Opinião

As portas da perceção

Alinhar perceções e realidades é importantíssimo para melhorar a qualidade do debate público e das políticas.

O fenómeno da imigração tem sido altamente mediatizado nos últimos três anos. Hoje em dia, a imigração ocupa um espaço de peso no discurso político, alimenta narrativas populistas e determina eleitorados. Veja-se não só os casos "Brexit" e Trump, mas também as eleições de 2017 na Holanda, França e Alemanha, assim como as eleições italianas deste ano. O discurso mediático e político, desprovido de qualquer tipo de nuance, impede que o debate se centre nos impactos, benefícios, desafios e políticas que diferentes tipos de imigração podem abarcar. 

Em 2015, o Eurobarómetro indicava a imigração como a principal questão que preocupava os cidadãos nos seus respetivos países. A questão não diferenciava entre imigração para efeitos de trabalho, estudo, asilo ou reunificação familiar. Desde então, a percentagem de pessoas que identifica a imigração como uma de duas questões mais importantes para a política nacional tem vindo a diminuir. Contudo, representa ainda um quinto das respostas dos cidadãos da UE, apenas ultrapassada por preocupações relacionadas com o desemprego ou a saúde e segurança social.

Estes números refletem perceções. O problema é que, enquanto seres humanos, não somos especialmente competentes em formar perceções imparciais. Inquéritos realizados pelo Eurostat comprovam que nos países da União Europeia sobrestimamos sistematicamente a proporção de cidadãos nascidos no estrangeiro no total da população residente. Esta “miopia” não é um problema Europeu, estendendo-se, por exemplo, aos Estados Unidos e Canadá. 

Um estudo publicado este ano (Alesina et. al, 2018) comprova que as perceções relacionadas com o número e a composição de imigrantes num país são altamente enviesadas. Em média, o desvio entre a perceção e a realidade é na ordem dos 200%. Há também uma tendência para sobrestimar a proporção de imigrantes que vem de regiões com maiores diferenças culturais, que é pobre, menos educada, mais dependente de benefícios sociais ou menos capaz de contribuir para a economia do país de acolhimento. E parece que pensamos todos mal: independentemente do nosso género, idade, nível de educação ou do setor em que trabalhamos, o fosso entre a perceção e realidade nunca é menor que 15 pontos percentuais. 

Pior que pensar mal é estar convicto de que se pensa bem. Em 2014, após questionar os cidadãos do Reino Unido sobre as suas estimativas, o instituto Ipsos Moris confronta-os com a percentagem real de imigrantes no país. Segue-se a pergunta-chave: “Porque é que acha que a percentagem é maior?”, ao que paradoxalmente quase metade dos inquiridos (47%) rejeita os números e responde “ainda acho que estou certo(a)”. 

Face a isto, como podemos ter uma narrativa construtiva que conduza a uma boa análise de políticas e uma opinião pública guiada pelos factos? O primeiro passo pode ser compreender porque é que pensamos mal. A psicologia diz-nos que somos propensos a um fenómeno chamado “inumeracia emocional” (emotional innumeracy): enquanto seres humanos temos tendência a extrapolar as nossas experiências pessoais, ainda que isso implique rejeitar os dados oficiais.

Neste contexto, ajuda mas não basta que os media e responsáveis políticos comuniquem números, estudos e factos. Importa também compreender e relembrar como é que absorvemos, processamos e retemos informação. O Migration Policy Institute (2018) faz uma resenha da literatura de psicologia social e deixa algumas sugestões. Conclui, por exemplo, que comunicar através de análises custo-benefício tem limites, dado que as pessoas reagem mais seguindo o seu compasso “moral” que o seu compasso “económico”. Por outro lado, combater pontos em vez de dialogar é contraproducente e gera defesas na outra parte. Não gostamos de ser contrariados, daí que as páginas de fact-checks, apesar de nobres causas, tendam a pregar aos convertidos. É também preferível evitar repetir ideias falsas, ainda que para as desmistificar, já que o nosso cérebro assimila e gosta de repetição. Em vez disso, é mais construtivo criar uma nova narrativa. A sugestão mais interessante, ainda que de longo-prazo, é a de criar uma cultura de pensamento crítico antes de uma crise ou de um ciclo eleitoral, já que convicções profundamente enraizadas são resistentes à mudança.

No curto e médio-prazo, a importância de políticas de integração não pode ser posta de lado. A “hipótese do contacto” de Allport (1954) diz-nos que diferentes tipos de contacto podem atenuar ou ampliar preconceitos. Uma socialização próxima e cooperativa, em vez de meramente casual, pode reduzir preconceitos contra minorias. Existe também evidência de que ao desenvolvermos atitudes positivas em relação a um membro de uma minoria, estas se estendem a todo o grupo. Isto reforça a necessidade de políticas de integração micro-local que ajam tanto sobre a população imigrante como sobre a população de acolhimento.

Alinhar perceções e realidades é importantíssimo para melhorar a qualidade do debate público e das políticas. Ainda mais quando essas políticas têm um impacto humanitário e representam a fragilização da democracia em países com papel de grande relevo na cena internacional e da União Europeia. Este processo passa, em larga escala, por analisarmos e alterarmos o modo como comunicamos e debatemos. E este pode ser um processo longo.

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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