No Furadouro, à procura do que o mar (não) levou

O arquitecto Domingos Tavares ainda conheceu o Chalet do Matos. Uma estranha casa na duna que, como os palheiros dos pescadores, não resistiu ao tempo e às investidas do mar. E que agora ressuscita feito livro

A foto de capa do livro <i>Casas na Duna</i>, de Domingos Tavares
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A foto de capa do livro Casas na Duna, de Domingos Tavares DR/Carlos D. Costa

O chalet do Matos paira como um fantasma na memória colectiva do Furadouro, em Ovar. Os que nunca o viram passam por ele, eternizado em montra de café, e os que, como o arquitecto Domingos Tavares, ainda conviveram com aquele meteorito vanguardista, desafiando o mar como um semi-deus, meio betão, meio madeira, nunca o esqueceram. O ovarense e professor emérito da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto acaba de publicar, pela Dafne, o livro Casas na Duna, esboço de uma história deste lugar de pescadores feito a partir do que resta dos seus antigos modos de habitar. Uma viagem ao que o mar, apesar de tudo, ainda não levou.

A um mês do Inverno, parece Inverno, e a tarde sombria parece noite antecipada. Não chove, mas o vento atira a água salgada aos rostos dos que resistem, poucos, passeando pela marginal do Furadouro e pelos passadiços de madeira que serpenteiam pelas dunas. Numa das zonas da costa portuguesa mais afectadas pela erosão costeira, são bem visíveis, nos múltiplos enrocamentos, os esforços do homem para conter a força do mar. Pouso de pescadores de cana em riste, na esperança de um robalo fresco, os montes de pedra cumprem, com dificuldade, um papel ingrato: proteger a audácia dos que, conhecendo os humores do Atlântico, insistem, há séculos, em assentar aos seus pés.

Gente da arte xávega

O casario, de construção mais ou menos recente, perdeu o ar precário de outras eras. Os estilos e materiais misturam-se, mas a quadrícula das ruas, e a largura de boa parte dos lotes, ainda respeitam o desenho do final do século XIX e do início do século XX, em que praticamente todo este território entre praia e pinhal estava ocupado com frágeis construções de madeira. Furadouro foi sempre lugar de cabaneiros que, com tábuas, construíam os seus barcos, as suas casas, os seus caixões. Foi sítio de ocupação sazonal, primeiro, mas onde na segunda metade do século XIX uma população fixa dedicada à arte xávega aprendia a esperar a sorte das marés e via chegar, ao areal, os seus primeiros banhistas.

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Adriano Miranda
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Casas na Duna, profusamente ilustrado com fotografias da época, - boa parte delas do Fundo Estúdio Almeida, à guarda do Centro Português de Fotografia - revela bem o ambiente dessas ruelas de areia, onde os palheiros, de periclitante tabuado pregado na horizontal e telhado de duas águas, se seguravam, envergonhadas na sua debilidade, umas às outras. Forças solidárias - longe da graça do que hoje ainda vemos na arquitectura da Costa Nova - e erguidas à imagem da solidária gente da pesca. Mas incapazes, contudo, de resistir às desgraças. Viessem elas do mar, que várias vezes se atirou a estas construções como se de barcos se tratassem; viessem elas das suas próprias entranhas, onde lareiras mal protegidas rapidamente transformavam um fogacho num desastre colectivo.

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Planta do Furadouro, com o chalet a sul Domingos Tavares

Água e fogo, em terra instável. Tudo isso desapareceu? Nem por isso. Na quadrícula urbana, duas ruas importantes prolongam, no nome, a gratidão dos vareiros do Furadouro ao jornal O Comércio do Porto e à Real Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários do Porto, que organizaram subscrições públicas em favor das vítimas de um grande incêndio que, em 1881, destruiu mais de 300 palheiros do sector norte. E a organização do espaço deve algo ao esforço de realojamento dos desalojados, que passou pela criação de ruas, com lotes de cinco metros de largo, ainda visíveis, cujas casas, de madeira ainda, não podiam, então, ter cozinha no interior, para evitar novas tragédias.

Os actuais quarteirões pedonais da Rua dos Bombeiros Voluntários do Porto, vincam, numa opção contemporânea, a importância deste arruamento central, perpendicular ao mar e que liga directamente a Ovar, no desenvolvimento do turismo balnear do Furadouro. Por ali ainda podemos encontrar o edifício do seminal Hotel Cerveira, e imaginar, face à ausência de carros, os passeios dos banhistas apeados, nessa transição entre séculos, entre casas de veraneio onde outros materiais mais robustos foram substituindo a madeira ainda usada, nas ruas ao lado, pelos pescadores.

Palheiros de dois pisos

Estes, por seu lado, assumiam as suas próprias hierarquias, dentro da classe, e em função dos cargos nas companhas da xávega, iam erguendo, quando os ganhos o permitiam, casas em madeira com dois pisos e até varanda, que tanto serviam para albergar a família numerosa como, com o incremento do turismo, para arrendar aos forasteiros, no Verão. Maior ou mais pequeno, o palheiro era contudo um espaço para dormir e comer, “e a norma de uso seria a dos moradores ausentes da casa: no trabalho, no repouso ou regateio ao sol, na taberna ou no tanque público, a prole infantil ao relento, a mais das vezes quase nua”, escreve Domingos Tavares.

