Crítica

Memórias pianísticas de Janácek por Thomas Adès

O conhecido maestro e compositor proporcionou na Gulbenkian a rara oportunidade de escutar um programa inteiramente dedicado à música para piano de Leos Janácek.

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Brian Voce

Thomas Adès (n. 1971) é um dos compositores actuais de maior projecção internacional, contando no seu catálogo com três bem-sucedidas óperas — Powder Her Face (1995), The Tempest (2004) e The Exterminating Angel (2016) —, para além de múltiplas obras a solo, de música de câmara e orquestral, muitas delas premiadas. É também um prestigiado maestro, requisitado pelas grandes orquestras mundiais, e um óptimo pianista. Neste último campo, destaca-se a colaboração com o tenor Ian Bostridge, com quem interpretou recentemente A Viagem de Inverno, de Schubert, e com quem gravou um CD dedicado às canções de Leos Janácek (1854-1928).

Foi na qualidade de pianista que Thomas Adès se apresentou na terça-feira na Fundação Calouste Gulbenkian, proporcionando a rara oportunidade de escutar um programa inteiramente dedicado à música para piano de Janácek, compositor pelo qual nutre um imenso fascínio. A sintonia com a linguagem e com o universo expressivo de Janácek ficou bem patente na naturalidade com que Adès interpretou um conjunto variado de obras, várias delas com reminiscências da música tradicional checa filtradas pela linguagem peculiar do compositor: desde as miniaturas de carácter descritivo ou programático, algumas verdadeiros aforismos musicais, às peças de concepção estrutural e de conteúdo mais elaborado como a Sonata 1.X.1905 e o ciclo Nas Brumas. Se as duas últimas obras surgem por vezes nos recitais de piano, a restante música destinada a este instrumento por Janácek — conhecido principalmente pelas suas magníficas óperas — é injustamente pouco tocada.

Thomas Adès incluiu no seu recital o ciclo Sobre um Caminho Verdejante, algumas páginas da recolha Esboços Íntimos (In memoriam; Cristo, o Senhor nasceu; e Palácio de Malá Strana, inspiradas respectivamente pelos poemas da escritora checa Eliska Krasnohorská, por um hino natalício e por uma obra arquitectónica) e a peça Reminiscência, a última composição para piano solo de Janácek, na qual joga de forma intrigante com a ideia da memória. Enquanto as peças do primeiro volume do ciclo Sobre um Caminho Verdejante ostentam títulos extra-musicais, as do segundo apenas têm as designações dos andamentos, mas o conjunto parece partilhar dos mesmos ideais e funciona como um mosaico contrastante, no qual vocabulário pianístico herdado do Romantismo é recriado de forma pessoal ou pontuado por efeitos ousados ao nível da harmonia ou das dissonâncias. Fórmulas relativamente convencionais como a melodia e acompanhamento de Folha esvoaçante alternam com retratos humorísticos de fino recorte rítmico (Elas tagarelavam como as andorinhas), sentimentos de angústia (Em lágrimas) ou efeitos inesperados (A coruja não voou!), para dar apenas alguns exemplos.

Tanto neste ciclo como nas peças soltas Adès soube dar ênfase ao carácter específico de cada miniatura, criando cores e atmosferas sonoras distintas, recorrendo a um lirismo subtil e privilegiando a nitidez da textura. Mas foi nas obras mais extensas que pôde mostrar de forma mais vincada a sua destreza técnica e a sua amplitude dinâmica, como na sombria Sonata I-.X.1905, cujo título, tal como os dois andamentos (Pressentimento e Morte, unidos por ideias musicais comuns, ainda que transformadas), faz menção à data em que o carpinteiro morávio Frantisek Pavlik foi assassinado durante uma manifestação a favor da fundação da universidade de Brno.

A encerrar o programa, Nas Brumas foi o ponto alto do recital, não só pela qualidade, pela originalidade e pela densidade das ideias musicais, como pela profundidade da interpretação. No Presto final, Adès foi porém algo contido na velocidade, trocando a exibição virtuosística por uma maior introspecção. Este programa será gravado em disco e editado pela Signum em 2019.