Greve de enfermeiros adia quatro mil cirurgias. Alguns doentes serão operados no privado

Presidente da Associação dos Administradores Hospitalares avançou com proposta ousada que passaria por pôr médicos a operar sozinhos. Mas o bastonário da Ordem dos Médicos não concorda e já marcou reunião com directores de hospitais afectados pela greve para avaliar situação.

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Paulo Pimenta

Os cerca de “quatro mil” doentes cujas cirurgias foram canceladas devido à greve dos enfermeiros em cinco hospitais do país vão ter as suas operações reagendadas “desejavelmente” a partir de 1 de Janeiro, adiantou nesta sexta-feira a ministra da Saúde, no final de uma reunião com os administradores das unidades afectadas por este protesto que dura há duas semanas.

Até lá, tudo indica que mais umas centenas de cirurgias serão adiadas. Os responsáveis dos dois sindicatos que convocaram o inédito protesto — marcado para durar até 31 de Dezembro — calculam que estão a ser canceladas por dia entre 400 e 500 intervenções cirúrgicas e garantem que não vão parar enquanto não forem recebidos pela tutela.

Num dia marcado por críticas de responsáveis hospitalares e da Ordem dos Médicos (OM), que puseram em causa o silêncio e a “passividade” do ministério e alertaram para o problema dos doentes em situação grave, cujas cirurgias estarão a ser canceladas, a ministra Marta Temido não quis “entrar na guerra dos números, mas reconheceu que quatro mil cirurgias é “um número significativo”, apesar de ser “residual dentro daquilo que é a capacidade produtiva do SNS”. 

Esta greve “é muito agressiva” mas a adesão tem sido “de 6% a 7%”, desdramatizou. Antes disso, já sublinhara que não tinha a intenção de alimentar “climas de guerra” entre profissões e que não tencionava recorrer, para já, a uma requisição civil. Sublinhando que a ideia é reprogramar as cirurgias “na medida do possível dentro do SNS”, admitiu que os doentes poderão ser encaminhados para hospitais privados, se os tempos máximos de resposta forem excedidos.

Respondendo aos apelos do presidente da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares (APAH) e do bastonário da OM, a governante defendeu que os hospitais devem divulgar as cirurgias que têm sido adiadas devido à greve. Os responsáveis das duas estruturas dizem que há doentes graves e prioritários com cirurgias adiadas.

Até esta sexta-feira, o Hospital de Santa Maria (que pertence ao Centro Hospitalar de Lisboa Norte) não tinha feito nenhuma cirurgia pediátrica desde o início da greve, segundo adiantou à TSF Carlos Martins, presidente do conselho de administração. E acrescentou que 456 pessoas ficaram por operar, um número que pode chegar às 1500 até ao final do mês.

Já no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra não foram realizadas “823 cirurgias programadas”, de acordo com os dados divulgados pelo presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes. O Centro Hospitalar e Universitário do Porto adiantou entretanto ao PÚBLICO que foram até à data canceladas 850 cirurgias. Não foi possível obter dados do Centro Hospitalar São João (Porto) e do Centro Hospitalar de Setúbal, as outras duas unidades afectadas por este protesto. 

“Tem havido muita desinformação”, lamenta Carlos Ramalho, presidente do Sindepor (Sindicato Democrático dos Enfermeiros de Portugal), um dos que convocaram a greve. Por dia são adiadas entre 400 e 500 cirurgias, cerca de 4500 a 5000 no total, calcula o dirigente sindical, que diz que no Santa Maria foram operadas pelo menos quatro crianças desde que o protesto arrancou, contrariando as declarações do administrador do hospital.

Assegurou ainda que, como estipulado nos serviços mínimos, os casos graves não estão a ser adiados e frisou que estão “à espera que o ministério dê sinais de abertura para negociar seriamente”.

“Temos um protocolo negocial assinado. Estivemos no dia 5 [quarta-feira] à porta da Administração Central do Sistema de Saúde”, disse, lamentando que a tutela se reúna com outros sindicatos — o Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) e a Federação de Sindicatos dos Enfermeiros (Fense).

Nesta sexta-feira multiplicaram-se entretanto os apelos e as recomendações. Até da boca do ex-ministro da Saúde Adalberto Campos Fernandes, que apelou a um entendimento entre o Governo e os sindicatos dos enfermeiros para pôr fim à greve. “Eu tenho a certeza de que a actual equipa política do Ministério da Saúde tem todas as condições e está empenhadíssima em encontrar um ponto de diálogo”, afirmou.

A bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, enviou uma carta ao primeiro-ministro pedindo a intervenção de António Costa. “Não será possível, nos próximos anos, recuperar desta catástrofe”, avisa Ana Rita Cavaco. E o bastonário dos Médicos, Miguel Guimarães, marcou para segunda-feira um encontro com os directores clínicos dos cinco hospitais para avaliar a situação dos adiamentos das cirurgias “que estão a afectar doentes com patologias graves, designadamente oncológicas, e também particularmente as crianças”, como acentuou, em nota à comunicação social. 

Médicos a operar sozinhos?

Muito preocupado com a situação, o presidente da Associação Portuguesa dos Administradores, Alexandre Lourenço, avançou com uma proposta ousada para contrariar os efeitos desta greve e que passaria por pôr os médicos a operar sozinhos, sem os enfermeiros. Uma possibilidade que Miguel Guimarães refutou, porém, pelo menos por enquanto. 

“Teoricamente, os médicos podem operar sozinhos, também sabem instrumentar, mas esta não seria uma boa solução, isso seria desrespeitar os enfermeiros com quem trabalhamos”, retorquiu Miguel Guimarães, para quem há “alternativas mais viáveis” para colocar em cima da mesa. Uma delas, sugere, é a transferência dos doentes para hospitais “públicos e privados” que ainda não estão afectados pela greve.

A greve foi convocada pelo Sindepor e pela Associação Sindical Portuguesa de Enfermeiros, embora tenha partido de um movimento de enfermeiros que lançou um fundo aberto ao público que recolheu mais de 360 mil euros para compensar os grevistas.

Em causa estão reivindicações relacionadas com o descongelamento das progressões e a valorização do trabalho diferenciado de uma classe que se declara “exausta” e com milhares de horas de trabalho em dívida. com Ana Maia