Opinião

Xi Jinping e as fragilidades da China

Serão sempre as questões domésticas que irão guiar a acção de Xi Jinping. Para Portugal, isto pode vir a fazer toda a diferença.

A visita do Xi Jinping a Portugal é, sem dúvida, um marco importante na relação deste gigante asiático com o nosso país. Nos últimos anos, o investimento direto chinês em Portugal ganhou importância pela dimensão e pelos setores escolhidos pelas empresas, públicas e privadas. A China tem vindo a ganhar peso como parceiro comercial de Portugal e é natural que esta visita esteja a ser preparada com enorme cuidado por ambas as partes. O artigo assinado por Xi Jinping no DN de domingo revela um líder que olha para Portugal como um aliado na Europa e como parceiro na implementação da sua grande iniciativa – Uma Faixa, Uma Rota – que já faz parte da Constituição do Partido Comunista Chinês (PCC).

É com esta iniciativa lançada em 2013 que Xi Jinping tem vindo a prosseguir, desde que assumiu a liderança do PCC, o que apelida de Grande Rejuvenescimento da Nação Chinesa. Se desde a abertura do país, em 1978, a China tem assumido uma posição internacional discreta enquanto privilegia o desenvolvimento económico e social através da abertura ao exterior, 40 anos depois, estamos perante um outro país. Agora, Beijing quer ocupar o que considera ser o seu lugar, central, no seio das grandes decisões mundiais desafiando o status quo da governação global pós-1945. Um trajeto que tem beneficiado de uma administração norte-americana virada para o America First e avessa a defender interesses mundiais comuns.

Desafios domésticos

Mas este objetivo ambicioso tem ainda de enfrentar três grandes desafios domésticos que caso não sejam vencidos podem pôr em causa o legado do PCC e o caminho que foi feito nas últimas quatro décadas.

Primeiro, o desafio da reforma da economia doméstica. O rápido crescimento e o evidente desenvolvimento humano de um país onde mais de 500 milhões de pessoas foram tiradas da pobreza veio a fortalecer a legitimidade do PCC junto da população. Mas o modelo económico que trouxe sucesso, baseado em fortes investimentos em infraestruturas e indústrias de exportação, já não é visto como solução. Para o governo, a economia nacional precisa de ser estruturalmente reformada para que fique menos dependente do comércio internacional e mais do consumo doméstico. Só que está a ser um processo difícil e tortuoso, com os objetivos económico-financeiros definidos pelo PCC a serem constantemente revistos. A interpretação que vai ganhando peso é a de que estamos perante uma administração desorientada e sem boas soluções para lidar com problemas derivados de uma maior e crescente complexidade e internacionalização da sua economia e os riscos associados a um excessivo endividamento público e privado.

Segundo, o desafio da necessidade de transformação estrutural da indústria chinesa. Nas últimas décadas, assistimos a uma rápida industrialização que tornou o país na “fábrica do mundo” e peça crucial nas cadeias de produção global, ao mesmo tempo que o ajudava a alcançar a liderança mundial no setor das manufaturas. Mas o aumento do custo da sua mão de obra e a competição de países do Sudeste Asiático como o Vietname ou Camboja têm levado Beijing a repensar o seu modelo industrial e a concentrar as atenções na iniciativa “Made in China 2025”. Com esta iniciativa, a China quer ter uma produção industrial mais sofisticada em termos inovadores e tecnológicos capaz de competir com os EUA ou Europa. Um elemento crucial para este sucesso passaria, no entanto, pelo investimento ou aquisição de empresas ou start-ups tecnológicas inovadoras como forma de ter acesso mais rápido a essas tecnologias. O problema é que é cada vez maior o escrutínio desse tipo de investimento chinês em setores que começam a ser vistos como estratégicos pelos norte-americanos e europeus. No caso de Washington, assistimos ao reforço do poder do Comité para o Investimento Estrangeiro (CIFIUS), que passou a incluir aquisições parciais e participações minoritárias em todas as áreas com acesso a tecnologia considerada sensível. No caso de Bruxelas, temos a recente regulação destinada a monitorizar o investimento de países estrangeiros em setores considerados estratégicos. A questão consiste em saber se a China conseguirá dar o salto industrial no tempo desejado sem ter acesso a estas tecnologias.

Finalmente, o desafio de manter controlada uma sociedade chinesa, principalmente da classe média emergente, que já não vive fechada no país, que consegue ter acesso digital ao que se passa no resto do mundo e que pode questionar a liderança do PCC caso este deixe de continuar a oferecer mais bem-estar nacional que tem estado na base da sua legitimidade. O governo de Xi Jinping já é visto como o governo mais repressivo desde a abertura do país em 1978. Desde a utilização de todo um aparato tecnológico para controlo do que diz ou faz a sua população nas redes sociais ou no dia a dia (já apelidado de “totalitarismo digital”), ao encarceramento sistemático e desaparecimento de ativistas (desde advogados de direitos humanos, líderes de movimentos feministas e organizações ambientais a grupos de estudantes marxistas que apoiam a sindicalização dos trabalhadores chineses), à não-renovação de credenciais a jornalistas estrangeiros, à pressão sobre o governo de Hong Kong para reprimir o movimento democrático apesar do princípio de “um país, dois sistemas” e, finalmente, às detenções em massa na comunidade muçulmana em Xinjiang colocada em chamados “campos de reeducação” e sujeita a atos de repressão e abuso dos direitos humanos. Num importante período de transição económica que pode ter fortes e negativas consequências sociais, o PCC liderado por Xi Jinping parece estar já pronto a conter qualquer tentativa de questionamento do seu poder.

PCC no centro da China

A prioridade da liderança chinesa é garantir o PCC como centro da vida política, económica e social da China. E é com base nesta prioridade que temos de interpretar a partidarização crescente das grandes empresas chinesas privadas com expressão internacional. Na semana passada, a grande notícia foi precisamente o anúncio que Jack Ma, fundador da principal tecnológica privada chinesa Alibaba, era agora membro do PCC. Deste modo, o “Leninismo de Mercado”, na feliz expressão de Richard McGregor, é cada vez mais “representativo” do todo. No funcionamento deste modelo, tende-se a olhar para o capitalismo como o elo principal, mas esquece-se que esse modelo só irá até onde o PCC de facto o desejar. Se este deixar de garantir a estabilidade do país e do Partido, então os agentes económicos poderão ter maus dias pela frente. O que não se sabe ainda é até que ponto poderá afetar de forma séria outras economias que têm vindo a beneficiar positivamente de importantes investimentos chineses, como Portugal.

Dito de outra forma, serão sempre as questões domésticas que irão guiar a ação de Xi Jinping e se for preciso redirecionar investimentos e/ou capitais e fundos externos, sejam privados ou estatais, para “casa”, estes serão efetuados. Isto não torna a China necessariamente diferente de outros países. Os seus interesses domésticos estarão sempre na frente. Mas para Portugal pode vir a fazer toda a diferença.

Os autores escrevem segundo o novo Acordo Ortográfico