VIH-2 é mais mortal do que se pensava

Cientistas acompanharam 4900 doentes na Guiné-Bissau durante mais de 20 anos e defendem que o tratamento com anti-retrovirais deve estender-se a todas as pessoas infectadas com o vírus, e não apenas para doentes com VIH-1.

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REUTERS/Eliseo Fernandez

Um estudo publicado na revista The Lancet HIV mostra que o VIH-2 é mais patogénico do que se pensava. O trabalho inédito, que envolveu 4900 pessoas acompanhadas durante 23 anos com exames anuais que incluíram análises de sangue, demonstra que as pessoas infectadas com VIH-2 desenvolvem infecções associadas ao vírus e à sida de uma forma idêntica aos doentes com VIH-1. Até agora, o VIH-2 sempre foi associado a uma variante mais branda, menos agressiva do vírus. Mas, ao que tudo indica, apenas se manifesta de forma mais lenta. Os resultados do estudo levam os seus autores a defender que o tratamento precoce com anti-retrovirais deve ser aplicado a todos os doentes com VIH.

“Os nossos dados indicam que a maioria das pessoas infectadas com o VIH-2 irá desenvolver e morrer de sida, algo que estudos anteriores não foram capazes de determinar”, diz Joakim Esbjörnsson, professor e investigador em microbiologia médica na Universidade de Lund, na Suécia, e um dos autores do artigo. O estudo de uma população de indivíduos infectados na Guiné-Bissau é “o primeiro a apresentar estimativas confiáveis do tempo entre a infecção pelo VIH e a sida ou a morte relacionada com este vírus”, adianta ainda um comunicado de imprensa.

O objectivo desta investigação, especificam os autores no artigo, foi comparar o tempo para a sida e a mortalidade, e, por outro lado, avaliar a dinâmica dos linfócitos T (células do sistema imunitário) e, especificamente, do principal receptor do vírus nestas células (CD4).

Estudos anteriores indicaram que uma grande proporção de pessoas com VIH-2, mesmo sem tratamento anti-retroviral, teria uma expectativa de vida normal sem complicações, ao contrário daquelas com HIV-1 para quem a ausência de tratamento leva ao desenvolvimento da doença e manifestação em mais de 98% dos casos, argumentam os investigadores. Aliás, notam, “nem mesmo nas recomendações de tratamento da OMS é explicitamente referido que o tratamento deve ser oferecido a pacientes com VIH-2”. Joakim Esbjörnsson espera que este trabalho ajude a “desmantelar a crença” que existe no campo da investigação e da saúde pública e que se baseia no facto de o VIH-2 não levar à doença da mesma forma que o VIH-1.

As duas variantes do vírus têm obviamente diferenças, nomeadamente na forma como afectam o sistema imunitário, mas os especialistas acreditam que reuniram provas suficientes para suportar a decisão de incluir o VIH-2 nas recomendações internacionais de tratamento.

Para a amostra deste estudo foram recrutados todos os polícias “com emprego regular em esquadras de áreas urbanas e rurais da Guiné-Bissau” desde 6 de Fevereiro de 1990. O acompanhamento dos indivíduos com VIH-1 positivo e VIH-2 positivo continuou até 2013. Foram recolhidas amostras de sangue no momento da “inscrição” neste programa bem como nas visitas de acompanhamento anuais programadas e foram ainda incluídos dados de um grupo de 2984 indivíduos não infectados pelo VIH da mesma população, para efeitos de comparação e para avaliar o efeito da mortalidade natural.

Resultados? Os autores referem que 872 participantes tiveram um resultado de VIH positivo durante o período de estudo de 23 anos, dos quais 408 foram infectados com VIH-1 e 464 com VIH-2. O tempo médio entre a infecção pelo VIH e o desenvolvimento de sida foi de 6,2 anos para a infecção pelo VIH-1 e 14,3 anos para o VIH-2. O tempo mediano de sobrevivência após a infecção pelo VIH-1 foi de 8,2 anos e 15,6 anos para infecção por VIH-2. Conclusão? “Os nossos resultados mostram que tanto os indivíduos infectados pelo VIH-1 como os indivíduos infectados pelo VIH-2 têm alta probabilidade de desenvolver e morrer de sida sem tratamento anti-retroviral.”

Uma das principais vantagens desta investigação realizada na Guiné-Bissau está no facto de ter sido possível acompanhar o longo processo da progressão da infecção, já que os 4900 doentes foram seguidos durante 23 anos. “Joakim Esbjörnsson acredita que a dificuldade em estudar o VIH-2 ao longo do tempo é uma das razões para a incerteza geral sobre quão agressivo é o VIH-2, e também para a visão predominante de quando o tratamento deve ser iniciado”, refere o comunicado.

Para Hans Norrgren, professor de doenças infecciosas na Universidade de Lund e médico consultor na clínica de infecção do Hospital Universitário de Skåne, também em Lund, uma das barreiras que o VIH-2 enfrenta está na incerteza de quanto e quando se deve iniciar um tratamento. “Além disso, o VIH-2 ocorre principalmente na África Ocidental, que é a região mais pobre do mundo, caracterizada por baixos níveis de investimento e instabilidade política frequente. Isso dificulta não apenas a investigação e o desenvolvimento na região, mas também contribuiu para que o interesse comercial no desenvolvimento de diagnósticos e tratamento do VIH-2 não tenha sido igualmente forte”, acrescenta Fredrik Månsson, investigador na Universidade de Lund e outro dos autores do artigo.

“Está na hora de rever a noção de que o VIH-2 é benigno?”, sugere o título do comentário que acompanha o artigo publicado na revista The Lancet HIV. Os dois especialistas que assinam o texto, Christian Wejse e Bo L Honge, não respondem directamente ao desafio que eles próprios colocam, mas apresentam uma série de argumentos para demonstrar que sim, é altura de nos começarmos a preocupar mais com o VIH-2. Ao contrário da epidemia do VIH-1, a variante do VIH-2 tem sido menosprezada, constatam. Trata-se de uma infecção que afecta menos pessoas e que está presente sobretudo em países da África Ocidental, como a Guiné-Bissau, Cabo Verde, entre outros, que, como se sabe, é uma das regiões mais pobres do mundo.

As estatísticas mostram que Portugal é o país da Europa com maior número de casos de infecção por VIH-2, devido às relações históricas com alguns destes países (Cabo Verde e Guiné-Bissau) do continente africano. Estima-se que este outro vírus da sida, identificado pela primeira vez na década de 80 por uma equipa que incluía a investigadora portuguesa Odette Ferreira (1925-2018), infecte cerca de dois milhões de pessoas. O VIH-2 afecta menos pessoas (que vivem em países mais pobres) do que o VIH-1 e, segundo este estudo, está longe de ser algo benigno, apenas mata de forma mais lenta.

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