“Coletes amarelos” estão “preparados para tudo”, porque já não aguentam mais

Na tenda dos “coletes amarelos” da rotunda de Kuhne, a 120 quilómetros de Paris, faziam-se os preparativos para a jornada de luta de sábado. O protesto só acaba com a mudança de políticas: “Em França, não podemos continuar assim. Não estamos a viver, estamos a sobreviver”.

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VINCENT KESSLER/Reuters

Com o frio, a chuva, e principalmente o vento, a não darem tréguas, é preciso garantir que a tenda que os “coletes amarelos” instalaram na rotunda de Kuhne, junto da localidade de Roye, resiste à intempérie que se anuncia para a próxima semana. Um dos seis homens de “turno” encarrega-se disso, recorrendo às paletes de madeira que vão sendo depositadas e empilhadas junto à tenda, para forrar as “paredes” e fortalecer a estrutura que antes já fora reforçada com remendos de cartão canelado e lonas a cobrir o telhado. Ninguém sabe quanto tempo mais esta precária construção vai resistir, mas sabem isto: enquanto não conseguirem o que querem, os “coletes amarelos” não vão desistir da luta nem arredar pé dali.

“Se tiver de ser, comemos aqui a ceia de Natal, festejamos aqui o Ano Novo. Estamos preparados para o que for preciso”, garante Christophe, de 39 anos, uma das mais de 200 pessoas que desde o dia 17 de Novembro fazem da rotunda de Kuhne o seu lugar de protesto: contra a carestia de vida e a baixa do poder de compra, contra o peso dos impostos e a deterioração dos serviços públicos, contra as medidas do Governo da educação à segurança social, mas sobretudo contra o Presidente francês, Emmanuel Macron, e “os seus acólitos”, que “se estão nas tintas” para o povo". “Aqueles que votaram Macron estão agora a arrancar os cabelos”, explica Georges, de 55 anos.

São homens e mulheres de todas as proveniências e das mais diversas idades e profissões: alguns moram ali ao lado e aparecem sempre que têm um momento livre, outros vêm de mais longe e ficam ali horas, noites inteiras até, porque a “resistência” faz-se 24 horas por dia. Um jovem que o PÚBLICO encontrou fez 300 quilómetros nos últimos quatro dias, “entre idas e voltas a casa”, para não deixar os companheiros desamparados. Poucos deles se conheciam antes de Macron ter anunciado o seu plano para um imposto adicional sobre os combustíveis, mas agora dizem que são “como uma família” — uma família de pessoas que trabalham e cumprem as suas obrigações, mas não têm dinheiro ao fim do mês para comprar um brinquedo para um filho. “Nós não pedimos muito, só pedimos o direito de poder viver com o nosso salário”, resume Christophe.

“Estamos a sobreviver” 
Roye é uma comuna do departamento de Somme, na junção da Auto-Estrada n.º 1 e da Estrada Nacional n.º 17, que liga Paris à fronteira da Bélgica. A capital francesa fica a cerca de 120 quilómetros, e é lá que vai estar Julien, de 33 anos, este sábado, a manifestar a sua insatisfação com o agravamento das condições de vida dos trabalhadores. “Em França, não podemos continuar assim. Temos os impostos mais altos da Europa, mas as empresas não pagam. O Governo tem dinheiro para distribuir, mas não é para os salários ou para as reformas. Não estamos a viver, estamos a sobreviver”, lamenta. E é por isso que vai para a rua. “Porque o Presidente tem que perceber que já não aguentamos mais.”

Vários dos seus companheiros de Roye estiveram na primeira de todas as manifestações do movimento “coletes amarelos” em Paris, há três semanas, e outros participaram na jornada de luta do sábado passado, que deixou dezenas de pessoas feridas nos confrontos com as forças da polícia antimotim. Os que lá estiveram acreditam que a missão deste sábado é um pouco “suicida” — vai ser difícil conter a pressão. “Nós chegámos lá sem armas e de cara descoberta, e eles investiram com bastões e gás lacrimogéneo”, lembra um dos manifestantes, que faz questão de distinguir entre os “coletes amarelos” genuínos, “que são pacíficos”, e os infiltrados de cara tapada, que apareceram para destruir e provocar a violência, levando as autoridades a castigar a multidão indiscriminadamente.

