O Museu Gulbenkian tem uma nova curadora de arte islâmica

A grande exposição do Verão da fundação vai fazer-nos reflectir sobre o que está em causa quando falamos de arte islâmica. No museu, foi criada a Galeria Oriente-Ocidente, reflectindo o coleccionismo multicultural do fundador.

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Calouste Gulbenkian era muito flexível a pensar a sua colecção, que misturava arte do Ocidente e do Oriente DR

Tem o título de curadora para o Médio Oriente e está a trabalhar há um ano no Museu Gulbenkian, em Lisboa. A britânica Jessica Hallett, há vários anos a viver em Portugal, é a nova curadora para a colecção de arte islâmica, uma área de estudo que tem enfrentado vários problemas de nomenclatura nas últimas décadas, principalmente na sequência do aparecimento do jihadismo do Estado Islâmico.

Jessica Hallett foi esta terça-feira apresentada aos jornalistas pela directora do Museu Gulbenkian, Penelope Curtis, uma vez que o seu primeiro projecto importante, uma exposição dedicada à arte islâmica, é a grande exposição temporária que a Gulbenkian tem preparada para o Verão de 2019. Intitulada A Paixão pela Arte Islâmica, será uma oportunidade para olhar mais de perto a colecção islâmica feita por Calouste Gulbenkian, “uma das mais importantes do mundo”, defendeu Penelope Curtis, “mas nunca estudada devidamente”. Jessica Hallett vem juntar-se a uma equipa de dois conservadores que também trabalham a colecção, mas a directora sublinhou ao PÚBLICO que a nova curadora “é a primeira especialista em arte islâmica da Gulbenkian, porque tem formação específica na área”, um doutoramento em Oxford.

A exposição que ocupará a Galeria Principal do museu coincide com o 150.º aniversário de Calouste Gulbenkian, um arménio que nasceu no crepúsculo do Império Otomano e viveu numa Europa balizada pelas duas guerras mundiais e pelo fim dos impérios coloniais. “A exposição vai olhar para a criação da categoria de arte islâmica na primeira metade do século XX. Analisa a vida do Gulbenkian como coleccionador, como é que ele acompanha todas estas tendências, num momento da história em que as pessoas são apaixonadas pela arte islâmica”, explica Jessica Hallett ao PÚBLICO. Ou seja, o momento em que as peças islâmicas deixam de ser apreciadas no seu ambiente exótico de bricabraque e começam a ganhar estatuto de obras-primas. “É nesta transição que ele começa a coleccionar.”

Gulbenkian, que em 1914 se torna o Senhor Cinco por Cento no negócio do petróleo, transforma-se no homem mais rico do mundo em 1920, quando o preço da matéria-prima duplica. “Estamos a entrar na Grande Depressão e ele é um dos poucos coleccionadores da Europa que tem dinheiro. Os rivais do Gulbenkian são os outros homens do petróleo, como o John D. Rockfeller e o Jean Paul Getty.”

Penelope Curtis diz que a instituição espera, pouco a pouco, deixar de utilizar a designação “arte islâmica”: “O Gulbenkian não tinha interesse especial na arte islâmica, não procurava a função religiosa nas obras de arte. Só estava interessado em coisas bonitas. O termo tem sido posto muito em causa: nós também não chamamos arte cristã à pintura europeia.”

“O termo ‘arte islâmica’ é uma construção moderna e não reflecte o passado", argumenta por sua vez Jessica Hallett. ‘Arte do Islão’ ou ‘arte dos muçulmanos’ também não são exactos, porque estamos a falar de uma arte que também é muito secular e de uma área geográfica muito diversificada em termos de culturas e religiões."

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Jessica Hallett foi bolseira da Fundação Gulbenkian DR

O Bristish Museum, por exemplo, usa o termo “artes do mundo islâmico”, afirma a curadora, enquanto o Metropolitan Museum prefere a designação geográfica. “A opção por ‘arte islâmica’ surgiu porque era necessário ter um adjectivo mais abrangente do que 'muçulmano', um termo exclusivamente religioso. Dizia respeito a um espaço geográfico em que o Islão era praticado. Mas se o mundo do Islão naquela altura era pensado como o Médio Oriente e mais um bocado, hoje em dia podemos estar a falar da China, com uma população de milhões de muçulmanos, da Inglaterra e de Birmingham, do Canadá, dos Estados Unidos, mas também da Indonésia ou da África Ocidental.”

A colecção do Met, por exemplo, está agregada nas “Galerias para a Arte das Terras Árabes, Turquia, Irão, Ásia Central e Ásia do Sul", um termo demasiado comprido, reconhece com uma gargalhada Jessica Hallett. Mas a nova curadora acha que na Gulbenkian não vai enfrentar a mesma ambivalência na tentativa de descolar do termo “arte islâmica”: “A nossa colecção é tão restrita geograficamente – Egipto, Síria, Turquia, Irão – que não vai haver um problema. Mas vai ser difícil não usar o termo, porque ele ajuda-nos a indicar a cultura mundial criada em contextos em que há muçulmanos.”

Um coleccionador flexível

Na apresentação da programação para 2019 desta terça-feira, Penelope Curtis falou também nas mudanças introduzidas na exposição permanente da Colecção do Fundador, que quer mostrar como o próprio era "muito flexível" a pensar o seu acervo, misturando obras do Oriente e do Ocidente. Nesse espírito, foi agora criada a Galeria Oriente-Ocidente, explorando as trocas entre Veneza e Istambul por volta de 1500. No coração das galerias dedicadas à Arte Europeia, a cerâmica dos medalhões Della Robbia, mestres do Renascimento, aparece ao lado da dos azulejos de Iznik, na actual Turquia, “mostrando que têm muito em comum”, defende a nova curadora: “Ambas usam este material impermeável para trazer cor e luz para a arquitectura.”

Na mesma galeria, uma medalha do sultão Maomé II, realizada por Gentille Bellini, mostra como o Império Otomano se comparava também aos Césares romanos. Bellini foi igualmente autor de um famoso retrato do mesmo soberano que está na National Gallery de Londres, feito quando o artista visitou a corte otomana a pedido de Maomé II e se iniciou um intercâmbio artístico. 

Além destas exposições dedicadas à arte islâmica, a Colecção do Fundador vai também propor uma exposição sobre a museografia original do museu, no ano em que este faz 50 anos. Quanto à Colecção Moderna, as mudanças introduzidas dão a ver parte das novas aquisições, feitas com o orçamento anual de 500 mil euros, estando igualmente previstas exposições temporárias de Yto Barrada, Francisco Tropa, Filipa César, Sarah Affonso, Irineu Destourelles e Robin Fior.