Primeiro bastonário recusa medalha da Ordem dos Médicos Dentistas

Fontes de Carvalho contesta distinção de outros dois colegas que, para a criação da associação e da Ordem, diz, “não mexeram uma palha”. Ordem lamenta a posição.

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PAULO RICCA / PUBLICO

Manuel Fontes de Carvalho, um dos fundadores e primeiro bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas, recusou receber a medalha de ouro que lhe ia ser atribuída pela instituição. Em causa está a distinção de outros dois profissionais destacados na Medicina Dentária em Portugal, António Vasconcelos Tavares e António Felino, que a Ordem quer homenagear pelos seus contributos na fundação da instituição. Mas Fontes de Carvalho contesta. A Ordem lamenta a posição do seu antigo bastonário.

“Não posso aceitar ser distinguido em conjunto, com esta justificação. São duas pessoas que não mexeram uma palha neste processo”, diz Fontes de Carvalho, referindo-se à constituição da Associação Profissional dos Médicos Dentistas (APMD), em 1991, e ao processo que se seguiu e culminou com a criação da Ordem, sete anos mais tarde. Terminou aí o impasse de vários anos relativamente aos dentistas brasileiros, que chegou a envolver os Presidentes da República dos dois países. “Há várias razões para reconhecer uma série de outras pessoas que gastaram anos neste projecto”, afirma.

A Ordem tem uma visão diferente. Numa nota publicada no site, o bastonário Orlando Monteiro da Silva justifica as distinções: Fontes de Carvalho “foi um dos líderes mais destacados na profissão, desde a criação das então escolas superiores de Medicina Dentária”; António Vasconcelos Tavares “contribuiu decisivamente para a criação e afirmação nesses tempos da Ordem”, tendo presidido, por exemplo, ao conselho ético e a Comissão Nacional de Avaliação dos Cirurgiões Dentistas Brasileiros; António Felino “foi fundamental pela influência que colocou pelos seus relacionamentos para a criação da percursora da Ordem, a APMD, que ocupou desde sempre posições de destaque no associativismo profissional”.

"Notáveis percursos profissionais"

Ao PÚBLICO, a Ordem esclarece que a decisão de atribuir as medalhas, tomada por unanimidade pelo conselho directivo, se prende “com os seus notáveis percursos profissionais em diversas e diferentes funções ao longo de mais de três décadas", tendo contribuído para o desenvolvimento da Medicina Dentária em Portugal. Acrescenta que desde 2004 foram atribuídas oito medalhas de ouro, com os mesmos critérios e “nunca foram contestadas por ninguém”.

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Fontes de Carvalho critica o actual bastonário

Fontes de Carvalho, que começou por aceitar a atribuição antes de saber da existência de mais dois galardoados, deixa a ressalva: “Tenho uma amizade e respeito enorme pelo Vasconcelos Tavares, mas neste assunto o seu contributo foi pontual.” O mesmo não diz sobre António Felino, com quem não tem uma relação de amizade, admite. “A sua colaboração foi nula”, escreveu no email enviado a colegas de profissão a dar conta da sua decisão de não estar presente na cerimónia que assinala os 20 anos da Ordem, a 11 de Dezembro na Assembleia da República, onde serão entregues as medalhas.

Fontes de Carvalho acusa o actual bastonário de instrumentalizar o galardão para “homenagear pessoas que alguma vez tenham promovido a sua distinção pessoal”. Refere que o doutoramento honoris causa de Orlando Monteiro da Silva, foi proposto por dois catedráticos da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto (FMDUP), entre os quais António Felino. Este foi aprovado por unanimidade pelo conselho científico da faculdade e pelo senado da Universidade do Porto.

A Ordem dos Médicos Dentistas considera a “insinuação absurda e absolutamente lamentável, porque não encontra fundamento”. A instituição sustenta que estas distinções assentam “em critérios rigorosos” e procedimentos “que o professor devia conhecer bem e colocar acima de qualquer quezília”.

António Vasconcelos Tavares, catedrático da Faculdade de Medicina Dentária da Universidade de Lisboa, foi director desta escola, pró-reitor e vice-reitor da universidade. Actualmente integra o Conselho Superior da Ordem dos Médicos. António Felino é professor catedrático na FMDUP, antigo sub-director da faculdade, e foi presidente da Comissão Científica da Ordem.