Opinião

Ferro Rodrigues: uma virgem ofendida?

Será que Ferro Rodrigues não tem a noção que a partilha de passwords entre deputados é vulgar e corriqueira?

A deputada Emília Cerqueira, que há cerca de três semanas irrompeu nos nossos lares numa diatribe contra as virgens ofendidas, deve ter ficado chocada – e com razão – com as recentes declarações do presidente da Assembleia da República. Segundo os media, Ferro Rodrigues, na passada quarta-feira, referiu ser "inquestionável a existência de irregularidades" no que toca ao registo das presenças de deputados em plenário e que os deputados – poucos, segundo o presidente da Assembleia da República – que assim procedem “põem em causa o prestígio do parlamento” e o próprio “prestígio da democracia representativa".

Será que Ferro Rodrigues não tem a noção que a partilha de passwords entre deputados é vulgar e corriqueira? Será que não ouviu Emília Cerqueira afirmar que “tenho a password de alguns colegas de quem sou muito próxima, aliás como eles têm a minha, o que faz parte do desenvolvimento do trabalho aqui e em qualquer organização”? Que afirmou mesmo que esta era uma mensagem que queria que ficasse claríssima? Esclarecendo, por exemplo, que não era a única pessoa que tinha a password do deputado José Silvano?

Será preciso que a deputada Emília Cerqueira dê um curso de passwords ao deputado Ferro Rodrigues? Será que o deputado Ferro Rodrigues não percebeu que o deputado José Silvano tinha no seu computador documentação a que a deputada Emília Cerqueira não tinha acesso através do computador dela e que precisava de entrar no computador dele para aí, no aconchego dos terabytes alheios, trabalhar de forma produtiva? O que quer Ferro Rodrigues? Que a deputada Emília Cerqueira – e muitos outros deputados seguramente – deixem de trabalhar nos computadores uns dos outros? Que passem a considerar as passwords confidenciais? Está a gozar com quem? isso é que seria prestigiante para a democracia representativa?

É certo que, aquando do escândalo das virgens ofendidas, a deputada Emília Cerqueira percebeu – e só nessa altura isso aconteceu – que inadvertidamente, ao trabalhar com o computador do deputado José Silvano, estava a dá-lo como presente na Assembleia da República e a presenteá-lo com umas dezenas de euros. Sim, porque a deputada Emília Cerqueira – tal como muitos outros deputados seguramente – nunca se tinha apercebido que ao ligar o seu próprio computador estava a marcar a sua presença no hemiciclo.

Antes pelo contrário, estava – tal como muitos outros deputados seguramente – convencida que o ligar do computador era irrelevante para marcar a sua presença, uma vez que tinha de fazer outras coisas para garantir o registo da sua presença, tais como cumprimentar sete deputados da sua bancada ou, ainda, percorrer os Passos Perdidos a pé coxinho. Quantas vezes não esteve, no Parlamento, a deputada Emília Cerqueira sem ligar o computador e, nem por isso, deixou de ver registada a sua presença ao cumprimentar o sétimo deputado? Sim, quantas?

Mas Ferro Rodrigues, qual virgem ofendida, pretende ignorar toda esta factualidade relevante para enquadrar devidamente o laborioso comportamento dos deputados e vem dizer-nos, com uma impressionante ligeireza, que estes empenhados deputados – obrigados, quiçá, a decorar dezenas de passwords – “põem em causa o prestígio do parlamento” e que devem ser sancionados!

Será que o presidente da Assembleia da República não ouviu e viu a forma cândida como a deputada Emília Cerqueira lamentou o facto de inadvertidamente ter registado a presença do ausente deputado José Silvano? E como lamentou mais ainda que se tivesse criado um circo mediático à volta de uma coisa tão simples como um colega partilhar os ficheiros de trabalho de outro colega?

Sim, porque o circo mediático, com todo o seu cortejo de animais amestrados, esse sim é lamentável. Mas sobre isso não se pronunciou o deputado Ferro Rodrigues, que preferiu alinhar no coro das virgens ofendidas. Como não atendeu à forma clara e sem rodeios como a deputada em causa assumiu o que tinha feito: “Eu fiz? É possível. Não digo que não, porque não tem nada de especial. É um momento como outro qualquer da rotina de trabalho de qualquer deputado.”

Em suma, o deputado Ferro Rodrigues preferiu estar do lado das virgens ofendidas e do circo mediático em vez de apoiar os colegas que trabalham. É muito, muito triste...