Trump admite intervir na detenção da número dois da Huawei

Meng Wanzhou foi libertada sob fiança e não pode sair do Canadá. Em troca de um bom acordo comercial com a China, o Presidente dos EUA diz pode intervir.

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Meng Wanzhou, tal como foi retratada por um artista, durante a audiência REUTERS/Jane Wolsak

O Presidente Donald Trump admite intervir no caso da detenção de Meng Wanzhou, número dois da empresa chinesa Huawei, se isso lhe garantir um acordo comercial com a China. O líder norte-americano disse-o numa entrevista à agência Reuters, publicada esta quarta-feira, dando a entender que pode exercer influência num caso de justiça em nome do interesse comercial dos EUA.

Meng Wanzhou, 46 anos, foi libertada na terça-feira, após dez dias em detenção, pelas autoridades do Canadá, que a impediram de embarcar num voo em Vancôver, com destino ao México, no dia 1 de Dezembro, a pedido dos EUA, que emitiram um pedido de extradição.

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Retrato do momento em que Meng Wanzhou foi ouvida num tribunal da Colúmbia Britânica REUTERS/Jane Wolsak

É suspeita de ter disfarçado movimentos bancários relacionados com negócios com o Irão, furando as sanções económicas impostas pelos EUA ao país do Médio Oriente e pondo em risco a credibilidade dos bancos.

Um juiz do Supremo Tribunal da Colúmbia Britânica, onde foi ouvida, colocou-a em prisão domiciliária com pulseira electrónica, exigiu uma fiança de 6,5 milhões de euros (7,4 milhões de dólares) e marcou nova sessão para 6 de Fevereiro.

"Se eu achar que é bom para o país, se eu achar que seria bom para o maior acordo comercial alguma vez feito, certamente que interviria", disse Donald Trump, que assim mistura decisões da justiça dos EUA com os interesses comerciais do país, contrariando o que tinha dito o próprio assessor económico da Casa Branca.

"Parece-me que há matéria comercial e que há matéria que é da justiça. São coisas distintas. São canais diferentes e penso que serão vistos como tal", disse Larry Kudlow, ao canal de televisão Fox News. "Penso que o Presidente Trump e o Presidente Xi vão manter essa distinção", acrescentou.

Robert Lighthizer, escolhido por Trump para a pasta do Comércio Internacional e que tem estado a mediar as conversações comerciais com a China desde que os dois blocos anunciaram uma trégua de 90 dias na guerra comercial das taxas alfandegárias, tinha feito declarações no mesmo sentido. A um programa do canal CBS, Lighthizer disse que a detenção de Meng Wanzhou "é materia judicial" e sem relação com as conversações comerciais. "Não tem a ver com algo em que eu esteja a trabalhar", insistiu.

Questionado pela Reuters se teria abordado a questão com o homólogo chinês, Trump disse que não. "Ainda não me telefonaram. Estão a falar com a minha equipa. Mas ainda não me telefonaram", disse Donald Trump, na entrevista desta quarta-feira.

Ex-diplomata do Canadá detido. Retaliação chinesa?

A detenção da responsável pelas finanças da Huawei, e filha do fundador da empresa que lidera o mercado das infra-estruturas de telecomunicações desde 2015 e destronou a Apple no segundo lugar dos maiores vendedores de telemóveis do mundo, tornou-se um caso diplomático.

Pequim mandou chamar os embaixadores canadiano e norte-americano na China, mostrando desagrado. O ministro dos Negócios Estrangeiros considerou a detenção de Wanzhou "um erro". E embora se esforçasse por tentar separar as águas, o governo chinês acabou por cair na mesma suspeita de entrar num ciclo de retaliações, depois de um ex-diplomata canadiano, Michael Kovrig, ter sido detido na capital chinesa na segunda-feira.

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Michael Kovrig trabalha actualmente para uma organização sediada em Bruxelas CRISISGROUP/Julie David de Lossy/Handout via REUTERS

Kovrig trabalha para uma organização não-governamental, International Crisis Group (ICG), sediado em Bruxelas, que não tem informações sobre aquele representante desde o início da semana. Um porta-voz dos Negócios Estrangeiros da China recusou-se a adiantar informações sobre Kovrig, dizendo apenas que este poderá ter violado a lei chinesa porque o ICG não está registado naquele país como uma organização não-governamental. Para o antigo embaixador do Canadá na China, Guy Saint-Jacques, trata-se de uma retaliação. "Na China não há coincidências... Se eles quiserem mandar uma mensagem, eles sabem como fazê-lo", declarou, ao canal canadiano CBC.

O sucesso comercial da Huawei parece tê-la transformado numa presa fácil de jogos políticos. Os governos dos EUA, Austrália e Nova Zelândia afastaram-na por suspeitarem que a participação da empresa em projectos críticos como o 5G põe em causa a segurança nacional. Embora seja uma empresa sem capital público, é vista como uma empresa sujeita às pressões de Pequim e a eventuais tentações de espionagem por parte da China.

Washington e outras capitais mundiais, como Londres e Bruxelas, desconfiam que a empresa fundada em 1987 por um ex-militar do Exército Vermelho possa ser uma espécie de "Cavalo de Tróia" dos serviços secretos chineses. Uma desconfiança que não é partilhada pelo Governo de Portugal, que não levantou obstáculos ao acordo de parceria da Huawei com a Altice para o desenvolvimento da próxima geração de rede móvel no país. Um acordo firmado em Lisboa, na semana passada, durante a vista do Presidente Xi Jinping a Lisboa.