Crónica

O horror, monstros e Pete Shelley a iluminar as trevas

Foto
Pete Shelley Fin Costello/ Redferns

“Um horror, um horror”. Esta frase e o romance que a contém, O Coração das Trevas (1899), de Joseph Conrad, continuam a interrogar os seus leitores. A que horror se referia Kurtz, o enlouquecido e moribundo comerciante de marfim? Em As Origens do Totalitarismo (1951), Hannah Arendt considerou o livro do escritor inglês uma obra importante para compreender o sentido do Racismo na constituição do Imperialismo europeu do século XIX. E levando mais longe a hipótese da pensadora, vários autores chegariam, nas décadas seguintes, a outra conclusão: nas páginas da obra literária, estariam já profetizados os horrores e os crimes do totalitarismo nazi. Em 1995, o filósofo francês Philippe Lacoue-Labarthe (1940-2007) foi mais radical: o horror exclamado por Kurtz é o Ocidente, a selvajaria que Charles Marlow, o protagonista, relata é a que levámos ao outro. Qualquer que seja a interpretação (e há quem veja na própria Natureza uma alteridade monstruosa), e para lá da controvérsia levantada pelo escritor nigeriano Chinua Achebe que encontrou no romance um sintoma do racismo do seu autor, a força da interpelação de O Coração das Trevas continua viva.

PÚBLICO -
Foto

O mesmo talvez se possa vir a dizer de My Favourite Things Is Monsters, livro de norte-americana Emill Ferris, com a diferença de que se trata de um livro de BD. Desde Maus (1980), de Art Spiegelman, que não se via tanta consenso entre os críticos. Nos Estados Unidos, Inglaterra e em França, sucedem-se encómios sobre esta obra que reúne ficção e autobiografia, desenho e diário, referências ao cinema e à literatura de horror, cruzando a Chicago dos anos 60 com a Alemanha dos anos 30. Com influências que vão de Goya às histórias curtas da EC Comics, My Favourite Things Is Monsters propõe outros modos de ler a BD e de conceber os (outros) monstros.

E já que se fala de banda desenhada, continue-se na companhia de uma arte popular: o punk-rock de Pete Shelley, vocalista dos Buzzcocks, desaparecido a 6 de Dezembro. Este inglês de Manchester cantou com sensibilidade, humor e inteligência as ansiedades, os medos e as dúvidas da sexualidade e da vida adulta na sociedade. E deixou-nos a alegria mundana de canções onde todos podiam entrar, como Ever Fallen in Love (With Someone You Shouldn’t’ve), Why Can I Touch It ou Love You More com guitarras, uma bateria e uma voz. Ouçam-na e cantem-na contra os
monstros e as trevas de Kurtz.