Aos 50 anos, o segundo rato mais famoso do mundo enfrenta a possível extinção

Em Dezembro de 1968, o engenheiro americano Douglas Engelbart fez uma demonstração que um rudimentar rato de computador em madeira.

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O protótipo de rato de computador criado por Engelbart Michael Hicks
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Douglas Engelbart, fotografado em 2008 Stanford Research Institute

O segundo rato mais famoso do mundo, a seguir ao Mickey, foi apresentado há 50 anos e serviu para aproximar muitos milhões de pessoas dos seus computadores, embora hoje esteja cada vez mais perto da extinção.

A 9 de Dezembro de 1968, o engenheiro informático norte-americano Douglas Engelbart dirigia um centro de investigação para o aumento da inteligência humana, subsidiário da Universidade de Stanford, e em hora e meia fez perante cerca de duas mil pessoas uma apresentação pública que viria a moldar a experiência humana com computadores e tecnologia nas décadas seguintes.

Durante essa hora e meia, Engelbart e membros da sua equipa, alguns no laboratório a vários quilómetros de distância, demonstraram pela primeira vez tecnologia que é hoje corriqueira, do rato ao hipertexto, passando pela videoconferência e processamento de texto.

A "mãe de todas as demonstrações"

Marcos como o rato e a disseminação dos computadores pessoais aproximaram as pessoas da informática ao ponto de esta ser hoje "vista como uma ciência básica, como a Matemática, a Biologia, a Química ou a Física", afirmou à Lusa a coordenadora da licenciatura em Engenharia Informática do Instituto Superior Técnico, Inês Lince.

Para Inês Lince, o aparecimento do rato do computador é tão importante quanto a tendência para ficar obsoleto. "Há 20 anos não se imaginava isto", afirmou, referindo-se à omnipresença da Internet, dos telemóveis e de outras tecnologias que se tornaram de uso quotidiano.

Enquanto os computadores foram essencialmente objectos estáticos, colocados em secretárias, o rato foi indispensável, mas, com a crescente mobilidade dos dispositivos, dos smartphones aos tablets, o caminho do futuro deverá ser "mais natural, mais intuitivo".

Nos ecrãs tácteis que são hoje em dia a norma dos dispositivos, o contacto entre o dedo do utilizador e a máquina "é muito mais intuitivo, é como um prolongamento do próprio corpo". É algo que uma geração de crianças educadas com recurso a tablets sente desde pequena.

De um começo puramente funcional – uma peça de madeira com rodas –, a forma do rato tornou-se ao longo dos anos mais ergonómica. A bola que rodava na parte inferior para determinar o movimento do cursor foi trocada por sensores ópticos, mantendo no essencial a função de apontar e seleccionar. O rato ganhou botões para subir e descer numa página, acabou por largar a "cauda" que lhe deu o nome para se tornar sem fios e o próximo passo na evolução poderá mesmo ser a extinção. 

Inês Lince aponta as experiências que já se fazem na incorporação de circuitos electrónicos no corpo humano – "um pacemaker é isso mesmo" – como um possível próximo passo na interacção entre humanos e máquinas, mas salienta que o mercado tem os seus próprios caprichos, reflexo do comportamento humano, "que é difícil de prever e gerir". Outras interfaces lançadas por marcas de informática ao longo dos anos chegaram e desapareceram sem se dar por eles e "o mesmo negócio pode não ter saúde para vingar num momento e ter sucesso a seguir".

Há 50 anos, no fim do que ficou conhecida como "a mãe de todas as demonstrações", Douglas Engelbart agradecia à família que aguentou a sua "monomania" e à equipa que consigo partilhava "o sonho maluco" que acabou por ser profético.

Este texto sobre Engelbart e uma das suas mais famosas criações foi escrito ainda com o auxílio de um rato. Daqui a 50 anos, quem sabe?

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