Crítica

Chorar baba e ranho, celebrar a vida: eis Robyn, oito anos depois

Honey marca o regresso aos álbuns a solo da cantora e compositora sueca. É um disco latejante, vibrante, que encontra algo de triunfante na resiliência.

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Um disco que encontra algo de triunfante na resiliência e no fazer luto

Robyn foi descoberta aos 13 anos pelo grupo sueco Legacy of Sound numa festa da escola, enquanto cantava sobre o divórcio dos pais. Metabolizar as agruras da vida em gloriosas canções pop-electrónica, de emotividade transbordante e vulnerabilidade cristalina, tornar-se-ia na sua especialidade — Dancing On My Own (2010), um dos grandes momentos da pop da última década, é 100% isso e é muito o epítome da expressão “crying on the dance floor” (quem nunca?).

Aos 14, Robyn já tinha contrato assinado com uma editora. Transformou-se rapidamente numa estrela pop adolescente. Tanto ia a programas de televisão para miúdos como a festas de Janet Jackson. Trabalhou com o produtor Max Martin, pouco antes de este se ter tornado num dos maiores fazedores de hits da indústria pop, de Backstreet Boys a Taylor Swift. Ainda nos anos 90, a americana Jive Records ofereceu a Robyn um contrato sumarento. Ela recusou (em alternativa, apostaram numa miúda de 15 anos chamada Britney Spears).

Robyn sempre fez as coisas à sua maneira. De forma discreta, foi deixando rasto, sobretudo na pop menos massificada: sem ela não teríamos a mesma Lorde, a mesma Charli XCX ou a mesma Carly Rae Jepsen. Hoje, aos 39 anos, ocupa um lugar de ícone pop mais ou menos periférico, circulando entre a pop, a música de dança e o indie. Hoje, está de volta com um novo álbum, o primeiro a solo em oito anos. Em Honey, Robyn processa um desgosto de amor, a morte do amigo e produtor Christian Falk e muitas sessões de psicoterapia. Apesar disso, ou também por isso, é um disco latejante, vibrante, que encontra algo de triunfante na resiliência e no fazer luto — ouçamos Because It’s In The Music, canção estelar de disco-sound traçada a R&B que rebrilha a cada passo, e em que Robyn parece ensaiar um encontro entre Whitney Houston e Giorgio Moroder. Isto é aquela intensidade catártica capaz de parar uma sala inteira, isto é Robyn a superar-se.

Um dos pontos mais interessantes do álbum é o remexer na memória da música house dos anos 90. Em Between The Lines evoca-se Gypsy Woman, de Crystal Waters, e Robin S., enquanto Send To Robyn Immediately balança a hipnose com um sample de French Kiss, de Lil Louis. A música de dança é o músculo de Honey, mas, ao contrário do que acontecia no seu antecessor, Body Talk, aqui há mais oxigénio, mais tensão, uma exploração celular das melodias (cortesia também do elenco de produtores, onde figuram Kindness e Joseph Mount, dos Metronomy): isso é evidente na espectacularidade minimal de Honey, o single, ou na volúpia gélida e penetrante de Human Being. O final, Ever Again, é grandioso. É Robyn a escancarar a energia primeva de uma canção, a mostrar-nos o quanto pode ser regeneradora e salvífica. Muito piegas, mas muito verdadeiro.