Opinião

Porque importa defender a Igreja de Almada?

A nossa responsabilidade é imensa para podermos ser dignos da obra de Nuno Teotónio Pereira.

A Igreja de Almada celebra 50 anos. Projetada por Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas e Luís Moreira, arquitetos para quem a linguagem arquitetónica sempre andou a par com a renovação dos programas e o empenhamento cívico, a importância desta obra deve-se à primazia de dois conceitos inovadores: o de espaço interno e o de obra de arte total.

Com a preocupação de organizar um espaço em convergência para o altar, o fulcro da celebração, as opções pela forma de assembleia em leque organizam espaços escalonados a que correspondem diversos planos inclinados de cobertura proporcionando diferentes entradas de luz. A importância da luz refletida nos materiais orgânicos – como é o caso da madeira – em diálogo com o betão aparente, ou a forma fragmentada da cobertura reforçando a forma de concha em torno do adro, traduz a vontade de criar uma obra de arte total, entre construção e espaço interior. Cada peça faz parte do conjunto. Como se pertencesse à mesma família, concorrendo para a atmosfera ascética feita de uma espiritualidade franciscana, resultado da luta de Nuno Teotónio Pereira por uma arquitetura religiosa contemporânea que buscava na inspiração monacal as condições da "arquitetura cristã" no espírito do evangelho: "Pureza – Verdade – Pobreza – Paz", em tudo se aproximando do sentido de verdade dos materiais, de simplicidade e de rigor da arquitetura moderna. Estes princípios são confirmados nos espaços religiosos que concebe com atenção ao detalhe da obra, do mobiliário e do equipamento litúrgico. E que estão na base da transcendência dessa obra total. A colaboração com o pintor Câmara Pereira foi intensa e articulou opções de materiais e soluções inovadoras de que se destaca o baixo relevo aberto sobre o painel de fundo do altar. A de Manuel Cargaleiro pode ser admirada nos azulejos pintados para circundar o lago do jardim, e no interior da igreja na via sacra ou na cerâmica do fundo do altar. Resultam de uma crença intervencionista sobre os programas e sobre a força espiritual da obra de arte global.

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A valorização da obra tem sido afirmada ao longo dos anos através de um diálogo fecundo entre arquitetos, párocos e fiéis. Pela primeira vez esse diálogo parece ter sido comprometido por um programa de substituição do mobiliário litúrgico realizado à revelia dos autores e do sentido de obra global que caracteriza o espaço religioso. Sabemos que a reabilitação da arquitetura moderna está na agenda e que o reuso é um dos temas do futuro. Na igreja de Almada, passados 50 anos de serviço, é natural que seja necessário adaptar o espaço e os materiais aos parâmetros atuais de conforto. Consciente da responsabilidade de uma intervenção num espaço tão carismático, acarinhado por todos, acreditamos que novas intervenções constituem uma oportunidade para preservar a essência desta grande estrutura arquitetónica, associando todos os elementos do conjunto da igreja, desde a madeira do mobiliário às paredes de betão, aos bancos, ao sacrário, que deveriam ser restaurados de modo a respeitar o carácter do espaço, as regras da linguagem arquitetónica e a lógica dos materiais.

Nuno Teotónio Pereira empenhou-se nas causas religiosas acrescentando uma dimensão vital: com bom desenho e coragem bateu-se pela arquitetura como bem público. Hoje, mais do que nunca, importa recordá-lo como o lutador inconformado. Por isso a nossa responsabilidade é imensa para podermos ser dignos da exigência do seu magistério, do desassombro, da sua inteligência, da generosidade, da sua acção. Por isso nos batemos pela preservação da sua obra e da sua memória.

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico