“Perante um júri, o príncipe [saudita] seria condenado em 30 minutos”

Directora da CIA informou senadores norte-americanos sobre o que a agência sabe relativamente ao assassínio do jornalista Jamal Khashoggi. Alguns republicanos saíram indignados.

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O senador republicano Bob Corker saiu do briefing com a directora da CIA convencido da culpa do príncipe herdeiro saudita no assassínio de Jamal Khashoggi MICHAEL REYNOLDS/EPA

O senador republicano Bob Corker não tem dúvidas sobre o papel do príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman ou “MBS”, como é mais conhecido, no assassínio do jornalista Jamal Khashoggi no consulado saudita em Istambul.

“Tenho zero dúvidas de que o príncipe herdeiro MBS ordenou o assassínio, supervisionou o assassínio, sabia exactamente o que estava a acontecer. Planeou com antecedência”, disse aos jornalistas Corker, senador do Tennessee, após uma sessão à porta fechada com a directora da CIA, Gina Haspel. “Se o príncipe herdeiro comparecesse perante um júri, seria condenado em 30 minutos.”

O Presidente norte-americano, Donald Trump, tem evitado qualquer afirmação sobre o papel ou o conhecimento de Mohammed bin Salman na morte do jornalista saudita, cujo corpo nunca chegou a ser encontrado.

O Presidente disse mesmo que “o mundo” poderia ser responsável pela morte de Khashoggi. “O mundo é um sítio muito, muito cruel”, respondeu Trump, perante a insistência de uma jornalista.

Trump também disse que a CIA não tinha chegado a uma conclusão sobre o envolvimento de Mohammed bin Salman na morte de Khashoggi e que a agência “não tinha forma de saber” quem ordenou o assassínio do jornalista. Isto levou a uma tirada jocosa de Numan Kurtulmus, vice-presidente do partido AKP do Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, em relação às capacidades da espionagem americana: “Não é possível para uma agência como a CIA, que sabe a cor do pêlo do gato que anda no jardim do consulado saudita, não saber quem deu esta ordem [para matar Khashoggi].”

Segundo relatos de outros responsáveis citados pelo Washington Post, a CIA chegou à conclusão de que há uma grande probabilidade de ter sido o príncipe herdeiro a ordenar o assassínio.

Corker criticou a posição de Trump, dizendo que o volume de negócios dos EUA com a Arábia Saudita não justifica fechar os olhos ao papel de um governante (é MBS quem tem de facto o poder no país) num crime.

A directora da CIA não esteve presente num briefing na semana passada aos senadores, em que foram ouvidos o secretário de Estado, Mike Pompeo, e o da Defesa, Jim Mattis. O gabinete de Haspel disse que não houve qualquer indicação para que não estivesse presente, ao contrário do que foi especulado. Alguns senadores queixaram-se da sua ausência, dizendo que estavam a ser privados de ouvir a avaliação da CIA.

O Senado aprovou na semana passada uma proposta para a suspensão do apoio norte-americano à Arábia Saudita na guerra no Iémen, palco da maior crise humanitária actual no mundo – esta proposta irá ser votada nesta semana.

A votação foi vista como um modo de pressionar Trump para mudar a sua atitude em relação à Arábia Saudita e ao seu regime. Até agora Trump tem sublinhado o papel essencial de Riad na região, em especial em relação ao Irão.

O briefing de Haspel a este grupo de senadores teria o objectivo de suavizar as suas posições na véspera desta votação, diz o New York Times, especialmente o republicano Lindsey Graham, da Carolina do Sul, que ameaçou não votar nenhuma lei que fizesse parte das prioridades legislativas de Trump até que Haspel fosse ouvida no Senado.

Mas Graham saiu da audiência dizendo-se convencido do envolvimento do príncipe saudita: “É preciso ser voluntariamente cego para não concluir que isto foi orquestrado e organizado por pessoas que estavam sob o comando de MBS.”

“A votação recente [63 a favor, 37 contra] deve mostrar à Arábia Saudita e à Administração Trump que o Congresso é um ramo do governo que está a exercer liderança para salvaguardar os interesses, os valores e a reputação da nação”, escreveu Graham no Wall Street Journal. “Afinal, alguém tem de o fazer.”

A votação no Senado, apesar de um sinal importante, será sobretudo simbólico, porque não deverá ser tão cedo tido em conta pela Câmara dos Representantes.

A agência de espionagem e informação terá concluído que MBS terá muito provavelmente ordenado o assassínio, levado a cabo por uma equipa de vários sauditas que voaram para Istambul na altura da morte de Khashoggi e saíram da Turquia pouco depois. O regime foi dando várias explicações contraditórias para o que aconteceu, começando por dizer que Khashoggi tinha saído do consulado com vida.

As conclusões da CIA serão, segundo o Washington Post, baseadas em parte em comunicações interceptadas de um conselheiro-chave do príncipe herdeiro. O conselheiro terá alegadamente comandado a equipa que matou Khashoggi no consulado e, segundo o New York Times, comunicou repetidamente com o príncipe na altura do assassínio.

A avaliação da CIA também terá tido em conta outras comunicações interceptadas e gravações áudio fornecidas pela Turquia. Seria, além disso, muito pouco provável que um saudita fosse assassinado numa operação tão ousada num país estrangeiro sem o conhecimento do príncipe.