O desafio de comunicar a inovação

Se a inovação tecnológica faz parte do ADN de qualquer media e se os investigadores e os empreendedores precisam dos media para interagir com a sociedade, porque é que não se estimula o jornalismo sobre inovação?

Em 2015, o Google lançou a Digital News Initiative, um fundo de inovação digital que dispõe de 150 milhões de euros para apoiar projetos jornalísticos digitais na Europa. Este ano já concedeu apoios a 461 projetos em diversos países, entre os quais Portugal, que recebeu 1,4 milhões de euros. O nosso país foi o sexto, entre 28, a receber o maior montante, numa lista liderada pela Alemanha. Apoiar o jornalismo na era digital é o principal pilar de uma iniciativa lançada por uma plataforma que, curiosamente, revolucionou a forma de fazer jornalismo e obrigou à reconfiguração dos media.

Essa reconfiguração passa não só pela aplicação das novas tecnologias ao jornalismo, mas também pelo desenvolvimento de projetos de investigação e desenvolvimento onde a inovação tecnológica é o principal “drive”. Esta faz hoje parte do ADN de qualquer meio moderno de comunicação social europeu. Os apoios não se esgotam na iniciativa da Google e começam a juntar instituições de ensino superior e media de forma colaborativa na procura de novas soluções inovadora para captar a atenção dos novos leitores.

A investigação e a inovação são fundamentais para o papel da Europa a nível mundial. Num comunicado da Comissão Europeia de maio deste ano pode ler-se que “com apenas 7% da população mundial, a Europa é responsável por 20% do investimento mundial em Investigação e Desenvolvimento (I&D), por um terço das publicações científicas de elevada qualidade e detém uma posição de liderança mundial em alguns setores industriais, como os produtos farmacêuticos, os produtos químicos, a engenharia mecânica e a moda”.

O mesmo comunicado, contudo, também indica que a Europa está atrasada em inúmeros domínios, nomeadamente no que respeita em investimento em I&D empresarial. A UE investe menos do que os seus concorrentes: 1,36% do PIB em comparação com 1,58% na China, 1,97% nos Estados Unidos e uns invejáveis 3,27% na Coreia do Sul. Portugal está bem abaixo da média europeia, com o setor empresarial a investir apenas 0,67% do PIB em I&D em 2017.

Como se pode aumentar o I&D empresarial em Portugal? Com bom investimento, melhor empreendedorismo, mais start-ups, bem como com uma melhor colaboração entre instituições de ensino superior, institutos de I&D, empresas e unidades de valorização do conhecimento e um apoio público eficaz, quer em projetos inovadores, quer disponibilizando mais capital de risco, bem como também continuando a dar bons incentivos fiscais ao I&D empresarial (SIFIDE). Numa ideia, criar uma cultura de inovação.

É aqui que a comunicação representa um papel fundamental, quer na mobilização da opinião pública, quer na divulgação de projetos de investigação e desenvolvimento. Esta comunicação exige compromissos de ambas as partes. Aos media pede-se capacidade para estarem atentos aos projetos, às ideias e às novas empresas inovadoras; aos investigadores pede-se uma linguagem “descomplicada” e capacidade para entender os tempos e as necessidades dos media.

Se a inovação tecnológica faz parte do ADN de qualquer media e se os investigadores e os empreendedores precisam dos media e das suas plataformas para interagir com a sociedade, porque é que não se estimula o jornalismo sobre inovação? Foi para responder a este desafio que a Agência Nacional de Inovação (ANI) lançou este ano a primeira edição do Prémio Nacional de Jornalismo de Inovação.

Pretende-se, tal como acontece noutros países, dar maior relevância a esta temática junto do público em geral e dos jornalistas em particular, através de uma iniciativa que premeie os melhores trabalhos jornalísticos neste domínio e que perdure e evolua no tempo, contribuindo para uma maior visibilidade da inovação feita em Portugal e do seu impacto económico e social. A inovação, seja em que domínio for, sempre despertou a curiosidade jornalística. Na ANI, acreditamos nesta curiosidade para potenciar as qualidades da inovação de base científica tecnológica com chancela nacional.