Balleteatro volta ao centro histórico com o patrocínio da autarquia

Câmara do Porto comprou edifício à junta de freguesia do centro histórico por um milhão de euros. Ali vai construir a nova casa do Balleteatro, que deixará de ser companhia residente do Coliseu do Porto

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Balleteatro foi criado em 1983 Paulo Pimenta

Quando Isabel Barros se põe a pensar na viagem do Balleteatro pela cidade nos últimos 35 anos, vê o desenho de um mapa pintalgado, prova da passagem da companhia e escola por vários pontos do Porto. Praça Nove de Abril, Rua Augusto Luso, Rua da Alegria, São Bento da Vitória, Arca d’Água, Rua Infante Dom Henrique, Avenida dos Aliados, Rua Passos Manuel. Uma vida quase nómada, narrativa bem conhecida dos artistas mas não menos penosa por isso. Assim, a notícia de que a Câmara do Porto acabava de comprar um edifício no centro histórico e ali iria instalar a futura casa do Balleteatro veio como fogo de artifício. “É excelente”, disse ao PÚBLICO Isabel Barros, que dirige a estrutura com Né Barros: “É, pelo menos, uma ideia de futuro mais certo”.

A insegurança vinha da perspectiva do início de obras no Coliseu do Porto, onde o Balleteatro está instalado, como companhia residente, desde 2015. O projecto esteve em cima da mesa à boleia da criação de uma empresa municipal da cultura, aprovada em Assembleia Municipal há coisa de um ano. Não fosse o chumbo do Tribunal de Contas, em Março, à criação da referida empresa e, por esta altura “o Coliseu estaria em obras e o Balleteatro teria pegado em malas e bagagens e saído de lá”. As palavras são do presidente Rui Moreira que na Assembleia Municipal extraordinária de segunda-feira à noite fazia a revisão do processo de aquisição de um imóvel entre as Ruas Nova da Alfândega e São Francisco, propriedade da junta de freguesia do centro histórico.

O contacto inicial veio de António Fonseca. Ao ver sem uso o espaço - antiga sede da junta freguesia de São Nicolau, integrada na união do centro histórico –, o presidente da junta terá, há alguns meses, contactado a autarquia para comunicar a intenção de arrendar ou alienar o prédio. Se o executivo de Rui Moreira, que tem exercido direito de preferência em alguns locais, estivesse interessado, o imóvel no centro histórico poderia ficar para eles. “É um bom negócio”, avaliou Moreira, e “uma oportunidade importante de manter o usufruto público do edifício”. Por um milhão de euros, a Câmara adquire um prédio em zona nobre e resolve um problema que, mais dia menos dia, lhe cairia nas mãos.

“Queremos fazer obras e disponibilizar o espaço para aquilo que é uma escola profissional com interesse cultural numa zona da cidade onde queremos manter, tanto quanto possível, este tipo de actividades”, esclareceu.

Apoio encapotado?

As dúvidas vinham da bancada socialista. Gustavo Pimenta pedia a palavra para lançar a discórdia na sala: para o deputado, esta será uma forma encapotada de a câmara apoiar financeiramente a junta – e, não o assumindo, o PS não está disposto a assinar por baixo. "Isto trata-se de dotar a União de freguesias com um milhão de euros", defendeu, e “num tempo que se pugna pela descentralização” esta jogada é “uma inversão desse princípio”.

António Fonseca levantava-se para sair em defesa da casa. Responsabilidades? São do PS, acusou, já que quando os socialistas presidiram a junta de São Nicolau deixaram a casa “falida” e o prédio “degradar-se”. Até a um ponto sem retorno, pelo menos para as possibilidades financeiras da junta actual.

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Isabel Barros criou o Balleteatro com Né Barros Paulo Pimenta

À margem da polémica - que não impediu a aprovação, por maioria, com votos contra do PS, da compra do imóvel -, Isabel Barros salienta o “apoio precioso” para o Balleteatro. No novo edifício haverá salas para funcionamento total da actividade da companhia e escola. E o trabalho com a comunidade, já prática da companhia, “será ainda mais activado”.

É uma espécie de regresso às origens. Durante dez anos, o Balleteatro funcionou na Rua Infante Dom Henrique, ali perto. A “crise profunda” de 2011 e 2012, “tanto na cultura como na educação”, roubou-lhes a casa no centro histórico, entretanto transformada num hotel. Às portas de fazer 35 anos, e com o orgulho de olhar para a cidade e ver “gerações de artistas ali formadas” a trabalhar, Isabel Barros está feliz com o balão de oxigénio. É certo que estabilidade é vocábulo estranho ao dicionário dos artistas, mas ter encontrado a palavra chão é já uma vitória.