Uma pró-Merkel e dois anti-Merkel disputam a liderança da CDU na Alemanha

União Democrata-Cristã procura sucessão que irá mudar o rumo do partido: muito à direita ou só um pouco?

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Friedrich Merz, Annegret Kramp-Karrenbauer, Jens Spahn debateram em várias conferêcnias por todo o país THILO SCHMUELGEN/Reuters

Quando os delegados do partido alemão União Democrata-Cristã (CDU) se reunirem esta sexta-feira para votar no Congresso em Hamburgo, a decisão sobre o novo líder está entre AKK, a mulher cuja ascensão ao poder seria quase tão inesperada como a da própria Angela Merkel, Friedrich Merz, um homem cujo regresso é visto como a suprema vingança sobre a mulher que o afastou (Merkel), e Jens Spahn, que foi, e parece já não ser, a promessa de renovação da ala conservadora do partido.

A CDU lançou-se num processo de escolha do sucessor de Angela Merkel com uma série de conferências regionais para permitir o contacto com os candidatos, onde lhes fossem feitas perguntas, de forma a serem vistos e ouvidos ao vivo.

Vários órgãos de comunicação social alemães comentavam que se a vitória fosse medida em aplausos, o vencedor seria Friedrich Merz, de 62 anos. Era líder da bancada parlamentar da CDU mas em 2002 foi afastado numa disputa pelo cargo com Merkel, que passou a chefiar o grupo parlamentar. Merz acabou por se afastar e há 16 anos que não tem qualquer cargo político, mas sim uma carreira de sucesso como jurista de organizações de gestão financeira como a Blackrock.

Merz também convence os que temem que ele tenha razão quando prevê que os dias de ouro da economia alemã podem estar perto do fim e que é preciso saber reagir quando a economia piorar.

Mas houve derrapagens: uma afirmação questionando o direito de asilo consagrado na Constituição alemã, foi depois temperada, queixando-se Merz de ter sido “mal interpretado”. “Terá querido piscar o olho à direita e recuou perante as reacções negativas? Ou será mesmo a sua opinião?”, perguntava a revista alemã Der Spiegel.

Também uma proposta para a isenção de impostos de alguns casos de lucros com acções como uma das medidas para combater a pobreza na terceira idade foi vista com suspeição, já que Merz trabalha para um fundo financeiro na Alemanha.

Friedrich Merz foi a entrada surpresa na corrida à liderança da CDU. A mais-do-que-provável candidata, já se sabia, era Annegret Kramp-Karrenbauer (cuja maior fragilidade podia mesmo ser o nome, que causa dificuldades até aos media alemães, que a tratam por AKK).

Annegret Kramp-Karrenbauer foi proposta por Merkel para secretária-geral do partido, no que foi visto como o primeiro passo para um dia disputar a liderança, e eleita com entusiasmo.

As duas partilham o estilo sóbrio e o pragmatismo. Se AKK for eleita líder da CDU, e depois chanceler, terá uma ascensão semelhante à da actual líder: Merkel era uma mulher, da antiga República Democrática Alemã, subvalorizada pelos detentores do poder; AKK é uma mulher católica, de um estado muito pequeno, o Sarre (o segundo menor dos 16 estados federados alemães), que só há pouco tempo se mudou para Berlim, menorizada pelos que estão nos centros de poder. A comparação dos percursos das duas mulheres levaram alguns a chamar-lhe "mini Merkel".

Embora em termos de políticas económicas seja próxima do centrismo de Merkel, em termos sociais é mais conservadora, prometendo agora, e se for escolhida, que continuará a opor-se à alteração do chamado artigo 219a, que proíbe que médicos façam publicidade a aborto, que não é liberalizado. 

AKK assume ainda uma linha dura em termos de lei e ordem, algo caro aos eleitores da CDU (com reflexos na política de imigração e asilo).

Nas suas intervenções, foi notada pelo à-vontade com políticas, sugestões, detalhes, graças à sua experiência governativa, algo em que ganha aos seus concorrentes: Merz foi líder da bancada parlamentar da CDU mas nunca participou num Governo, Jens Spahn foi vice no Ministério das Finanças de Schäuble mas só desde Março é ministro da Saúde.

Se o foco for em quem possa mais facilmente ganhar eleições, AKK pode ter vantagem já que é a única com provas dadas em condições adversas. Saiu vitoriosa de uma eleição que todos julgavam perdida para a CDU no Sarre, no início de 2017, com o SPD a subir na sequência do forte “efeito Schulz”, quando o partido indicou o ex-presidente do Parlamento Europeu para candidato a chanceler. A vitória de AKK foi vista como importante para travar esta subida de Martin Schulz, que se revelou de curta duração. 

A ligação a Merkel é vista como uma das principais vantagens de AKK e uma das suas maiores fraquezas. Os eleitores da CDU querem mudança, mas não demasiada. A estabilidade é a palavra na boca de todos.

Se AKK tem o apoio tácito da chanceler (talvez por serem conhecidos efeitos adversos de líderes tentarem impor sucessores), já Merz tem o apoio da figura que foi disputando com Merkel o lugar de político mais popular do país, ultrapassando-a mesmo a dada altura durante a crise dos refugiados: Wolfgang Schäuble.

A revista Der Spiegel detalhou como ambos foram discutindo o regresso de Merz, e como em parte das conversas estaria uma possibilidade de Schäuble ocupar o lugar de Merkel, caso esta deixasse a chancelaria e houvesse um novo Governo sem eleições antecipadas. Schäuble, que como delfim de Helmut Kohl tinha aspirações a ser chanceler, foi também um dos homens que Merkel fez cair para chegar ao poder, na sequência de um escândalo de financiamento do partido. 

No entanto, vários analistas afastam este cenário de um novo Governo sem eleições. Um dos políticos envolvidos na potencial nova coligação, Christian Linder, do Partido Liberal Democrata (FDP), já disse que não entrará em discussões para uma nova coligação sem uma nova votação (mesmo arriscando-se a perder o lugar privilegiado: com o actual Parlamento apenas haveria uma coligação “Jamaica”, juntando a CDU, os Verdes e os Liberais, mas a mais recente subida dos Verdes poderá ser suficiente para conseguirem formar governo sozinhos com a CDU em eleições antecipadas).

Merz disparou contra o centrismo: “Não temos de ultrapassar o SPD em todos os pontos.”

Merz é o anti-Merkel e não só pela sua defesa de políticas mais à direita: o facto de ser milionário e ter dois aviões privados marca um grande contraste com uma chanceler cuja frugalidade é uma imagem de marca – roupa repetida e nada luxuosa, férias modestas em praias italianas ou caminhadas nas montanhas, um carro que é um antigo VW.

Já Jens Spahn parece ter passado da grande esperança de muitos membros mais conservadores da CDU para o lugar do menos favorito. 

Spahn, homossexual casado desde que o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado na Alemanha, ganhou notoriedade por não fugir de provocações e é a cara de uma mudança de geração que muitos querem.

No entanto, a posição forte sobre à política de Merkel quanto aos refugiados obrigou-o a repetir muitas vezes que não era racista, e viu o seu campo reduzido à direita com Merz a entrar também neste campo.