Annegret Kramp-Karrenbauer sucede a Merkel na liderança da CDU

Candidata da continuidade vence à segunda volta da votação contra Friedrich Merz e Jens Spahn. Só não lhe chamem “mini-Merkel”.

Annegret Kramp-Karrenbauer era a preferida de Angela Merkel
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Annegret Kramp-Karrenbauer era a preferida de Angela Merkel KAI PFAFFENBACH/Reuters

Annegret Kramp-Karrenbauer, 56 anos, antiga chefe do governo do pequeno estado federado do Sarre, foi eleita líder da CDU (União Democrata-Cristã), o partido da chanceler, Angela Merkel, no congresso do partido em Hamburgo.

Kramp-Karrenbauer foi escolhida na segunda volta da votação, com 517 votos contra 482 de Friedrich Merz. A primeira volta eliminou Jens Spahn, o actual ministro da Saúde. O resultado tão próximo faz antever dificuldades para a nova líder ganhar a confiança dos apoiantes do candidato derrotado, que tinha sido apoiado publicamente pelo decano do partido Wolfgang Schäuble.

A nova líder, cujo nome é grande de mais até para os media alemães, é também conhecida apenas pelas iniciais como uma marca, “AKK”, mas tem lutado para afastar outro epíteto: o de “mini-Merkel”. “Tenho 56 anos, criei, com o meu marido, três filhos, há 18 anos que tenho responsabilidades governativas. Não tenho nada de ‘mini’.”

Apesar de ser comparada com Merkel, é mais conservadora em termos sociais, e apesar de ter concordado com a política para os refugiados da chanceler, tem defendido medidas mais duras, como deportar requerentes de asilo que tenham cometido crimes e “nunca mais os deixar pisar solo europeu”.

Em termos de política de trabalho, por exemplo, é mais à esquerda até do que Merkel, defendendo o salário mínimo nacional (Merkel opunha-se ao que foi adoptado como exigência do SPD).

Há quem considere que Kramp-Karrenbauer é mais parecida com o antigo chanceler Helmut Kohl; não só por não esconder o seu sotaque regional, mas por ser, como diz o correspondente do jornal Irish Times na Alemanha, Derek Scally, “uma mente política com queda para a polémica, se esta servir um fim político, tudo num ‘embrulho’ discreto”.

Outra diferença em relação a Merkel: Kramp-Karrenbauer tem um estilo mais decidido, menos ponderado, e, assim, mais dinâmico. Corre mais riscos: em 2012, por exemplo, quando tinha sido eleita há apenas um ano para liderar o Sarre, decidiu mudar de parceiros de coligação e marcar uma eleição antecipada (criticando o Partido Liberal-Democrata, FDP). O risco compensou e Kramp-Karrenbauer venceu (o FDP não obteve votos suficientes para entrar no Parlamento).

Kramp-Karrenbauer partia com várias vantagens: a de se prever que não apressará a saída de Merkel do cargo de chanceler (a co-habitação de Merkel com um líder do partido crítico como Merz ou Spahn seria difícil), a de ter bastante experiência governativa, pensando numa candidatura a chanceler nas próximas eleições (foi ministra da Cultura, do Interior e líder do governo regional do Sarre); e ainda o facto de já ter vencido uma eleição no seu estado quando se esperava uma derrota, em 2017, tendo acumulado créditos por ajudar a parar o “efeito Schulz”, quando o candidato do SPD Martin Schulz ficou, brevemente, em primeiro nas sondagens.

O perigo, com os votos dos delegados tão divididos, é que AKK não consiga manter o partido unido. Já aconteceu com vários políticos que se seguiram a líderes fortes que ocuparam o cargo durante muito tempo.

Mas Matthias Dilling, da Universidade de Oxford, diz que uma atenuante será o processo de escolha do partido, com conferências nos estados federados e debates que, para padrões de outros países, foram bastante harmoniosos.

“O partido celebrou, e levou como positiva, esta oportunidade para debater. Esperava-se um resultado dividido, e penso que, apesar de ter sido de facto a maioria mais curta possível, não irá ser levado contra ?Kramp-Karrenbauer", disse Dilling num comentário, por telefone, ao PÚBLICO.

O que o analista espera agora é que a CDU, "depois do tumulto da formação do Governo e do Verão [com o debate com a CSU sobre refugiados] se concentre na governação". "Ninguém tem incentivo para tumultos", diz o especialista em partidos democratas-cristãos.

A grande incógnita agora será o que vai fazer Merz, que depois de 16 anos fora da política, tentou regressar com o apoio de Schäuble e uma forte aposta em combater a AfD (Alternativa para a Alemanha) posicionando-se mais à direita. "Penso que ele teve a sua janela de oportunidade e que esta se fechou", diz Dilling. "Se ficar de fora e tentar influenciar, vai ser visto como um mau perdedor".