Nova líder da CDU: "uma mente política com queda para a polémica"

AKK e Angela Merkel partilham um estilo conciliatório em que o ego nunca vem primeiro.

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FABRIZIO BENSCH/Reuters

Menos hesitante, sem medo de um confronto político ou até de parecer ridícula – Annegret Kramp-Karrenbauer é sempre comparada com a chanceler alemã Angela Merkel, mas é nas diferenças que está o mais interessante da nova líder da CDU, dizem as duas autoras de uma biografia sobre a política do pequeno estado federado do Sarre.

O título da biografia é Posso, quero e vou (tradução livre de Ich Kann, Ich Will und Ich Werde, de Kristina Dunz e Eva Quadbeck), um aparte que fez num discurso em Fevereiro, após ter sido escolhida por Angela Merkel para ocupar o cargo de secretária geral do partido, no que foi então visto como um passo para chegar à liderança.

Só não se esperava que fosse tão cedo: quando Merkel anunciou que não se recandidataria, Kramp-Karrenbauer não soube antes. Houve quem falasse de uma possível falta de comunicação entre as duas.

A política do Sarre arriscou muito, deixando a chefia do Governo para um cargo dentro do partido que lhe permitiria cimentar alianças e somar apoios, saindo da pequena cidade de Püttlingen, onde sempre viveu, para passar a maior parte do tempo em Berlim.

As semelhanças entre as duas são o mais evidente: duas mulheres, de regiões pouco importantes, menorizadas pelos mais velhos, que têm sucesso através de trabalho e que preferem conciliar posições do que emergir como vencedoras aos olhos do exterior.

Kramp-Karrenbauer chegou mesmo a ter de dizer, em relação às semelhanças entre as duas: “penso pela minha própria cabeça”, o que já levou a alguns conflitos com Merkel”. Mas contrapôs: “Não vou afastar-me artificialmente dela” para aumentar as hipóteses de ser eleita líder da CDU.

Uma vez, Kramp-Karrenbauer chegou mesmo a ignorar a linha defendida pelo partido e a votar ao lado do Partido Social-Democrata (SPD) quando este propôs, em 2012, quotas para mulheres nas empresas alemãs. Também defendeu uma subida da carga fiscal para a categoria dos mais altos rendimentos, dizendo que o SPD exagerou quando a desceu, nos anos 1990, de 53% para 42%. 

Durante o seu tempo no poder no Sarre – 18 anos, divididos entre várias pastas: Educação e Cultura, depois Trabalho, de seguida Justiça, e ainda Ciência e Investigação antes de assumir a chefia do governo – acumulou sobretudo aliados. É raro um opositor que não tenha elogios a fazer-lhe.

“Tem um carácter conciliatório. Está preparada para envolver opositores políticos para conseguir um objectivo se isso não contradisser os seus valores e o seu rumo conservador”, disse Petra Berg, do SPD e opositora política da conservadora.

Kramp-Karrenbauer vem de uma grande família católica e formou-se em ciência política. Tem três filhos, e o marido, engenheiro, foi quem ficou em casa com os filhos enquanto ela seguia a carreira política.

Se de Merkel se sabe que gosta de ópera, de Annegret Kramp-Karrenbauer sabe-se que gosta de AC/DC. Se Merkel foi alvo de troça pelo ar de aborrecimento com que foi fotografada quando assistia ao Carnaval de Colónia, o mais famoso do país, Kramp-Karrenbauer aparece mascarada nas festividades locais (o Carnaval é uma altura de sátira política na Alemanha). 

Se Merkel é seráfica, Kramp-Karrenbauer é mais emotiva. No Congresso, Merkel mostrou-se visivelmente emocionada com as reacções ao seu discurso; Kramp-Karrenbauer não evitou as lágrimas, nem nessa altura, nem quando chegou a contagem e percebeu que tinha sido eleita. 

Há quem considere que Kramp-Karrenbauer é, sim, mais parecida com o antigo chanceler Helmut Kohl; não só por não esconder o seu sotaque regional, mas por ser, como diz o correspondente do jornal Irish Times na Alemanha, Derek Scally, “uma mente política com queda para a polémica, se esta servir um fim político, tudo num ‘embrulho’ discreto”.

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