Reportagem

Entre dezenas de supressões no Seixal, "o melhor é esperar pelo próximo barco"

Normalmente, há duas embarcações a garantir a travessia entre o Seixal e o Cais do Sodré. Mas agora, devido a avaria, há só um — o que provoca supressões e atrasos. E deixa muita gente em terra sem hipótese de ir para a outra margem.

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Inês Chaíça

“Acho que já se ultrapassou o limite”, comenta um segurança para o outro, ao pé dos torniquetes. À sua frente, a sala de espera está praticamente cheia – o barco anterior, das 7h25, foi suprimido e as pessoas acumularam-se naquele espaço. Os torniquetes fecham apenas uns minutos depois. A luz passa de verde a vermelha e uma mensagem informa os utentes: a lotação máxima foi alcançada. Mais ninguém ia entrar.

A mesma mensagem aparece no painel que indica o horário do próximo barco, mas isso não dissuade algumas pessoas que tentaram validar o passe. Em vão. Quando os portões se abrem para deixar os passageiros entrarem no barco, quem fica do lado de fora dos torniquetes barafusta. Erguem-se algumas vozes, mas o sentimento geral é de resignação. Algumas pessoas lançam-se para o telemóvel: tentam conseguir boleia para a outra margem.

Na última terça-feira, a supressão de um dos barcos espoletou uma reacção de protesto por parte dos utentes. Neste caso, foi a supressão de um barco, mas os motivos podiam ser outros. Os utentes da Transtejo ouvidos pelo PÚBLICO completam o rol de queixas: a falta de barcos; a idade das embarcações; a falta de segurança; a falta de alternativas; os horários limitados. 

"Ir gerindo" a frota que existe, diz Costa

A frota total da Transtejo é composta por 25 navios, mas apenas metade deles estão operacionais. A "frota indisponível" é composta por navios em reparação e "navios em processo de renovação de certificado de navegabilidade", explica a Transtejo.

É o caso do Pedro Nunes, um dos catamarãs que garante a travessia Seixal-Cais do Sodré (Lisboa) desde 2002. Desde o fim-de-semana passado que está parado devido a avaria. “Constrangimentos operacionais”, como descreve a Transtejo. “Com menos um navio a operar – por insuficiência de frota disponível – tiveram de ser suprimidas carreiras na ligação fluvial do Seixal durante os períodos de ponta da manhã e da tarde.” 

Com o Pedro Nunes a ser reparado, cabe ao Aroeira, um navio com mais de 20 anos, garantir todas as viagens deste trajecto. De acordo com as informações da Transtejo, a reparação do navio em falta estará concluída nesta quarta-feira, e a situação deverá voltar ao normal durante o período da tarde.

O Governo sabe que faltam navios à Transtejo. A situação foi referida por António Costa, durante o último debate quinzenal: “Já tentámos alugar barcos como fizemos com os comboios, mas não há barcos no mercado que possam ser alugados.”

Em 2020 chegarão novos barcos, assegura o primeiro-ministro. "Até lá, temos de ir gerindo.”

A previsão de supressões foi comunicada aos passageiros. A informação sobre as ligações suprimidas aparece num painel no cais de embarque do Seixal e há cartazes espalhados junto às portas de acesso. Mas isso não impediu que, na última terça-feira, se verificassem “manifestações de impaciência”, pelas 8h30, devido às supressões. 

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Quem trabalha "na restauração" à noite não tem como voltar

Anabela Vicente, 48 anos, usa os barcos do Seixal há 26 anos. Actualmente é um dos elementos da comissão de utentes dos barcos do Seixal, e é por isso que, nesta quarta-feira de manhã, está à porta da estação fluvial com um colete laranja vestido. Atribui a situação actual ao “degradar constante” que se vem sentido desde 2011, “com o corte do número de carreiras Seixal-Lisboa.”

“É raro o mês em que não há supressões, que não há pessoas retidas, que chegam atrasadas ao seu local de trabalho. Há pessoas neste momento que não estão a ser contratadas na margem norte porque residem na margem sul e os transportes não cumprem a sua função, logo as pessoas não chegam a horas”, ilustra. “Como ontem, um jovem que tinha pago para fazer um segundo exame para melhoria de nota e que não chegou a tempo porque ficou retido no Seixal.”

A comissão de utentes foi criada “devido aos problemas que se mantêm: ausência de barcos; barcos avariados; barcos com certificados de navegabilidade caducados”. Em suma, “um mau serviço à sociedade”.

Procura aumenta, os barcos não

Antes a situação era diferente. Os barcos “eram antigos, mas funcionavam”. Já não havia um número de travessias que satisfizesse o número de clientes, mas a situação piorou até porque o número de utentes aumentou.

De acordo com os números fornecidos pela Transtejo, a ligação fluvial do Seixal transporta diariamente cerca de 4500 passageiros e regista uma procura mensal de perto de 90.000 passageiros. Em todo o ano de 2017, a Transtejo transportou mais de um milhão de pessoas na ligação do Seixal. Este ano, até Setembro foram 903.698. E a tendência, a avaliar pelos últimos anos, é “de crescimento”, descreve fonte da empresa.

Mas problemas existem e um deles é o horário, que afasta muitos potenciais utentes da travessia pelo Tejo. Durante a semana o último barco sai de Lisboa às 23h15. “As pessoas que trabalham na restauração, em centros comerciais, em estabelecimentos que estão abertos até tarde não têm como regressar a casa. Vêm de outros transportes e chegam a casa à 1h/2h da manhã. Ou então têm de usar obrigatoriamente o seu próprio veículo”, ilustra Anabela.

“É melhor ficar aqui à espera do próximo barco”

Pelas 9h, a sala de espera já está a encher. Pelas janelas vê-se que os portões de saída foram bloqueados por uma carrinha da Polícia Marítima. O próximo barco é só às 9h15, e muitos dos que esperam iam apanhar o barco das 8h50, que foi suprimido. É o caso de Celestino Fonseca, designer de 39 anos, que espera, sentado. Por sorte, ninguém no seu trabalho lhe exige uma justificação pelo atraso, comenta.

“Ontem foi pior. Vinha apanhar o das 7h45, mas suprimiram esse. Depois houve aquela confusão, que já se sabe. E eu desisti e fui pela Fertagus.”

“É sempre chato porque nós temos o passe dos barcos que não é igual ao passe dos comboios”, conta — ir de autocarro até Cacilhas não é opção. Em primeiro lugar porque “nem sequer há autocarros directos, como havia há dez ou 20 anos”, e em hora de ponta demora-se “45 minutos, se tudo correr bem”. “É melhor ficar aqui à espera do próximo barco.”

Celestino paga cerca de 70 euros por um passe combinado. O “serviço é mau”, mas para ele o único serviço de transportes que funciona bem é o da Fertagus. O problema: “é demasiado caro”. Ao preço do bilhete na Fertagus junta-se o dos outros transportes que tem de usar já em Lisboa. Tudo combinado, o passe mensal pode superar os 100 euros.

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Chega o barco das 9h15 e Celestino entra. Dirige-se para o andar de cima do Aroeira, que transporta pelo menos o dobro das pessoas do que o normal. No andar de baixo há muita gente em pé, a circundar a pequena cafetaria que existe a bordo. Tomam o pequeno-almoço, falam de tudo. Menos dos atrasos e supressões. Isso é um tema que ficou na sala de espera.

As queixas, feitas em voz alta para quem quisesse ouvir, eram sempre as mesmas: a degradação dos barcos; a idade avançada da frota; a falta de horários convenientes para a maioria da população. Mas agora a preocupação é chegar a Lisboa o mais depressa possível.