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Os palheiros do Furadouro, no início do século XX DR/Maria José Graça

Aquele início de século, com a República a caminho, trouxe também, em 1905, uma fábrica de conservas a vapor, sucursal de A Varina, que se instalou numa zona de dunas, a sul do casario, e ao fundo de um arruamento largo, a Avenida Tomás Ribeiro, correndo em paralelo à praia, e apontando a uma curva na linha de costa, onde hoje arranca um passadiço de madeira. A unidade fabril, desaparecida entretanto, mexeu com esta zona da vila piscatória, e logo foi sendo rodeada de casebres tomando, aqui, o areal de forma algo desordenada.

Ao contrário do que seria expectável face à organização urbana e social do Furadouro desses tempos, essa desorganização não impediu que dois industriais, investidores na pesca, e reconhecidos republicanos, decidissem, com a implantação do novo regime, construir a sua casa de férias junto a este espaço menos nobre. O chalet do Matos, com veio a ficar mais tarde conhecido, era um objecto estranho apontado ao mar, mas longe do ambiente burguês das ruas que iam sendo “compradas” pelas famílias de veraneantes.

O chalet, um desafio ao mar

Enquanto a arquitectura popular do lugar exibia, nos materiais e nas técnicas de assemblagem, a experiência dos construtores navais, os hábitos sociais e a fragilidade económica dos pescadores, o meteorito que surgiu a sul, na perspectiva de Domingos Tavares, assumia o seu carácter erudito, embora tivesse uma filiação estética mais difícil de identificar. Aliás, os donos, “António Valente de Almeida, com loja na praça da Câmara, e Manuel Maria Matos, com loja de tradição na Arruela”, encomendaram o desenho da obra a um amigo, António Dias Simões, também republicano, “que era tesoureiro municipal, poeta”, como Valente de almeida, “dramaturgo e músico, curioso das artes e do desenho”... mas não arquitecto.

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Fotografia, de autor desconhecido, com as duas famílias. Almeida e Matos, na varanda DR

A obra, na interpretação do autor de Casas na Duna, foi um desafio social, político, simbólico, estético e tecnológico. Gesto de aproximação aos pescadores que ajudaram os seus donos a enriquecer, naqueles anos em que a sardinha e as conservas davam sustento a muita gente, de afronta às opções da burguesia local, da qual se afastou, seria, para além de uma habitação de veraneio, um sinal de erudição, e de crença num progresso que podia ser alcançado recorrendo a elementos da arquitectura vernacular, como a madeira, apoiados na inovação do cimento armado, material em que foi construída a base do edifício. Que, assim sustentado, parecia mais apto para enfrentar o mar do que os palheiros da vizinhança.

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A casa, redesenhada por Domingos Tavares DR/Domingos Tavares

Equipada com os mínimos indispensáveis, mas sem água potável, e dependente de um poço aberto na areia, a casa abria-se para a paisagem em volta, com fachadas voltadas para terra e para esse mar que, ainda em 1912, tinha levado mais uns quantos palheiros. Para lá chegar, não havia estrada, e era preciso seguir pelo areal até se chegar à Avenida Tomás Ribeiro. Casas na Duna mostra duas fotografias, de autores desconhecidos, com gente das duas famílias em pose na varanda de madeira trabalhada. Uma imagem que, com o passar do tempo, haveria de passar à memória.

Nascido em 1939, Domingos Tavares ainda frequentou o chalet na juventude, quando o Grupo Atlético Vareiro, o GAV, por lá ensaiava teatro, à noite, com o som do mar a sobrepor-se às vozes dos actores. Nos anos 50, recorda, a casa tinha donos, alguém a quem se pedia a chave, mas ninguém lá passava férias. Com o fim da Primeira República, os seus proprietários extinguiram a empresa de pesca que tinham fundado e afastaram-se da vida política activa. Os descendentes, explica o arquitecto, não estavam para usar uma casa isolada de todo o bulício social que, mesmo em tempo de ditadura, tomava a zona central, conhecida como o Picadeiro.

Assim, o chalet, espécie de palheiro requintado, ali ficou, na posse de Manuel Maria de Matos, apenas, a partir de 1929, à mercê da salinidade, e à espera de um futuro que chegou numa maré. “O casarão perdido ao sul, em luta constante contra a invasão das areias e o medo da proximidade das ondas em épocas de marés vivas, já só vinha vivendo das festas particulares em dias especiais, das reuniões conspirativas em noites de Inverno, da sugestão de fantasmas na imagem de quem o observava de longe. Até que em mais uma manhã de tempestade, em Janeiro de 1965, o mar o partiu ao meio, levando os destroços por água dentro”.

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DR/Fernando Penim Redondo
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Durante cinco anos, continua Domingos Tavares, o esqueleto sobrante do chalé serviu como inspiração para artistas e fotógrafos e como cenário de filmes. Mudar de Vida, de Paulo Rocha, aborda precisamente os dramas desta comunidade e mostra a força do mar, nesse ano de 65. “Os homens da pesca da sardinha lutavam pela razão das suas vidas, agarrados à faina cada vez mais desvalorizada, perante a debandada de patrões e capitalistas, definitivamente descrentes quanto ao futuro das indústrias artesanais".

"Depois, nos primeiros dias de Dezembro de 1969, o mar levou o resto, e acabaram, como o desaparecimento dos pescadores daquelas paragens, todos os palheiros, fossem eles os mais humildes ou os de exuberantes varandas debruçadas sobre as ruas principais”. E num lugar em mudança, só o mar permanece. Notícia a cada Inverno, quando as tempestades se juntam às marés vivas, ele continua a reclamar o protagonismo que aquele chalet ousou, um dia, desafiar.

 

 
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