronteira de San Diego, na Califórnia, onde nas últimas semanas chegaram milhares de imigrantes das Honduras, da Guatemala e de El Salvador, muitas pessoas tentam entrar nos Estados Unidos todos os dias através do Arizona, do Novo México e do Texas.

Nos últimos anos, muitos imigrantes têm chegado à fronteira dos Estados Unidos em família, inseridos em grupos com dezenas ou centenas de pessoas. Quando passam a fronteira, entregam-se às autoridades e ficam a aguardar o início dos seus processos de pedido de asilo.

Os críticos das leis de imigração dizem que estes imigrantes são incentivados a viajar em família porque as leis e a falta de meios impedem as autoridades de manterem pais e filhos detidos por longos períodos. É a este processo que o Presidente Trump e os seus apoiantes chamam "catch and release" ("apanhar e soltar").

No início da semana, o responsável da Casa Branca pelo serviço de fronteiras, Kevin McAleenan, disse na Comissão de Assuntos Judiciais do Senado que os centros de detenção são "incompatíveis" com a imigração em família.

"Os nossos centros foram construídos há muitas décadas para lidarem com homens adultos, não com famílias e crianças", disse McAleenan.

Ao longo dos anos têm sido apresentados em tribunal vários processos contra o serviço de fronteiras por causa da falta de condições nos centros de detenção.

Em 2015, por exemplo, um desses processos denunciava as condições "de sobrelotação, insuportavelmente frias e insalubres a que adultos e crianças são sujeitos" no sector de Tucson, a cerca de 200 quilómetros do centro para onde foi levada a criança que morreu na semana passada.