A cólera e os editores 
“Mas é assim que se trata um povo? O Estado impede-nos de manifestar a nossa cólera. Quem faz isso são os ditadores”, interrompe Sylvie, uma desempregada de 48 anos que acredita na justeza da luta dos “coletes amarelos” e acredita que este novo movimento, descentralizado, espontâneo e independente dos partidos e organizações políticas, pode ser a génese de uma nova revolução francesa. “Para mim, é muito claro que esta é uma nova revolução popular. É o povo que se revolta, não é um comando que quer tomar o poder”, acrescenta Georges, um empresário que tem uma frota de oito camiões e não esconde a sua simpatia pelas ideias de Florian Philippot, o antigo número dois da Frente Nacional (extrema-direita) que fundou no início deste ano o seu próprio partido, os Patriotas.

É verdade que algumas das queixas ouvidas reproduzem algumas das críticas da extrema-direita ao Governo. Mas também é verdade que estão ali muitos eleitores que nunca deixarão de ir às urnas para impedir que uma política como Marine Le Pen possa ser Presidente da França. O drama dos franceses, apontaram vários destes “coletes”, é estarem confrontados com escolhas como a das últimas presidenciais. “Eu não conseguia votar em Le Pen e não conseguia votar em Macron, votei em branco”, conta um dos manifestantes.

Quando se pergunta qual pode ser a solução para este impasse, percebe-se que de cada cabeça sai uma sentença diferente. Christophe, como Georges, Sylvie ou Delphine, de 44 anos, garantem que a luta só acaba com a demissão de Emmanuel Macron e a formação de um novo Governo. Uns reclamam eleições já, outros dizem que primeiro é preciso “pôr o sistema a zero outra vez” porque todos os políticos são iguais. Todos concordam que a resposta é a mudança das políticas, “que são ditadas de Bruxelas”, porque se “a França continuar com esta direcção, vai acabar como a Grécia”.

A conversa é frequentemente interrompida, não só pelo trabalho de estabilização da tenda, mas também pela chegada de mais “coletes” ao local e pelo barulho das buzinas dos simpatizantes do movimento que circulam pela rotunda. Segundo as sondagens, quase 80% dos franceses dizem-se solidários com o protesto, e na rotunda de Kuhne há automobilistas que vêm descarregar mantimentos ou entregar dinheiro para que a luta continue.

A tenda nunca fica com menos de cinco pessoas, mas por vezes são mais de 50 lá dentro. É difícil imaginar como cabem, dada a exiguidade do espaço, que, ainda assim, está dividido por áreas e aproveitado para todas as funções: à entrada, um pequeno balcão e um armário onde se guardam os mantimentos; ao lado, uma mesa que tanto pode ser de reuniões como serve para as refeições (enquanto conversamos, cortam-se baguetes, que são recheadas com queijo e fiambre e oferecidas a todos); ao centro há uma braseira eléctrica ligada a um gerador e, no pouco espaço livre que sobra ao fundo, improvisa-se agora um banco com a madeira que sobrou das paletes que protegem as paredes.

Num placard estão afixadas folhas de papel com o planeamento e calendário dos protestos e o horário dos turnos, bem como o manifesto com a lista das reivindicações dos “coletes amarelos” de Kuhne (logo no primeiro ponto exigem a revogação de todas as leis do Governo Macron) e ainda o regulamento da tenda: ali não entram crianças, “por razões evidentes de segurança”, nem álcool; a limpeza tem de ser assegurada, e a “cordialidade e gentileza” são requeridas em todos os contactos com as forças de segurança.