À boleia dos Coletes Amarelos, estudantes protestam contra Macron em “terça-feira negra”

O alvo é a reforma do ensino superior do Governo francês. Há centenas de escolas afectadas em todo o país e a polícia usou a força em alguns casos.

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"Sê jovem e cala-te", diz o cartaz desta estudante em Paris Benoit Tessier/REUTERS
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Protesto junto ao Arco do Triunfo Jean-Paul Pelissier/REUTERS

Os estudantes do ensino secundário e superior aproveitaram a boleia dos Coletes Amarelos e iniciaram, a semana passada, uma onda de protestos contra a reforma no ensino do Governo francês. A violência marcou estas acções de protesto e agora promete-se uma “terça-feira negra”.

Há pelo menos 450 escolas secundárias com perturbações de funcionamento, e 60 bloqueadas pelas associações de estudantes. Há manifestações, que incluem ocupações dos estabelecimentos de ensino. Na segunda-feira, segundo contabilizou o Ministério da Educação francês, já 450 escolas sofreram perturbações do mesmo tipo.

Na semana passada, os estudantes começaram a sair à rua. Ocuparam e obrigaram a encerrar entre 200 e 300 escolas durante vários dias. Houve confrontos com as autoridades, bem como caixotes do lixo queimados ou carros incendiados e danificados.

Na sexta-feira foi divulgado um vídeo da detenção de pelo menos 150 estudantes em Mantes-la-Jolie, a 57km de Paris. As imagens foram consideradas “chocantes” pelo próprio ministro da Educação, Jean-Michel Blanquer, devido à actuação considerada excessiva das autoridades em relação aos manifestantes, muitos deles jovens. Os comentários dos agentes fizeram também com que políticos locais e sindicatos acusassem as autoridades de “humilharem” os estudantes.

As reivindicações

Isto serviu apenas para aumentar a revolta. Mas na origem dos protestos está, entre outras coisas, a continuação da aplicação da reforma no sistema de acesso à universidade, iniciada já neste ano lectivo, que os estudantes e sindicatos ligados ao ensino dizem limitar as oportunidades e aprofundar as desigualdades.

Os estudantes não gostam da ideia de que possam ser as próprias universidades a seleccionar individualmente os alunos, consoante interesses manifestados hierarquicamente pelos candidatos. Em teoria, isto permite aos estabelecimentos de ensino escolher alunos mais motivados e garantir o sucesso escolar – pelo menos, esse é espírito da reforma. Para os estudantes, esse é uma das formas através da qual é violado o princípio da igualdade.

Até aqui, todos os que terminavam o liceu tinham acesso a um mesmo sistema de candidatura às universidades públicas. O principal objectivo desta reforma seria reduzir o número de desistentes e chumbos no ensino superior.

O aumento do valor das propinas para estudantes que não são da União Europeia é também contestado e é exigido o fim da plataforma de acesso ao ensino superior, chamada Parcoursup, um site que opera com base num algoritmo que tem funcionado de forma deficiente, levando mesmo a que vários alunos ficassem sem colocação.

Além disto, os estudantes pedem ainda que não se avance para o Serviço Nacional Universal, uma promessa da campanha eleitoral do Presidente francês, Emmanuel Macron, que tomaria a forma de um serviço cívico obrigatório de um mês, a partir de 2026 (até lá é voluntário e serviria de teste) para os jovens por volta dos 16 anos. Esta medida foi vista como uma tentativa de reinstaurar o serviço militar obrigatório, ainda que o Governo tenha garantido sempre que são muito diferentes.

Foi Louis Boyard, presidente do sindicato Union Nationale Lycéenne (UNL), a anunciar a “terça-feira negra”. “O problema é que o Governo não nos ouve”, disse, citado pelo jornal Le Parisien. E lembrou as detenções da semana passada: “Apenas por querermos respostas às nossas exigências fomos tratados com uma repressão policial sem precedentes, incluindo a detenção de 151 jovens na quinta-feira em Mantes-la-Jolie. Isso tornou-se um símbolo. Esses métodos apenas alimentam a raiva.”