Editorial

PSD, qual é a password?

Rio tem tantos motivos para acusar os seus críticos de fazerem o jogo do PS como estes de afirmarem o mesmo sobre o líder do partido.

Por muito que Morais Sarmento tente provar o contrário, o PSD está a desfazer-se paulatinamente entre os dedos de Rui Rio. Pedro Duarte criou o movimento X, assumidamente contra o líder do partido, no qual participa o patrão da Confederação Empresarial de Portugal, António Saraiva, Carlos Carreira lançou um manifesto, Miguel Morgado quer constituir um think tank para repensar a direita portuguesa, Carlos Moedas disponibiliza-se para outro tipo de envolvimento na véspera de deixar o cargo de comissário europeu e o Aliança vai recrutando em Belém e na São Caetano à Lapa. O PSD ameaça diluir-se por várias matrioskas sem a garantia de um “período de tréguas” como pediu o vice-presidente Castro Almeida em entrevista ao PÚBLICO. A tensão interna é clara, quando Fernando Negrão fala num clima de normalidade e Castro Almeida num clima de divisão e hostilidade; quando o líder da bancada parlamentar diz que “não há nenhum risco de colapso ou ruptura no PSD” e o vice-presidente menciona a ameaça de um “suicídio colectivo”.

Rui Rio não se importa de “perder à primeira, à segunda, à terceira, à quarta, à quinta”, como afirmou no último conselho nacional, porque está convencido de que a sociedade se vai arrepender de não ter votado no PSD. Rui Rio sabe bem que vai perder as três eleições do próximo ano e que a sua sobrevivência depende mais de António Costa do que dele próprio. O líder do PSD impôs uma distância higiénica entre o seu partido e o CDS, renegou os anos da PAF e viu nos acordos de regime com o PS uma tábua de salvação. Rio tem tantos motivos para acusar os seus críticos de fazerem o jogo do PS como estes de afirmarem o mesmo sobre o líder do partido.

O surgimento do populismo não é um exclusivo, como se tenta fazer crer, de uma esquerda ensimesmada e desinteressada. Olhe-se para o Brasil, França e Espanha, como se verificou nas eleições regionais da Andaluzia, e o que vemos é a desagregação dos partidos de centro-direita, que abre caminho a excrescências anacrónicas como o machista Vox. O PSD não precisa de um director comercial ou de um contabilista, mas de alguém que consiga recompor um partido desunido. O suicídio colectivo do PSD não é apenas um desafio à obstinação do seu líder; é também um risco para o próprio sistema. Mas dificilmente Rui Rui conseguirá criar a password de acesso à unidade do partido e agregar o que já está em desagregação.