O Sakharov também serviu para lembrar que no Mediterrâneo se continua a morrer

As organizações que tentam resgatar migrantes no Mar Mediterrâneo estão entre as finalistas do prémio e denunciam a “criminalização da solidariedade”.

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Após aquele que foi o ano mais mortífero no Mar Mediterrâneo, o Parlamento Europeu incluiu as organizações não-governamentais que operam embarcações para resgatar migrantes entre os finalistas do Prémio Sakharov. O seu trabalho é cada vez mais difícil, à medida que os Estados-membros vão endurecendo as suas políticas migratórias.

A mensagem que o fundador da Sea Eye, Michael Buschheuer, quer deixar é simples: “Queremos dizer à Europa para fazer o seu trabalho porque nós só estamos no Mediterrâneo porque a Europa não está lá.” Desde que a Operação Mare Nostrum, financiada pela Itália, foi encerrada, em 2014, e a União Europeia falhou em conseguir montar um esquema semelhante, os resgates dos milhares de migrantes que tentam chegar à Europa em pequenos barcos superlotados ficaram a cargo de organizações civis, como a Sea Eye, a Sea Watch, a ProActiva ou a SOS Mediterranée.

Os Estados europeus na linha da frente das rotas migratórias no Mediterrâneo, como Malta ou a Itália, passaram então a tentar obstruir o trabalho destas organizações, acusando-as de incentivar a imigração ilegal. Os activistas denunciam a “criminalização da solidariedade”.

Um dos barcos da Sea Watch esteve bloqueado num porto maltês durante quatro meses, conta ao PÚBLICO Sophie Scheytt, representante da organização. “A variedade de acusações de que somos alvo faz parte da criminalização do nosso trabalho. Somos alvo de várias acusações, desde a gestão de resíduos poluentes às questões de registo dos barcos”, explica.

Os cálculos das organizações apontam para cerca de duas mil mortes no Mediterrâneo desde o início do ano, embora o balanço possa ser mais elevado uma vez que não existe um registo fiável.

Para Michael Buschheuer, a discussão coloca-se num patamar bem mais elevado do que o das políticas de asilo. “Quando há pessoas a afogarem-se, não se trata de saber se a pessoa tem direito a vir para a Europa, a discussão é sobre se aquela pessoa é humana e merece viver”, afirma.

O outro finalista do Sakharov é o activista marroquino Nasser Zefzafi, um dos líderes do movimento de protesto na região do Rif, que luta contra a corrupção e o abuso de poder das autoridades. Zefzafi passou a ser visto como uma ameaça ao regime do rei Mohammed VI e está preso desde Maio de 2017 a cumprir uma sentença de 20 anos de prisão.