Estará Corbyn perdido ou orientado no labirinto do “Brexit”?

Com May sob fogo e isolada em Westminster, aumenta a pressão para o líder trabalhista abandonar a postura ambígua sobre o divórcio com a UE e definir com clareza a estratégia do Labour. Moção de censura não é opção, para já.

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Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista MARIO CRUZ/EPA

Qualquer oposição parlamentar que estivesse no lugar do Partido Trabalhista britânico, nos tempos que correm, dificilmente encontraria um cenário mais favorável. A intransigência de Theresa May na defesa do ‘seu’ acordo para a saída do Reino Unido da União Europeia partiu o Partido Conservador ao meio, comprometeu o apoio do Partido Unionista Democrático – que suporta o Governo – e teve a reprovação unânime dos restantes partidos. Mas se a lógica aconselha Jeremy Corbyn a aguardar pela implosão auto-infligida da primeira-ministra para voltar ao poder, dentro e fora do Labour exigem-lhe que apresente um plano concreto para o futuro próximo do país. E provas de que é o homem certo para o pôr em marcha.

E será que tem o que é preciso?

O Partido Nacional Escocês (SNP), os Liberais-Democratas, os Verdes e o Plaid Cymru avançaram esta terça-feira com essa pergunta. Em conjunto com a campanha People’s Vote, enviaram uma carta a Corbyn, exigindo que apresente uma moção de censura a May, na sequência do adiamento, para data incerta, da votação parlamentar do acordo do “Brexit”.

“Não nos cabe determinar a política partidária do Labour, mas, neste momento sem precedentes da história da nossa grandiosa nação, queremos desempenhar o nosso papel na definição do futuro”, justificaram os quatro partidos pró-UE.

“Não temos um governo forte nem estável, mas uma liderança fraca de uma primeira-ministra fraca. Mas esta não é a altura apropriada para uma moção de censura”, respondeu, porém, Corbyn numa sessão plenária na Câmara dos Comuns.

Nos últimos meses, o líder do Partido Trabalhista optou por uma postura passiva, possivelmente por perceber que May se transformou no principal obstáculo ao sucesso do seu Governo. Corbyn nunca deixou de criticar a sua estratégia nas negociações com Bruxelas, é certo, mas fez pouco mais do que avaliar negativamente os resultados apresentados pelo executivo à luz dos seis requisitos que definiu para o que entende ser um bom “Brexit”.

Foi até visto a inquirir mais apaixonadamente a líder do Governo sobre a austeridade, o combate à pobreza e os direitos dos trabalhadores do que sobre o divórcio com a UE.

Para além disso, e ao contrário de uma fatia importante dentro do Labour, Corbyn nunca defendeu com firmeza a convocação de um novo referendo, mesmo quando foi pressionado por personalidades do partido, como Keir Starmer (ministro-sombra do “Brexit”), Emily Thornberry (ministra-sombra dos Negócios Estrangeiros), Sadiq Khan (mayor de Londres) ou Tony Blair (ex-primeiro-ministro).

Plano alternativo

A ratificação do tratado jurídico da saída e da declaração política sobre as relações futuras entre Londres e Bruxelas, no final de Novembro, e a oposição profunda que motivaram em Westminster, promoveram, no entanto, uma ligeira mudança de estratégia. Corbyn assume agora que um referendo ao acordo já é “uma entre várias opções” e defende a necessidade de uma eleição antecipada para que os trabalhistas assumam os destinos do “Brexit”.

Vencendo essas eleições, o líder da oposição garante ser capaz de ir até Bruxelas fechar o acordo que May não conseguiu fechar e que os líderes europeus dizem ser impossível alcançar

O seu plano alternativo inclui uma nova e ambiciosa união aduaneira entre Reino Unido e UE, uma relação estreita entre os dois blocos através do mercado único, a ausência de barreiras e “fricções” ao comércio, a inexistência de uma fronteira na ilha irlandesa e a capacidade de Londres poder decidir livremente com quem pode fazer acordos comerciais. 

Tudo isto enquanto garante oportunidades, emprego e protecção social para os trabalhadores britânicos e para os europeus que residem e trabalham no país.

Eurocéptico à prova

Jeremy Corbyn não é um “euro-entusiasta”. Bem pelo contrário. Crítico da adesão do Reino Unido à Comunidade Europeia (1973) e da corrente neoliberal que entende ter tomado conta das suas instituições – fez uma campanha tímida pelo remain antes do referendo de 2016 –, o trabalhista tem, ainda assim, conseguido agradar (ou não desagradar) às diferentes facções de um partido cada vez mais inclinado para um segundo referendo.

Os holofotes permanentemente focados em May permitiram-lhe manter a sua postura ambígua sobre a Europa e dispensaram o Partido Trabalhista da necessidade de entrar num grande debate interno sobre o “Brexit”. Uma desobrigação importante para Corbyn e para o Labour, ainda em reconstrução, depois do resultado eleitoral desastroso de 2015, atenuado com um desempenho interessante em 2017.

Mas essa estratégia parece esgotada, face ao rumo itinerante da primeira-ministra e ao aumento exponencial das probabilidades de um cenário de no-deal

O Labour não pode continuar a ser passivo neste processo e a dar ao Governo corda suficiente para se enforcar. Porque se as coisas correrem mal, não é só a carreira de May e as perspectivas eleitorais dos tories que ficam arruinadas: é o país”, escreve no Guardian o colunista Jonathan Freedland.

O líder do Labour está, por isso, cada vez mais pressionado a avançar com um plano concreto para navegar nas águas turvas e labirínticas do “Brexit”. Algo que vá para além das promessas vagas de um melhor acordo e que convença o eleitorado de que o que está em causa é mais do que uma mera aspiração pelo poder.

Talvez por isso, Corbyn rejeite apresentar, por enquanto, uma moção de desconfiança para derrubar o Governo. A prioridade do líder trabalhista – que esta terça-feira foi ao Parlamento criticar a “primeira-ministra fugitiva” e o seu périplo pela Europa – parece ir no sentido de defender a votação do acordo de May pelos deputados, de uma forma mais activa e firme.

“Se May regressar com pouco mais do que umas palavras calorosas, deve colocar imediatamente o seu acordo à votação nesta câmara, sem demoras e sem truques”, afirmou. 

Corbyn sabe que um chumbo do acordo na Câmara dos Comuns distribuirá as responsabilidades de uma eventual queda de May por todos os partidos, ao contrário de um voto promovido pelo Labour. A acontecer, como é esperado, será um bom ponto de partida para se afirmar como o homem que vai impedir o Reino Unido de cair num abismo. Como? Primeiro é preciso lá chegar, acredita o trabalhista.